        JOSTEIN GAARDER

      A GAROTA DAS LARANJAS

   Traduo: LUIZ ANTNIO DE ARAJO




Jostein Gaarder e H. Aschehoug & Co.
Ttulo original: Appelsinpiken
Traduo autorizada pelo autor, a partir da verso alem de
Gabriele Haefs (Das Orangenmdchen)
Ilustrao da capa: Maria Eugnia
Preparao: Rafael Mantovani
Reviso: Renato Potenza Rodrigues Cludia Cantarin
         Georg Roed mal conheceu o seu pai, Jan Olav,
que morreu de uma doena incurvel quando o garoto no
tinha nem quatro anos de idade. Porm uma longa carta de
despedida, escrita pelo pai poucos dias antes de sua morte,
d incio a uma comunicao entre o presente e o passado.
         Na carta, que durante onze anos ficou escondida
no forro de um velho carrinho de beb, Jan Olav se dirige
a um Georg adolescente, mais apto a entender alguns
assuntos que uma criana pequena no compreenderia. O
garoto, ao ler as palavras do pai, descobre afinidades
secretas que tinha com ele: uma certa curiosidade filosfica,
o interesse pelas fotos tiradas pelo telescpio Hubble, e o
olhar atento para o Universo. Em meio a reflexes e
perguntas, Jan Olav conta ao filho uma histria real, acerca
de uma personagem misteriosa: a garota das laranjas,
desconhecida que surge por acaso pelas ruas de Oslo
levando sempre nas mos um saco enorme de laranjas, e
que suscita um amor instantneo e uma srie de perguntas
sem resposta na imaginao do jovem Jan Olav. Ao relatar
a sua busca por essa figura quase sobrenatural, o pai tece
com o filho um dilogo que mexe fundo com as emoes
de Georg. E tambm lhe faz uma pergunta muito
importante, de cuja resposta podem depender os rumos
que o menino tomar ao ingressar na vida adulta.
         Escrito no estilo j caracterstico de Jostein
Gaarder, este livro desenha uma histria semelhante a um
quebra-cabea, uma trama costurada com mistrios e
divagaes filosficas sobre a condio humana, a confron-
tao com a morte e outros enigmas da nossa existncia.
        Jostein Gaarder nasceu em 1952 na Noruega.
Estudou filosofia, teologia e literatura, e foi professor
durante dez anos. Estreou como escritor em 1986,
tornando-se logo um autor de destaque. Ganhou projeo
internacional em 1991, com O Mundo de Sofia, j traduzido
para mais de quarenta idiomas. A garota das laranjas  o 13
livro do autor lanado pela Cia. das Letras.




         "Muitas vezes eu tentei me imaginar a no futuro,
mas nunca consegui ter uma idia nem mesmo aproximada
de voc agora, na sua vida atual. A nica coisa que sei 
quem voc . S isso. No sei sequer com que idade voc
est lendo isto. Talvez tenha doze ou catorze anos, e eu, o
seu pai, h muito estou fora do tempo.
         Hoje -- ou seja, no dia em que me ler -- voc por
certo j ter esquecido a maior parte do que ns dois
vivemos nos meses quentes daquele vero em que voc
tinha trs anos e meio. Mas esses dias continuam nos
pertencendo, e ns ainda podemos passar muitas noras
agradveis juntos.
         Vou contar uma coisa que atualmente no consigo
tirar da cabea: a cada dia que passa e a cada coisinha  toa
que ns dois fazemos, aumenta a possibilidade de voc se
lembrar de mim. Agora eu conto as semanas e os dias. Na
tera-feira, ns estivemos no alto da torre de Tryvann, de
onde se pode ver a metade do reino, dava para enxergar at
a Sucia. Mame tambm foi, fomos os trs. Mas ser que
voc se lembra disso?"

                         Traduo de Luiz Antnio de Arajo



        Obras de Jostein Gaarder publicadas pela
                Companhia das Letras

       O mundo de Sofia (1995)
       O dia do curinga (1996)
       Vita brevis (1997)
       Ei! Tem algum a?(1997)
       Atravs do espelho (1998)
       Mistrio de Natal (1998)
       O mundo de Sofia (CD-ROM; 1998)
       O livro das religies (2000)
       Maya (2000)
       O pssaro raro (2001)
       O castelo do prncipe sapo (2002)
       A biblioteca mgica de Bibbi Bokken (2003)
       O vendedor de histrias (2004)
       A garota das laranjas (2005)
          A GAROTA DAS LARANJAS

          Meu pai morreu h onze anos. Na poca, eu nem havia com-
pletado quatro. No esperava voltar a ter notcia dele, no entanto agora
ns estamos escrevendo um livro juntos.
          Estas so as primeiras linhas do livro e, embora eu as esteja
escrevendo, meu pai tambm vai participar. Afinal,  ele quem mais
tem o que contar.
          No sei dizer se me lembro do meu pai. s vezes acho que
s acredito que me lembro dele por ter visto muitas e muitas vezes as
suas fotografias.
          S de uma recordao eu tenho certeza absoluta; quer dizer,
certeza de que  autntica. Foi algo que aconteceu quando ns est-
vamos l fora, na varanda, contemplando as estrelas.
          Numa fotografia, papai e eu aparecemos no velho sof de
couro da sala. Ele parece estar contando uma coisa engraada. O sof,
ns ainda o temos, mas meu pai j no se senta nele.
          Em outra foto, ns dois estamos muito bem instalados na ca-
deira de balano verde do jardim-de-inverno. O retrato continua
pendurado no mesmo lugar desde a morte do meu pai. Agora eu acabo
de me sentar na cadeira de balano verde. Procuro no balan-la, pois
quero escrever o que penso num caderno grosso. E depois passar tudo
para o velho computador do meu pai.
          Tambm tenho o que contar sobre esse computador, mas prefi-
ro deixar para mais tarde.
          Sempre achei esquisito colecionar fotografias antigas. Elas
pertencem a outro tempo.
          No meu quarto h um lbum cheio de fotos do meu pai.
Acho meio sinistro guardar tantos retratos de uma pessoa que j deixou
de viver. Tambm temos o meu pai em vdeo. Fico todo arrepiado
quando o ouo falar. Ele tinha um vozeiro grosso, de trovoada.
          Penso que deviam proibir os vdeos de gente que no existe
mais, ou que j no est entre ns, como prefere dizer a minha av. No
acho certo ficar espreitando os mortos.
          Em alguns vdeos, eu tambm ouo a minha prpria voz. 
muito fina e aguda. Lembra um filhote de passarinho.
          Naquele tempo era assim: meu pai fazia o baixo; eu, o
falseie.
          Num dos vdeos, estou montado nos ombros dele, tentando
pegar a estrela no alto da rvore de Natal. Embora s tivesse um ano
naquele tempo, faltou pouco para que eu conseguisse.
          s vezes, quando assiste aos vdeos do meu pai comigo,
mame afunda na poltrona e cai na gargalhada, muito embora fosse ela
prpria quem estava atrs da cmera, gravando tudo. No gosto que
riam dos vdeos do meu pai. Aposto que ele tambm no gostaria disso.
Talvez dissesse que  contra o regulamento.
          Em outra fita, papai e eu estamos em frente  nossa casa de
campo em Fjellstolen, os dois curtindo o sol da Pscoa, cada um com
meia laranja na mo. Eu tento chupar a minha sem descascar. Meu
pai deve estar pensando em outras laranjas, isso eu sou capaz de
apostar.
          Pouco depois dessa viagem de Semana Santa, ele comeou a
notar que no estava bem de sade. Passou mais de meio ano doente,
com medo de morrer. Acho que sabia que isso no ia demorar a
acontecer.
          Mame j me disse vrias vezes que o que mais o entristecia
era morrer sem ter me conhecido para valer. A minha av tambm diz
isso, s que de um jeito um tanto mstico.
          Vov sempre fica esquisita quando fala no papai. No  de
admirar. Meus avs perderam um filho adulto. O que eles sentiram eu
no sei. Sorte que ainda tm um filho vivo. Mas vov nunca ri quando
olha para os velhos retratos do meu pai. Fica muito compenetrada. Isso
 ela mesma quem diz.
          Na poca, meu pai decidiu que era impossvel conversar para
valer com um garotinho de trs anos e meio. Hoje eu entendo isso, e voc
tambm vai entender quando tiver lido este livro.
          Tenho uma fotografia do meu pai numa cama de hospital,
com o rosto muito magro. Eu estou no seu colo, e ele segura as
minhas mos com fora para que eu no caia. Tenta sorrir para mim.
A foto foi tirada poucas semanas antes da sua morte. Preferia no ter
esse retrato, mas, j que o tenho, no posso jog-lo fora. Nem posso dei-
xar de olhar muitas vezes para ele.
          Hoje eu tenho quinze anos, ou, para ser mais exato,
quinze anos e trs semanas. Chamo-me Georg Roed e moro no
Humlevei, em Oslo, com minha me, Jorgen e Miriam. Jorgen  o meu
novo pai, mas eu o chamo assim mesmo, pelo nome. Miriam  a minha
irmzinha. Tem s um ano e meio, portanto  pequena demais para que
se possa conversar com ela.
          Obviamente, no h fotografias nem vdeos antigos em que
Miriam aparea com o meu pai. O pai dela  Jorgen. Eu era o nico fi-
lho do meu.
          No fim deste livro, vou contar coisas interessantssimas
sobre Jorgen. Por enquanto, no posso falar nada, mas quem ler ver.
          Quando papai morreu, os meus avs vieram ajudar mame
a arrumar as coisas dele. Mas uma delas, que era importante, ningum
conseguiu encontrar: uma coisa que meu pai havia escrito antes de ir
para o hospital.
          Na poca, ningum sabia de nada. A histria da "garota das
laranjas" s apareceu na segunda-feira passada. Vov foi buscar no
sei o que no sto e a encontrou no forro do carrinho vermelho, no qual
me levavam para passear quando eu era beb.
          Como isso foi parar l  um mistrio. Por acaso no h de ter
sido, pois a histria que meu pai escreveu, quando eu estava com trs
anos e meio, tem muito a ver com carrinho de beb. No quer dizer que
seja uma histria tpica de carrinho de beb, isso ela no , mas meu pai
a escreveu para mim. Escreveu a histria da "garota das laranjas"
para que eu a lesse quando estivesse crescido o bastante para
compreend-la. Escreveu uma carta para o futuro.
          Se foi ele mesmo que escondeu no forro do velho carrinho as
muitas folhas que contm a histria, devia estar convencido de que as
cartas sempre do um jeito de chegar ao destinatrio. Eu andei
pensando e conclu que, por via das dvidas, convm sempre revistar
muito bem os trastes velhos antes de vend-los na feira de antiguidades
ou jog-los no lixo. Nem me atrevo a imaginar com quantas cartas
antigas e coisas parecidas a gente no h de topar num aterro sanitrio.
          Numa coisa eu tenho pensado muito nos ltimos dias. Acho
que devia existir um mtodo de mandar cartas para o futuro bem mais
simples do que enfi-las no forro de um carrinho de beb.
          Pode acontecer de escrevermos algo que s deva ser lido dentro
de quatro horas, quinze dias ou quarenta anos. A histria da "garota
das laranjas", por exemplo. Foi escrita para um Georg de doze ou
catorze anos, ou seja, para um Georg que meu pai no conhecia e que
decerto sabia que nunca ia conhecer.
          Mas acho que enfim chegou a hora de partir para a
histria.
          H pouco menos de uma semana, voltei da aula de msica e
dei com os meus avs aqui em casa: uma visita surpresa. Tinham
chegado de Tonsberg de uma hora para a outra e pretendiam ficar at
o dia seguinte.
          Mame e Jorgen tambm estavam aqui, e os quatro pareciam
incrivelmente ansiosos quando eu entrei e tirei os sapatos. Embora os
sapatos estivessem sujos e molhados, ningum ligou. Todos estavam
pensando em coisa muito diferente. Eu tive a sensao de que havia algo
no ar.
          Mame disse que Miriam j estava dormindo, e ela parecia
estar achando timo, j que os meus avs tinham chegado. Afinal, eles
no so avs de Miriam. Miriam tem os dela. Tambm so boa gente
e vm nos visitar de vez em quando, mas famlia, cada um com a sua.

          Fui para a sala e me sentei no tapete, e todo mundo estava
to srio que cheguei a pensar que tivesse acontecido alguma coisa grave.
No me lembrava de ter aprontado nada no colgio ultimamente,
voltara da aula de piano diretamente para casa, sem demora, e fazia
muitos meses que no roubava da cozinha nem uma moeda de dez
coroas. Por isso me limitei a perguntar:
          -- O que aconteceu?
          E ento vov se ps a contar que tinha achado a carta que
meu pai escreveu para mim pouco antes de morrer. Senti um frio no es-
tmago. Fazia onze anos que ele tinha morrido. Eu nem sabia ao cer-
to se me lembrava dele. Uma carta do meu pai, aquilo me pareceu
terrivelmente solene, quase um testamento.
          Foi quando reparei que vov estava com um envelope grosso
na mo. Ela o colocou nas minhas. Estava fechado e com apenas duas
palavras escritas: "para Georg". No era a letra da minha av,
tampouco a da minha me nem a de Jorgen. Eu abri o envelope e tirei
um mao grosso de papis. E estremeci, porque na primeira pgina
estava escrito:

       Voc est sentado, Georg?  bom que esteja,
porque eu vou lhe contar uma histria eletrizante...

         Fiquei meio zonzo. O que era aquilo afinal? Uma carta
do meu pai? Mas seria autntica?
         "Voc est sentado, Georg?" Tive a impresso de estar ouvin-
do aquele vozeiro de trovoada, e agora no s no vdeo, eu a ouvia como
se meu pai tivesse ressuscitado de uma hora para a outra e estivesse ali
na sala conosco.
         Embora o envelope estivesse fechado, achei bom perguntar se
os adultos j tinham lido aquelas pginas, mas todos negaram com a
cabea e garantiram que no tinham lido uma palavra.
          -- Absolutamente nada -- disse Jorgen, e sua voz me
pareceu acanhada, coisa no muito tpica dele. Mas ele acrescentou que,
quando eu terminasse, talvez eu pudesse deix-los ler a carta do meu
pai. Devia estar louco para saber o que havia nela. Sei l por qu, achei
que estava com a conscincia pesada.
          A minha av contou por que eles tinham resolvido pegar o
carro aquela tarde e vir para Oslo. Acreditavam ter decifrado uma
velha charada, segundo as prprias palavras dela. Aquilo me pareceu
um bocado misterioso, e era misterioso mesmo.
          Quando adoeceu, meu pai contou  mame que queria
deixar um texto para mim. Uma carta que eu lesse quando crescesse.
Mas essa carta nunca apareceu, e agora eu estava com quinze anos.
          A novidade era que vov tinha se lembrado, subitamente, de
outra coisa que meu pai dissera. Ele tinha pedido muito que a gente
nunca se desfizesse do carrinho vermelho, em hiptese alguma. Vov
acreditava recordar quase literalmente as palavras dele no hospital:
          -- Guardem o carrinho. Por favor, no o joguem fora. Ele
teve um grande significado para Georg e para mim nos ltimos meses.
Quero que Georg fique com ele. Contem-lhe isso um dia. Quando tiver
idade para entender, contem que eu quero muito que ele fique com
aquele carrinho.
          Por isso nunca jogaram fora nem venderam o velho carrinho
de beb. Coisa que at Jorgen acatou. No dia em que se mudou para o
Humlevei, ficou sabendo que havia uma coisa na qual ele no podia
tocar: o carrinho vermelho. E levou isso to a srio que comprou um
carrinho novo em folha para Miriam. Talvez no gostasse muito da
idia de levar a filha para passear no mesmo carrinho em que, muitos
anos atrs, o meu pai me levava, talvez fosse por respeito ao meu pai.
Mas tambm  possvel que ele simplesmente tenha preferido comprar
um carrinho mais moderno. Mesmo porque ele adora tudo que est na
moda, para no dizer que  uma vtima das grifes.
          Ento era isso: uma carta e um carrinho de beb. E vov levou
onze anos para decifrar a charada. S agora tinha lhe ocorrido que
talvez valesse a pena mandar algum subir ao sto e examinar o velho
carrinho com mais cuidado. E a intuio no a enganou. O carrinho
no era um mero carrinho. Era uma caixa de correio.
          Eu no estava to convencido assim de que convinha
acreditar nessa histria.  impossvel saber se os pais e os avs esto
dizendo a verdade, pelo menos quando se trata de "assuntos delicados",
como vov gosta de dizer.
          Hoje o maior mistrio para mim  por que, na poca, h onze
anos, no ocorreu a ningum ligar o computador do meu pai. Afinal foi
l que ele escreveu a carta.  claro que tentaram, mas faltou-lhes
imaginao para adivinhar a senha. Podia ter no mximo oito letras,
naquele tempo os computadores no eram capazes de mais do que isso.
Entretanto, nem mame conseguiu decifrar a senha. Francamente, 
incrvel. E eles simplesmente guardaram o computador no sto!
          Eu ainda vou contar a histria do computador do papai com
mais detalhes.

         Bom, acho que est na hora de finalmente dar a palavra ao
meu velho. Se bem que, vez ou outra, eu pretenda interpor um coment-
rio. Tambm vou escrever um posfcio.  necessrio, pois em sua longa
carta meu pai me faz uma pergunta muito sria. E a minha resposta
a essa pergunta tem uma importncia enorme para ele.
         Fui para o quarto com uma garrafa de refrigerante e o
mao de papis. Quando tranquei a porta, coisa que nunca fao,
mame reclamou um pouco, mas acabou entendendo.
         Era to solene a sensao de estar lendo a carta de algum que
j no estava vivo, que eu no podia tolerar a idia de ter o resto da
famlia me cercando. Afinal, a carta era do meu pai, que j estava
morto fazia onze anos. Eu precisava ficar sozinho.
         Foi estranhssimo estar com aquela papelada nas mos, era
mais ou menos como ter achado um lbum com fotografias novinhas,
minhas e do meu pai. L fora nevava sem parar. Quando sa da escola
de msica, estava comeando a nevar. Mas no achei que fosse durar
muito. Novembro mal havia comeado.
         Sentei-me na cama e comecei a ler.

        Voc est sentado, Georg?  bom que esteja,
porque eu vou lhe contar uma histria eletrizante... Talvez
j tenha se instalado confortavelmente no sof de couro
amarelo. Isso caso vocs no o tenham trocado por outro,
como eu vou saber? Tambm posso perfeitamente
imagin-lo na velha cadeira de balano do
jardim-de-inverno, da qual voc sempre gostou tanto. Ou
ser que est l fora na varanda? No sei qual  a estao do
ano. E, alm disso,  possvel que vocs j nem morem mais
no Humlevei.
        Como hei de saber?
        Eu no sei nada. Quem  o chefe do governo
noruegus?
        Como se chama o secretrio-geral das Naes
Unidas? E, diga, como vai o telescpio Hubble? Voc tem
idia? Ser que os astrnomos j sabem como  feito o
universo?

         Muitas vezes eu tentei me imaginar a no futuro,
mas nunca consegui ter uma idia nem mesmo aproximada
de voc agora, na sua vida atual. A nica coisa que sei 
quem voc . S isso. No sei sequer com que idade voc
est lendo isto. Talvez tenha doze ou catorze anos, e eu, o
seu pai, h muito estou fora do tempo.
         O fato  que j me sinto uma assombrao, tenho
de respirar fundo toda vez que penso nisso. Agora entendo
por que os fantasmas no param de fungar e bufar como
bobos. No  para assustar as pessoas que vieram depois
deles.  porque acham dificlimo respirar em outra poca
to diferente.
        No  s um lugar na existncia que ns temos.
Temos um tempo limitado que nos foi atribudo.
         assim, e s posso tomar como ponto de partida
as coisas que agora me rodeiam. Escrevo em agosto de
1990.

         Hoje -- ou seja, no dia em que me ler -- voc por
certo j ter esquecido a maior parte do que ns dois
vivemos nos meses quentes daquele vero em que voc
tinha trs anos e meio. Mas esses dias continuam nos
pertencendo, e ns ainda podemos passar muitas horas
agradveis juntos.
         Vou contar uma coisa que atualmente no consigo
tirar da cabea: a cada dia que passa e a cada coisinha  toa
que ns dois fazemos, aumenta a possibilidade de voc se
lembrar de mim. Agora eu conto as semanas e os dias. Na
tera-feira, ns estivemos no alto da torre de Tryvann, de
onde se pode ver a metade do reino, dava para enxergar at
a Sucia. Mame tambm foi, fomos os trs. Mas ser que
voc se lembra disso?
         No pode ao menos tentar recordar, Georg? Tente,
faa um esforo, pois isso tudo est a, em algum lugar
dentro de voc.
         Lembra daquele seu trem enorme de madeira?
Todo dia voc passa horas brincando com ele. Eu o estou
vendo agora. Os trilhos, vages e balsas espalhados no
cho, exatamente como voc os deixou h pouco. No fim,
eu precisei faz-lo largar tudo porque estava na hora de ir
ao jardim-de-infncia, mas ainda tenho a impresso de que
as suas mozinhas continuam tocando no brinquedo. No
tive coragem de tirar um s trilho do lugar.
        Lembra do computador em que ns jogamos
tantos jogos no fim de semana? Quando era novo, ele
ficava no meu escritrio, mas na semana passada eu o
trouxe para baixo. Agora prefiro passar o dia aqui, onde
esto as suas coisas. E,  tarde, voc fica aqui comigo, a
mame tambm. E a vov e o vov tm me visitado com
mais freqncia. Ainda bem.
        Lembra do velocpede verde? Est l fora, na
entrada da casa, quase novo em folha. Se voc ainda se
lembrar dele, deve ser porque continua jogado num canto
da garagem ou do sto, velho e intil, imagino. Ou ser
que foi parar no ferro-velho?
        E que fim levou o carrinho de beb vermelho,
Georg? Sim, o que ter sido feito dele?
        No  possvel que voc no tenha retido na
memria nenhuma imagem das tantas vezes em que fomos
passear  beira da lagoa de Sognsvann, por exemplo. Ou
das nossas visitas  casa de campo. Fomos trs fins de
semana seguidos a Fjellstolen. Mas agora eu no me atrevo
a fazer mais nenhuma pergunta, juro que no, talvez voc
no lembre de absolutamente nada do tempo de Georg que
tambm era o meu tempo. Fazer o qu?
        Quero contar uma histria, isso eu j anunciei, mas
no h de ser num passe de mgica que vou encontrar o
tom adequado para esta carta. Afinal, j cometi o erro de
me dirigir ao garotinho que acho que conheo to bem.
Mas voc no  mais criana, j que est lendo estas linhas.
No  mais o meu garotinho de cachos dourados.
        Chego a ouvir a minha voz, estou tagarelando
feito uma velha empenhada em agradar as criancinhas, e
isso  uma tolice, pois agora estou  procura do Georg
grande -- que eu nunca vi, com quem nunca vou poder
conversar de verdade.

        Consulto o relgio. Faz s uma hora que voltei do
jardim-de-infncia, aonde fui levar voc.
        Sempre que a gente atravessa o crrego, voc quer
se debruar no carrinho e jogar um pedacinho de pau ou
uma pedra na gua. Outro dia, achou uma garrafa de suco
vazia e tambm a jogou l dentro. Eu no fiz nada para
impedi-lo. Hoje em dia, deixo voc fazer praticamente tudo
que quer. E, quando a gente chega ao jardim-de-infncia,
geralmente voc me larga e vai se juntar aos outros meninos,
sem se despedir. At parece que  voc que est correndo
atrs do tempo, no eu. E  uma idia estranha. Geralmente,
os velhos aparentam ter mais tempo do que as crianas
pequenas, que esto com a vida inteira pela frente.
        Eu no sou to velho assim, pelo menos ainda me
considero moo ou pelo menos um pai moo. No entanto,
queria poder deter o tempo. No me importaria se os dias
atuais se prolongassem por toda a eternidade.
Naturalmente, chegariam a tarde e a noite, pois o dia tem l
o seu decurso, o seu ritmo prprio, cclico, mas por mim o
dia seguinte podia comear exatamente no mesmo ponto
que o anterior.
        J no sinto necessidade de ver ou viver mais do
que vi ou vivi. A nica coisa que quero, e muito,  reter o
que tenho. Mas h ladres em atividade, Georg. Hspedes
indesejveis comearam a sugar a minha fora vital.
Deviam ter vergonha disso.
        Hoje em dia eu acho particularmente gostoso e
particularmente difcil levar voc ao jardim-de-infncia.
Pois, embora ainda possa andar sem problemas e at
consiga empurrar o carrinho, sei perfeitamente que o meu
corpo est muito enfermo.
        So molstias implacveis que nos prendem
imediatamente  cama. Em geral, uma doena terrvel
precisa de muito tempo para finalmente derrubar a pessoa e
nocaute-la de vez.  possvel que voc ainda se lembre de
que eu era mdico, a mame h de ter contado alguma coisa
a meu respeito, disso eu tenho certeza. Agora tirei licena
por motivos de sade e sei do que estou falando. No sou
um doente que se deixa enganar.
        Portanto existem dois tempos diferentes em nossa
conta, ou em nosso ltimo encontro. s vezes eu tenho a
sensao de que cada um de ns est no alto de uma
montanha envolta em neblina, um tentando achar o outro
na distncia. Entre ns h um vale encantado pelo qual
voc acaba de passar no caminho da vida, mas onde eu
nunca pude v-lo. Apesar disso, nesta tarde, enquanto voc
est no jardim-de-infncia, eu preciso tentar me concentrar
no agora -- no momento em que voc, um dia, estiver
lendo isto que lhe pertence exclusivamente.

       Voc precisa saber que eu chego a ter arrepios
quando penso que estou escrevendo para um filho que
sobreviveu a mim, e tambm sei que vai doer um pouco ler
o que estou escrevendo. Mas voc j  um rapaz. Se eu
consegui escrever estas linhas, voc h de conseguir l-las.
       Olhe, eu levo em conta o fato de que talvez eu
tenha de abandonar tudo o que existe, o Sol, a Lua, tudo
mesmo, mas principalmente a mame e voc. Essa  a
verdade, e ela di.
        Quero lhe fazer uma pergunta importante, Georg,
por isso estou escrevendo. Mas antes de faz-la, preciso
contar a histria eletrizante que prometi.
        Desde que voc nasceu eu quero ter a alegria de lhe
contar a histria da garota das laranjas. Hoje -- quer dizer,
agora, enquanto escrevo -- voc  muito pequeno para
entend-la. Por isso ela vai ser a pequena herana que lhe
deixo. Tem de ficar guardada em algum lugar,  espera de
um outro dia na sua vida.
        Pois esse dia chegou.

                                ***

          Nesse ponto da leitura, eu tive de parar. Tantas vezes
havia tentado me lembrar do meu pai, e agora estava tentando de
novo. Era o que ele me pedia. Mas me parecia que todas as minhas
recordaes provinham dos vdeos e do lbum de retratos.
          Lembrei que antigamente eu possua um trem de madeira
enorme, mas isso no tornou mais clara a memria do meu pai. O velo-
cpede verde continuava na garagem. Dele sim eu me lembrava ni-
tidamente, disso tinha certeza. E o carrinho de beb vermelho sempre
esteve no fundo do sto. Mas dos passeios  beira da lagoa eu no
guardava nenhuma reminiscncia. Nem da visita  torre de Tryvann
com meu pai. Estive muitas vezes nessa torre, mas com a mame e
Jorgen. Uma vez estive l s com Jorgen, foi quando Miriam nasceu e
a mame estava na maternidade.
          Da casa de campo de Fjellstolen  claro que eu tinha muitas
lembranas. Mas meu pai no aparecia nelas. S havia a mame,
Jorgen e a pequena Miriam. L ns tnhamos um velho caderno, e eu
li muitas vezes as coisas que meu pai anotou antes de morrer. S que o
problema era eu no saber se recordava mesmo das coisas que ele
mencionava. Era mais ou menos como com as fotos e os vdeos antigos.
"Na tarde de Sbado de Aleluia, Georg e eu construmos uma casinha
de neve altssima e acendemos velas dentro dela..."  claro que eu tinha
lido essas histrias, at sabia de cor algumas delas. Mas nunca pude me
lembrar de que estava mesmo l quando tudo aquilo aconteceu. S
tinha dois anos e meio quando meu pai e eu construmos a tal casinha
de neve altssima e cheia de velas acesas. Temos at uma fotografia dela,
mas est to escura que s d para ver as velas.
          E meu pai perguntava mais uma coisa na longa carta que
eu estava lendo:

        E, diga, como vai o telescpio Hubble? Voc tem
idia? Ser que os astrnomos j sabem como  feito o
universo?

           Senti um frio na espinha ao ler essas palavras, pois
acabava de fazer um trabalho enorme sobre esse telescpio espacial, o
Hubble Space Telescope, como dizem em ingls. Meus colegas de
classe escreveram sobre o futebol da Inglaterra, as Spice Girls ou
Roald Dahl. Mas eu fui  biblioteca, peguei todos os livros que havia
sobre o Hubble e escrevi sobre ele. Fazia poucas semanas que entregara
o trabalho, e o professor tinha escrito, no meu caderno, que estava
admiradssimo com "uma abordagem to adulta, cuidadosa e funda-
mentada de um tema dificlimo". Acho que nunca fiquei to orgulhoso
como no momento em que li essa mensagem. O ttulo do comentrio do
professor era: "Flores para um astrnomo amador!". E ele ainda teve
o capricho de desenhar um buqu.
           Ser que o meu pai era vidente? Ou no passava de mera
coincidncia ele perguntar sobre o telescpio espacial to pouco tempo
depois de eu entregar o trabalho no colgio?
           Ou ser que aquela carta era falsa? Ser que o meu pai ainda
estava vivo? E, uma vez mais, eu senti um frio na espinha.
          Eu estava sentado na cama, pensando. O telescpio Hubble
tinha sido lanado na rbita da Terra, pela espaonave Discovery, no
dia 25 de abril de 1990. Foi justamente nessa poca que meu pai adoe-
ceu, logo depois da Pscoa de 1990. Disso eu sabia. S que eu nunca
tinha pensado nessa coincidncia. Talvez ele tivesse sabido que estava
doente exatamente no dia em que a Discovery partiu do Cabo
Canaveral com o telescpio Hubble a bordo, vai ver que tinha acon-
tecido exatamente na mesma hora, no mesmo instante.
          Nesse caso, era at fcil entender o porqu de tanto interesse
pelo destino do Hubble. No tardou para que se constatasse que o seu
espelho principal estava com defeito. Meu pai no podia ter sabido que
os astronautas da espaonave Endeavour resolveram esse problema
em dezembro de 1993, pois nessa poca j fazia trs anos que ele estava
morto. Obviamente, ele tambm no sabia dos fantsticos aparelhos
que foram acrescentados ao telescpio em fevereiro de 1997.
          Meu pai morreu sem saber que, at ento, o Hubble havia
tirado as melhores e mais ntidas fotografias do universo. Eu encontrei
muitas delas na internet e usei vrias no meu trabalho. Alm disso,
afixei na parede do meu quarto algumas das que eu mais gostava, por
exemplo, aquela imagem muito ntida da estrela gigante Eta Carina,
que est a mais de 8 mil anos-luz de distncia do nosso sistema solar.
A Eta Carina  uma das estrelas mais macias da Via Lctea e, em
breve, vai explodir como uma supernova, para enfim contrair-se at se
transformar numa estrela de nutrons ou num buraco negro. Outra foto
que eu adoro  a da gigantesca coluna de gs e poeira da nebulosa da
guia (tambm chamada M16).  l que nascem as estrelas novas!
          Atualmente a gente sabe muito mais sobre o universo do
que em 1990, em grande parte graas ao telescpio Hubble. Ele tirou
milhares de fotografias de galxias e nebulosas situadas a milhes de
anos-luz da Via Lctea. Alm disso, forneceu imagens incrveis do
passado do universo. Pode parecer meio mgico falar em fotografias do
passado, mas olhar para o universo  a mesma coisa que retroceder no
tempo. A luz se desloca a uma velocidade de 300 mil quilmetros por
segundo e, mesmo assim, a das galxias mais distantes pode levar
bilhes de anos para chegar at ns, pois o universo  espantosamente
vasto. O telescpio Hubble tirou fotografias de galxias que ficam a
mais de 12 bilhes de anos-luz, o que significa que ele recuou mais de
22 bilhes de anos na histria do universo. A idia  ainda mais
fantstica porque, na poca, o universo no chegava a ter um bilho de
anos de idade. O telescpio Hubble quase consegue enxergar o Big
Bang, atravs do qual surgiram o espao e o tempo. Eu sei muita coisa
a respeito, por isso estou escrevendo. S no posso contar tudo o que sei.
Afinal, o meu trabalho ficou com nada menos que quarenta e sete
pginas!
          Achei sinistro meu pai mencionar o telescpio espacial na
carta. Sempre me interessei pela pesquisa espacial, e talvez a capacidade
de desviar a vista das coisas que se passam neste planeta seja hereditria.
Mas eu tambm podia ter escrito um trabalho sobre o programa Apollo
e os primeiros seres humanos que desceram na Lua. Podia ter escrito
sobre as galxias e os buracos negros, pois tambm sei tudo sobre as
galxias e os buracos negros, sem falar nas galxias com buracos negros.
Podia ter falado no sistema solar com os novos planetas e os grandes
anis de asterides entre Jpiter e Marte. Ou sobre os telescpios
gigantes do Hava. Mas decidi escrever justamente sobre o Hubble.
Como foi que meu pai adivinhou?
          Que ele falasse no secretrio-geral das Naes Unidas era
mais fcil de entender: eu nasci em 24 de outubro, ou seja, no dia da
ONU. A propsito, o secretrio-geral se chama Kofi Annan. E o chefe
do governo noruegus  Kjell Magne Bondevik, que acaba de suceder a
Jens Stoltenberg.
          Eu pensava em todas essas coisas quando mame bateu na
porta, querendo saber se estava tudo bem.
          -- Preciso ficar sozinho -- foi a minha resposta. Afinal, eu
s tinha lido as primeiras quatro pginas.
         Pensei: conte papai, conte. Conte a histria da "garota das
laranjas". Estou esperando. Pois chegou o dia. O dia e a hora de l-la.

         A histria da garota das laranjas comea numa
tarde em que eu estava esperando o bonde em frente ao
Teatro Nacional. Era o fim do outono de um dos ltimos
anos da dcada de 1970.
         Lembro que estava pensando na faculdade de
medicina, na qual eu acabava de ingressar. Era estranho
imaginar que um dia seria mdico de verdade, que
receberia no consultrio clientes dispostos a pr o destino
em minhas mos. De guarda-p branco, atrs de uma
escrivaninha enorme, eu diria: "Vamos ter de pedir exame
de sangue, sra. Johnsen", ou: "Faz tempo que a senhora
sente isso?".
         Ento o bonde finalmente chegou. Eu o vi de longe,
vinha deslizando devagar, passou primeiro pelo Parlamento,
depois pela Stortingsgate. E, se h uma coisa que desde
aquela tarde sempre me fez ficar matutando,  o fato de eu
simplesmente no lembrar aonde estava indo. Em todo
caso, pouco depois, embarquei no bonde azul-claro lotado,
cujo ponto final ficava em Frogner.
         A primeira coisa que notei foi uma estranha garota
que viajava de p, levando um enorme saco de papel cheio
de laranjas. Estava com um anoraque alaranjado, e o saco
que apertava junto ao corpo com muita determinao era
to grande, to pesado que parecia prestes a cair de uma
hora para a outra. Mas no foram as laranjas que me
chamaram ateno, e sim a moa que as carregava. Vi
imediatamente que ela tinha uma coisa muito especial, algo
insondavelmente mgico e encantador.
         Alm disso, percebi que estava olhando para mim,
que de certo modo havia me escolhido entre todos os
passageiros que se acotovelavam no bonde, e, no decorrer
de um nico segundo, foi como se ns dois tivssemos
firmado uma espcie de aliana secreta. Logo que entrei, ela
cravou os olhos em mim, e talvez eu tenha desviado a vista,
 bem possvel que sim, porque naquele tempo eu era
irremediavelmente tmido. Mesmo assim, recordo que, no
breve trajeto de bonde, tive certeza absoluta de que nunca
mais esqueceria aquela garota. No sabia quem era nem
como se chamava, mas bastou um olhar, o primeiro olhar,
para que ela passasse a ter um poder incrvel sobre mim.
        Meia cabea mais baixa do que eu, de cabelo escuro
e comprido, olhos castanhos, devia ter mais ou menos a
minha idade, ou seja, uns dezenove anos. Erguendo o olhar,
fez uma espcie de sinal para mim, embora sem o menor
movimento da cabea, e abriu um sorriso petulante, maroto,
quase como se fssemos velhos amigos ou -- vou dizer
com toda a franqueza -- como se, muito tempo antes, ns
tivssemos passado uma longa existncia juntos, ela e eu.
Tive a sensao de ler algo assim em seus olhos castanhos.
        O sorriso cavou duas covinhas em suas bochechas,
e -- no por causa disso -- eu lembro que ela tinha
qualquer coisa de esquilo, era linda e delicada como um
deles. Se  verdade que j tivemos uma vida em comum, vai
ver que foi como um par de esquilos em uma rvore, pensei,
e no achei nada desagradvel a idia de um passado de
esquilo com a misteriosa garota das laranjas.
        Mas por que ela sorria daquele modo to travesso
e desafiador? E ser que o sorriso era mesmo para mim?
Ou simplesmente acabava de lhe ocorrer uma coisa
engraada que no tinha nada a ver comigo? Ou ela estava
rindo de mim? Essa tambm era uma possibilidade que no
podia ser excluda. Mas no havia nada engraado em mim,
eu acho, minha aparncia estava totalmente normal, e sem
dvida alguma a engraada era ela, no eu, apertando aquele
saco enorme de laranjas na barriga. Talvez estivesse
sorrindo por isso, de si mesma. Talvez fosse capaz de muita
auto-ironia. Qualidade que nem todos possuem.
         No me atrevi a fit-la de novo nos olhos. Fiquei
olhando fixamente para o saco de laranjas.  agora que ele
vai cair, pensei com os meus botes. Ela no pode deix-lo
cair. Agora cai. No saco havia pelo menos cinco quilos de
laranjas, talvez at oito ou dez.

        O bonde ia subindo o Drammensvei. Tente
imaginar. Ele vai subindo a ladeira com muito esforo,
pra perto da embaixada dos Estados Unidos, pra na Solli
plass e, agora, bem quando vai entrar no Frognervei,
acontece o que eu temia. O bonde balana
ameaadoramente, pelo menos  essa a minha impresso, a
garota das laranjas perde um pouco o equilbrio e, numa
frao de segundo, eis que sou eu quem tem de salvar o
saco enorme do naufrgio. Agora... no, agora!
        E pode ser que, nesse momento, eu tenha
cometido um fatal erro de clculo. Em todo caso,
empreendo uma manobra decisiva. Veja s: eu estendo os
dois braos muito enrgicos, e logo estou com um deles
debaixo do saco de papel e com o outro enlaando
firmemente a cintura da garota. E o que voc acha que
acontece ento? Naturalmente, a garota do anoraque
alaranjado deixa cair o saco de laranjas, ou pode ser que eu
o tenha empurrado para cima, soltando-o de seus braos,
quase como se estivesse com cime e quisesse tir-lo do
caminho. O triste resultado foi que, logo depois, trinta ou
quarenta laranjas caem no colo dos passageiros sentados,
ou rolam no cho, espalhando-se por todo o bonde.
Decerto eu j tinha passado por uma ou outra situao
constrangedora na vida, mas aquela foi a pior de todas, o
momento mais embaraoso que vivi.
        Deixemos as laranjas por ora, elas que fiquem
mais alguns segundos rolando no cho, afinal no so as
protagonistas desta histria do bonde. Ento a garota olha
para mim e j no est sorrindo. Primeiro fica apenas triste,
ou pelo menos com ar contrariado. Ao que tudo indica,
cada uma daquelas laranjas tem uma importncia enorme
para ela, sim, Georg, evidentemente, cada laranja era
insubstituvel. Isso no dura muito, pois no momento
seguinte ela me olha com ferocidade e, assim, d claramente
a entender que me considera responsvel pelo que acaba de
acontecer. Eu tenho a sensao de que arruinei boa parte da
vida dela, para no falar na minha.  como se tivesse
destrudo o meu prprio futuro.
        Se voc estivesse l e pudesse me livrar daquela
situao, com certeza teria dito uma coisa engraada,
salvadora. Mas naquele tempo no existia nenhuma
mozinha que eu pudesse segurar, isso foi anos antes de
voc nascer.
        Morrendo de vergonha, eu me ponho de quatro e
comeo a catar as laranjas em meio  multido de botas e
sapatos imundos, mas so poucas as que consigo salvar. O
saco de papel rasgou,  bvio que j no serve para nada.
        O pior  que eu realmente me joguei em cima da
moa, no sentido literal da palavra. Dois passageiros
comeam a rir, mas so os mais bem-humorados, os outros
preferem torcer o nariz para mim, o bonde est lotado e o
aperto  quase insuportvel. Percebo que todos os
passageiros que presenciaram o incidente me consideram
culpado, muito embora eu s tivesse a inteno de
empreender uma galante operao de salvamento.
         A minha ltima lembrana dessa desastrosa viagem
de bonde  a seguinte imagem: eu com os braos cheios de
laranjas, duas delas nos bolsos da cala, e quando torno a
me colocar diante da garota do anoraque alaranjado, ela me
fita nos olhos e diz com mordacidade na voz:
         -- Papai Noel!
         Isso  dito em tom de acusao,  claro, mas ela no
tarda a recuperar parte do bom humor e pergunta meio
conciliadora, meio irnica:
         -- Eu tambm ganho uma laranja?
         -- Desculpe. --  a nica coisa que consigo dizer.
-- Desculpe.
         Agora o bonde pra em frente  confeitaria
Mollhausen, em Frogner, as portas se abrem, eu fao um
sinal desconcertado para a garota das laranjas, que me
parece quase sobrenatural, e nesse mesmssimo instante ela
pega uma laranja dos meus braos carregados e, com a
graa e a leveza de uma fada de conto da carochinha,
desaparece na rua.
         O bonde volta a se pr em movimento e continua
subindo o Frognervei.

         "Eu tambm ganho uma laranja?" Georg! As
laranjas que eu estava segurando nos braos eram dela,
inclusive as duas que trazia nos bolsos, o resto tinha se
espalhado no cho.
         De repente, era eu que estava carregado de
laranjas, as quais nem minhas eram. Sentia-me um
desprezvel ladro de frutas. Alis, alguns passageiros
comearam a fazer comentrios nada amigveis sobre o
tema, e eu j nem sei o que pensei, s sei que na parada
seguinte, no Frogner plass, tratei de descer do bonde.
         Ao desembarcar, a nica coisa que eu queria era me
livrar daquele monte de laranjas. Precisei me equilibrar feito
um acrobata para no derrub-las, mesmo assim uma delas
caiu na calada e, naturalmente, eu no pude correr o risco
de me agachar para peg-la.
         No tardei em avistar uma mulher com um
carrinho de beb, passando em frente  antiga peixaria,
voc sabe, aquela do Frogner plass. (Bom, obviamente no
posso saber se a tal peixaria ainda existe.) Aproximei-me
bem devagar da mulher com o carrinho e, ao passar por ela,
descarreguei subitamente todas as laranjas no
cobertorzinho cor-de-rosa do beb, inclusive as que trazia
nos bolsos. A operao no durou nem dois segundos.
         Precisava ver a cara que a mulher fez Georg!
Achando melhor dizer alguma coisa, eu lhe pedi que
fizesse o favor de aceitar o modesto presente para o beb,
pois naquela poca, o fim do outono, era importantssimo
dar bastante vitamina C s crianas, assunto alis que eu
conhecia muito bem, pois era estudante de medicina.
         A coitada deve ter pensado que eu era louco ou
estava completamente bbado, e  bvio que no acreditou
que eu fosse estudante de medicina, mas acontece que,
nessa altura, eu j estava longe, atravessando o Frognervei
em alta velocidade, de modo que no dei a mnima para a
opinio dela. E, uma vez mais, em minha cabea s havia
lugar para um desejo: encontrar a garota das laranjas.
Tinha de ach-la o mais depressa possvel e dar um jeito de
reparar o dano que causara.
         No sei se voc conhece bem aquela parte da
cidade, mas, pouco depois, eis que estou chegando,
ofegante,  esquina em que o Frognervei, o Frederik Stangs
gate, o Elisenbergvei e o Lovenskioldsgate se encontram,
ou seja, ao lugar exato em que a misteriosa moa desceu do
bonde com uma nica laranja na mo. Era o mesmo que
estar na Place de l'toile, tantas eram as ruas que eu podia
escolher, e a garota das laranjas havia desaparecido por
completo.
         No sei dizer quantas vezes percorri o Frogner
aquela tarde, desde o Corpo de Bombeiros, l em cima, em
Briskeby, at o velho Hospital da Cruz Vermelha, e toda
vez que avistava qualquer coisa parecida com um anoraque
alaranjado, sentia o corao saltar no peito, mas aquela que
eu procurava parecia ter se evaporado.
         Horas depois, ocorreu-me que a mocinha para a
qual eu criara tantos problemas talvez estivesse muito bem
instalada atrs de uma janela do Elisenbergvei, espiando
um jovem estudante que corria desesperadamente de um
lado para o outro, mais ou menos como o heri
desnorteado de um filme de aventuras. S que ele no
conseguia encontrar a princesa que procurava. Por mais
que se empenhasse, no dava com a pista dela. O filme
parecia ter congelado.
         Numa lata de lixo, achei um pedao de casca de
laranja ainda fresco. Peguei o pedao na mo e cheirei, mas,
caso fosse da minha garota das laranjas, sem dvida era o
ltimo vestgio que dela restava.

        Passei o resto da noite pensando na moa do
anoraque alaranjado. Eu sempre morei em Oslo, mas nunca
a tinha visto, quanto a isso no havia a menor dvida. E
com mais determinao ainda resolvi fazer o possvel e o
impossvel para rev-la. Como num passe de mgica, ela j
havia se interposto entre mim e o resto do mundo.
         No parava de pensar naquele saco com tantas
laranjas. O que ela pretendia fazer? Ser que ia descasc-las,
uma a uma, e com-las gomo por gomo no caf-da-manh
ou no almoo? Essa idia me perturbou horrivelmente.
Talvez ela fosse doente e precisasse de uma dieta especial,
at isso me ocorreu e me deixou ainda mais nervoso.
         No entanto, havia outras possibilidades. Era
possvel que ela estivesse preparando uma festa para mais
de cem pessoas e o prato principal fosse pudim de laranja.
Esse pensamento me encheu de cime: por que eu no
tinha sido convidado? Alm disso, estava convencido de
que, nessa festa, havia uma desproporo enorme entre os
sexos. Convidaram mais de noventa rapazes, mas s oito
representantes do sexo feminino. E eu achava que sabia por
qu. O pudim de laranja seria servido na grande festa
semestral da faculdade de administrao, na qual havia
pouqussimas mulheres.
         Tentei arredar esse pensamento, que me era
insuportvel, e ao mesmo tempo fiquei revoltado com o
fato de ainda no haver uma cota para mulheres na
faculdade de administrao. Bom,  verdade que no dava
para confiar muito nessa minha fantasia. Era perfeitamente
possvel que a garota das laranjas pretendesse espremer
vrios litros de suco e guard-los na geladeira do seu
minsculo quarto de estudante, simplesmente porque
detestava ou era alrgica ao concentrado importado da
Califrnia que vendiam no supermercado.
         Mas, no fundo, nenhuma dessas possibilidades me
pareceu muito provvel, nem a do suco nem a do pudim.
Logo cheguei a uma idia mais convincente: a garota das
laranjas tinha um anoraque de andarilho mais ou menos
como o que Roald Amundsen usava em suas famosas
excurses ao plo. Eu sempre fui bom em interpretar
indcios, na medicina isso se chama "diagnosticar", e
ningum circula  toa nas ruas de Oslo com um anoraque
de andarilho e, se isso no tiver nenhum significado,
tampouco  comum andar por a com um enorme saco
abarrotado de suculentas laranjas.
        Eu pensei: com certeza, a garota das laranjas
pretende atravessar a Groenlndia ou pelo menos a
Hardangervidda de esqui, e obviamente no deixa de ser
sensato levar oito ou dez quilos de laranja num tren
puxado por cachorros, do contrrio ela arrisca morrer de
escorbuto no deserto gelado.
        Ou seja, uma vez mais me deixei seduzir pela
imaginao, pois, afinal de contas, "anoraque" no era uma
palavra esquim? Evidentemente, aquela moa estava com
viagem marcada para a Groenlndia. Mas como viajar
agora? Nada indicava que a misteriosa garota pudesse
simplesmente comprar outro carregamento de laranjas,
afinal quase chorou quando as primeiras caram no cho --
o que me levou a concluir que ela era muito pobre.
        Mas havia outras possibilidades. Eu precisava ter a
sensatez de entender isso. Talvez a garota das laranjas
morasse com uma famlia grande. Sim, por que no? Quem
garantia, por exemplo, que ela no era auxiliar de
enfermagem e estava alojada num quartinho em frente ao
Hospital da Cruz Vermelha? Por outro lado, nada a impedia
de ter uma famlia numerosssima e fissurada em laranja.
Puxa Georg, como eu queria visitar essa famlia! Chegava a
v-la  minha frente, em volta da grande mesa de jantar de
um dos sbrios apartamentos de Frogner, de cmodos
muito altos e ventilados, todos com rosete de gesso no teto.
A me, o pai e sete filhos, quatro irms, dois irmos e a
prpria garota das laranjas, a maior, a doce e dedicada irm
mais velha. Qualidades de que ela ia precisar muito dali por
diante, at que os irmozinhos pudessem ir  escola com
uma laranja na lancheira.
        Ou -- e, ao pensar nisso, eu senti um frio na
espinha -- talvez ela fosse me de uma famlia minscula,
composta unicamente por ela, um rapago recm-formado
em administrao e uma filhinha de quatro ou cinco meses;
e, no sei por que, pus na cabea que a filhinha s podia se
chamar Ranveig.
        Tive de considerar essa possibilidade tambm, no
havia como escapar. Nada garantia que a mulher que estava
passando em frente  peixaria de Frogner fosse a me do
beb debaixo do cobertor cor-de-rosa. Podia ser a bab
contratada pela garota das laranjas. Que idia revoltante!
Em compensao, pelo menos algumas laranjas seriam
devolvidas  dama de cara de esquilo. De sbito, o mundo
ficou incrivelmente pequeno e tudo passou a ter sentido.
        Para mim sempre foi fcil somar dois mais dois,
interpretar indcios ou fazer aquilo que os mdicos chamam
de "diagnstico". Talvez convenha acrescentar que eu fiz o
meu prprio diagnstico ao notar que estava doente. At
me orgulho um pouco disso. Simplesmente procurei um
colega e lhe expliquei qual era o meu problema. Ele se
encarregou do tratamento. E ento...
        Bom, Georg, neste ponto, eu simplesmente tive de
fazer uma pequena pausa no relato.

       Talvez voc ache estranho eu escrever to
alegremente sobre o que aconteceu naquela tarde, h tantos
anos. Mas isso ficou gravado na minha memria como um
episdio cmico, quase como um filme mudo, e eu queria
que voc tambm o visse assim. No significa que eu no
esteja me sentindo particularmente contente, quer dizer,
agora que lhe escrevo. O fato  que estou perplexo, ou
melhor, para ser franco, estou inconsolvel.  uma coisa
que no quero esconder, mas no se preocupe com isso.
Voc no vai me ver chorar,  uma deciso que tomei, e eu
sei me controlar.
        Mame no demora a chegar do trabalho, e ns
dois estamos sozinhos em casa. Mas assim, sentado no
cho, desenhando com os lpis de cor, voc no pode me
consolar. Ou talvez possa, sim. Daqui a muitos anos,
quando estiver lendo a carta daquele que um dia foi seu pai,
talvez lhe ocorra um pensamento consolador para esse
homem. E a idia j me conforta agora.
        O tempo, Georg. O que  o tempo?

          Olhei para uma fotografia da Supernova 1987 A. Essa
foto tirada pelo telescpio Hubble era mais ou menos da poca em que
meu pai percebeu que estava doente.
          Eu lamentava, mas no estava muito convencido de que era
correto da parte dele inquietar-me com os seus problemas. Afinal, eu
no podia fazer nada para ajud-lo. Meu pai viveu numa poca muito
diferente da atual, e eu tenho de levar a minha prpria vida. Se todo
mundo comeasse a receber cartas do finado pai e de outros ancestrais
igualmente falecidos, ningum conseguiria controlar a prpria
existncia.
          Notei que estava com lgrimas nos olhos. No eram
lgrimas doces, se  que isso existe, eram lgrimas amargas e pegajosas,
lgrimas que, em vez de escorrer, ficavam grudadas nas comissuras dos
olhos e ardiam.
           Pensei na freqncia com que a mame e eu amos ao cemit-
rio cuidar do tmulo do papai. Ao ler esse trecho, resolvi nunca mais
participar disso. E muito menos ir sozinho ao cemitrio. Nunca mais
mesmo.
           No  to difcil assim ser criado sem pai. Ruim mesmo 
quando de repente o pai morto resolve falar com a gente l da sepultura.
 claro que seria prefervel deixar o filho em paz. Ele mesmo j deu a
entender que se sente uma espcie de fantasma.
           Eu reparei que estava com as mos midas de suor. Mas,
naturalmente, queria ler a carta at o fim. Talvez fosse bom o meu pai
ter escrito uma carta para o futuro, talvez no. Ainda era cedo para
dizer.
           Meu pai devia ser uma figura e tanto, pensei, pelo menos
quando tinha dezenove anos, naquele outono do fim da dcada de 70,
pois me parecia que estava fazendo tempestade em copo de gua por cau-
sa de uma mulher que tomou o bonde de Frogner com um saco de
laranjas nos braos. No  nada raro os homens e as mulheres trocarem
olhares, isso decerto acontece desde o tempo de Ado e Eva.
           Por que ele no se limitou a escrever que tinha se apaixonado
por ela? Isso a garota percebeu muito antes de ser atacada por conta das
laranjas. Meu pai chegou at a enlaar a cintura dela. Vai ver que
estava querendo tir-la para danar a valsa das laranjas.
           As crianas, quando se apaixonam, trocam tapas e puxes
de cabelo. Algumas fazem guerra de bolas de neve. Mas um sujeito de
dezenove anos devia ser um pouco mais sensato.
           Mas, convenhamos, eu s havia lido o comeo da histria.
Talvez a tal garota das laranjas tivesse mesmo um segredo. Do contr-
rio, meu pai no escreveria tanto sobre ela. Ele estava doente, sabia que
ia morrer. Portanto, o que escreveu devia ser muito importante para ele
e talvez tambm fosse para mim.
           Tomei o resto do refrigerante e continuei a leitura.
         Ser que eu tornaria a ver a garota das laranjas?
Talvez no, talvez ela morasse em outra cidade, talvez
estivesse em Oslo apenas de passagem.
         Quando estava no centro e via passar um bonde
da linha de Frogner, eu criei o hbito de examinar todas as
janelas para ver se a garota das laranjas estava entre os
passageiros. Vivia fazendo isso, mas nunca a avistava. 
noite, os meus passeios sempre me levavam a Frogner, e
toda vez que eu via algo amarelo ou alaranjado na rua,
pensava:  ela, s pode ser ela. Mas quanto maior fosse a
expectativa, maior era a decepo.
         Transcorreram os dias e as semanas, e numa
segunda-feira de manh, eu passei por uma lanchonete da
Karl Johan e resolvi entrar; era uma espcie de ponto de
encontro da minha turma. Mas, assim que abri a porta, tive
de parar e recuar um passo. Pois quem l estava era nada
menos que a garota das laranjas! Ela nunca havia entrado
naquele estabelecimento, pelo menos no ao mesmo tempo
que eu, s que agora estava l, com uma xcara de ch na
mo, folheando um livro com ilustraes coloridas. Era
como se uma mo invisvel a tivesse colocado l, esperando
que eu passasse e a encontrasse. Vestia o mesmo anoraque
surrado, e agora escute, Georg, talvez voc no acredite,
mas em seu colo, preso entre ela e a pequena mesa da
lanchonete, havia um saco de papel repleto de bonitas
laranjas.
         Eu estremeci. Rever a garota das laranjas com o
mesmo anoraque alaranjado e com outro saco de laranjas
no colo me pareceu mais irreal do que uma miragem. Dali
por diante, as laranjas passaram a ser o ncleo do enigma
para o qual eu precisava de uma explicao. Que diabo de
laranjas eram aquelas? Para mim, eram frutas to douradas,
to ofuscantes que eu tive de esfregar os olhos. No sei por
que aquele amarelo dourado se distinguia do de todas as
laranjas que eu tinha visto na vida. E eram to suculentas
que cheguei a sentir o cheiro atravs da casca. Laranjas
normais  que no podiam ser!
        Furtivo, quase me esgueirando, entrei no caf e fui
me sentar a uma mesa a dois ou trs metros de distncia.
Antes de decidir o que fazer, queria olhar para ela, apenas
olhar para ela, saborear a presena do inexplicvel.
        Pensei que a garota das laranjas nem tivesse
notado a minha presena, mas de repente ela ergueu a vista
e me fitou diretamente nos olhos. Pegou-me em flagrante,
pois era bvio que eu a estava observando. Abriu um
sorriso to clido, Georg, um sorriso capaz de derreter o
mundo, e se o mundo o tivesse visto, todas as guerras e
hostilidades do planeta cessariam no mesmo instante, ou
pelo menos se estabeleceria uma prolongada trgua.
        No tive escolha, precisei falar com aquela moa. E,
atravessando lentamente a lanchonete, fui me sentar  mesa
dela. Longe de estranhar a minha atitude, ela pareceu
ach-la perfeitamente normal, se bem que, sei l por que, eu
no estava convencido de que ela havia me reconhecido, de
que identificara o rapazinho desastrado do bonde.
        Ficamos        alguns        segundos        calados,
entreolhando-nos. Ela no mostrou nenhuma pressa de
entabular conversa. Passou muito tempo me olhando, um
minuto inteiro sem tirar os olhos dos meus. Notei que as
suas pupilas tremiam. O seu olhar parecia perguntar:
lembra de mim? Ou ento: no lembra de mim?
        Era preciso dizer alguma coisa, mas eu estava to
confuso que no consegui fazer nada alm de ficar calado,
imaginando se ns dois j no tnhamos tido uma alegre
vida de esquilos num bosquezinho qualquer. Ela gostava
tanto de se esconder de mim, eu vivia subindo e descendo
das rvores  sua procura e, quando a achava, ela saltava
imediatamente do galho em que estava para a rvore
vizinha. Assim, eu no fazia seno correr atrs dela, at que
um dia tive a idia de inverter os papis e me esconder.
Ento foi ela que teve de correr e saltar atrs de mim, eu
podia ficar no alto da rvore ou l embaixo, no musgo, atrs
de um velho toco, apreciando a impacincia com que ela
me procurava, o seu medo, talvez, de nunca mais me
achar...
         De sbito aconteceu uma coisa mgica, quer dizer,
no naquele tempo remoto dos esquilos na floresta, mas ali
mesmo, no caf, em plena Karl Johan.
         Eu estava com o brao esquerdo apoiado na mesa
e, de repente, ela roou a mo direita na minha. Havia
colocado o livro sobre as laranjas e, com o brao esquerdo,
continuava segurando o saco enorme, parecia at recear
que eu o roubasse ou o jogasse no cho.
         Agora eu j no estava to terrivelmente
constrangido. S notei a energia ao mesmo tempo clida e
fresca que passava dos dedos dela para os meus. Pensei que
com certeza aquela garota tinha um dom sobrenatural, e
imaginei que esse dom tinha algo a ver com as laranjas.
         Um enigma, pensei, um enigma fascinante.
         No consegui mais ficar em silncio, algum tinha
de dizer alguma coisa, e talvez isso fosse um erro, talvez
fosse transgredir as regras daquilo que a garota das laranjas
representava. Ns continuamos nos entreolhando, e eu
disse:
         -- Voc  um esquilo.
         Ao ouvir essas palavras, ela sorriu com muita
doura e me acariciou a mo com mais doura ainda. A
seguir, simplesmente me soltou, levantou-se majestosa com
o saco de laranjas nos braos, e foi para a rua. Vi que ela
estava com lgrimas nos olhos.
         Fiquei paralisado. Fiquei emudecido. Poucos
segundos antes, a garota das laranjas estava sentada 
minha frente, segurando a minha mo. E agora acabava de
desaparecer. Se no estivesse carregando aquele saco
enorme de laranjas, talvez tivesse acenado para mim. Mas
precisava dos dois braos para segur-lo. De modo que no
podia acenar. E estava chorando.
         Eu no fui atrs dela, Georg. Isso tambm seria
infringir as regras. Eu estava simplesmente dominado,
estava exausto, estava satisfeito. Acabava de viver algo
maravilhosamente enigmtico, algo que eu ainda podia
passar meses curtindo. Tinha certeza de que voltaria a me
encontrar com ela. Tudo aquilo era governado por foras
poderosssimas, insondveis at.
         Ela era uma estranha. Sara de um conto de fadas
ainda mais lindo do que o nosso. Mas havia chegado 
nossa realidade porque tinha algo importante a fazer aqui,
talvez para nos salvar de uma coisa que alguns denominam
"o cinzento cotidiano". At ento, eu no tinha a menor
idia dessa atividade missionria. Acreditava que havia
apenas uma existncia e apenas uma realidade. Mas havia
dois tipos de pessoas. A um deles pertencia a garota das
laranjas; ao outro, ns.
         Mas por que ela estava com lgrimas nos olhos?
Por que chorou?
         Lembro que pensei: vai ver que ela  vidente.
Nesse caso, por que ficou com vontade de chorar ao olhar
para um sujeito completamente desconhecido? Talvez
tenha "visto" que um dia eu vou ser vtima de um destino
cruel.
         estranho ter pensado essas coisas na poca.
Sempre me deixei levar facilmente pela imaginao. Mas,
apesar disso, eu era e continuo sendo um homem racional.

         Neste ponto da histria, acho que no seria demais
esboar um breve resumo. Prometo no fazer isso com
muita freqncia.
         Um rapaz e uma moa tm um rpido contato
visual no bonde. Embora j no sejam crianas, ainda no
so totalmente adultos e nunca se viram antes. Alguns
minutos depois, o rapaz tem a impresso de que a moa
est prestes a derrubar um gigantesco saco de suculentas
laranjas. Ele interfere, e a triste conseqncia  que as
laranjas acabam caindo no cho. A moa o chama de Papai
Noel e desce na parada seguinte, pede para ficar com uma
nica fruta, e o rapaz balana a cabea, estupefato.
Passam-se algumas semanas, e eles voltam a se encontrar
em uma lanchonete. Tambm dessa vez a moa est com
um saco enorme, quase estourando de to cheio de laranjas.
O rapaz se senta  mesa dela, e os dois passam um minuto
inteiro se entreolhando. Ainda que parea um clich, nesses
sessenta segundos eles se olham profundamente nos olhos,
quase at enxergarem a alma: ele, a dela; ela, a dele. A garota
segura a mo do rapaz, e ele diz que ela  um esquilo. Ento
ela se levanta com movimento gracioso e sai do caf
levando o saco de laranjas nos braos. O rapaz repara que
ela est com lgrimas nos olhos.
         Entre os dois, houve at agora a seguinte troca de
palavras:
         Ela: "Papai Noel!" Ela: "Eu tambm ganho uma
laranja?". Ele: "Desculpe, desculpe". Ele: "Voc  um
esquilo".
        O resto  um filme mudo. O resto  um enigma.
        Voc consegue decifrar esse enigma, Georg? Eu
no consegui, e o motivo talvez tenha sido o fato de eu
fazer parte dele.

          Agora eu estava realmente entusiasmado com a histria. A
garota das laranjas apareceu duas vezes carregando um saco de laran-
jas. Que coisa misteriosa. E, sem dizer uma palavra, segurou a mo do
meu pai e o fitou intensamente nos olhos, depois se levantou e saiu com
pressa da lanchonete. Que comportamento estranho. Que coisa mais
esquisita!
          A no ser que meu pai estivesse sofrendo de alucinaes.
          Talvez a garota das laranjas fosse uma espcie de
"apario". Muita gente jura de ps juntos que viu o monstro do lago
Ness ou o de Seljordvann, e eu no diria que se trata de uma mentira,
pode muito bem ser uma quimera, uma iluso. Se meu pai comeasse a
dizer que tinha visto a garota das laranjas passando pela Karl Johan
num enorme tren puxado por cachorros, eu no teria a menor dvida
de que essa era a histria do breve perodo na vida em que ele esteve 
beira de perder o juzo. Isso acontece nas melhores famlias, e no faltam
remdios para curar.
          Fosse uma quimera, fosse uma pessoa de carne e osso, o
certo  que a garota das laranjas deixou meu pai totalmente encantado.
Mas quando ele teve a oportunidade de falar com ela, disse a frase
"Voc  um esquilo", que eu achei uma grande besteira. Ele mesmo
deixou claro que ficou estarrecido com a idiotice dessas palavras. Para
que dizer isso? Ah no, papai, essa charada eu no consigo matar.
          No vou bancar o sabicho. Sou o primeiro a admitir que
nem sempre  fcil encontrar o que dizer a menina que a gente anda
"azarando", como dizem.
          J contei que toco piano. No sou um superpianista, mas o
primeiro movimento da Sonata ao luar, de Beethoven, eu consigo exe-
cutar sem errar uma nota. Quando estou sozinho, tocando o primeiro
movimento da Sonata ao luar, s vezes me d a sensao de estar na
Lua com um piano de cauda, enquanto a Lua, o piano e eu descrevemos
a rbita da Terra. Imagino que os acordes que toco podem ser ouvidos
em todo o sistema solar, e, se no chegam at Pluto, certamente se
ouvem em Saturno.
          Ultimamente, comecei a praticar o segundo movimento (o
allegretto). No  muito fcil, mas eu o acho lindo quando a minha
professora de piano toca para mim. Sempre imagino um monte de
bonequinhas mecnicas saltitando para cima e para baixo na escada de
um shopping!
          O terceiro movimento da Sonata ao luar eu no quero ver
nem pintado, no s porque  difcil mas tambm porque acho um
horror ser obrigado a escut-lo. O primeiro movimento (adagio
sostenuto)  bonito e talvez um pouco lgubre, mas o terceiro (presto
agitato)  simplesmente ameaador. Se eu estivesse numa espaonave e,
ao descer num planeta, desse com um pobre extraterrestre martelando
ao piano o terceiro movimento da Sonata ao luar, daria o fora no
mesmo instante. Em compensao, se o encontrasse executando o
primeiro movimento,  bem possvel que ficasse uns dias por l, pelo
menos me atreveria a falar com ele e ame informar exatamente sobre a
situao do planeta musical no qual aterrissei.
          Uma vez eu disse  minha professora de piano que Beethoven
tinha em si o cu e o inferno ao mesmo tempo. Ela arregalou os olhos.
Disse que eu havia compreendido! E me contou uma coisa interessante,
No foi Beethoven quem deu a essa msica o ttulo Sonata ao luar.
Ele a chamava de Sonata em d sustenido maior, opus 27, n.
2, com o apelido Sonata quasi una fantasia. Minha professora de
piano acha essa pea dramtica demais para se chamar Sonata ao
luar. Diz que o compositor hngaro Eram Liszt descrevia o segundo
movimento como "uma flor entre dois abismos". Eu diria que  um
divertido teatro de fantoches entre duas tragdias.
           Escrevi que sei muito bem como  difcil falar com a menina
que a gente anda azarando. Pois agora vou confessar uma coisa, pois j
acumulei um pouco de experincia nisso na escola de msica.
           Toda segunda-feira, tenho aula de piano das seis s sete.
Acontece que uma garota tem aula de violino no mesmo horrio, ela
deve ser um ou dois anos mais nova do que eu, e tenho de admitir que
estou de olho nela. s vezes calha de ns dois passarmos cinco ou dez
minutos aguardando na sala de espera antes de a aula comear. Ra-
ramente conversamos, mas h algumas semanas, ela me perguntou as
horas, e na semana seguinte tornou a perguntar a mesma coisa. E eu
disse que estava chovendo sem parar e que o estojo do violino dela
estava molhado. Mais do que isso a conversa no avanou, confesso.
E, como ela no toma a iniciativa de conversar comigo para valer, eu
tambm no me atrevo. Vai ver que ela no vai com a minha cara. Mas
tambm  possvel que goste de mim, mas que seja to tmida quanto eu.
No tenho a menor idia de onde ela mora, s sei que se chama Isabelle,
andei espiando a lista de alunas de violino.
           Atualmente, ns sempre chegamos mais cedo  aula de msi-
ca. No ms passado, teve um dia em que esperamos quase meia hora.
Mas ns no fazemos mais do que isso, ficamos ali sentados com cara
de tacho, mudos como peixes. Depois somos chamados a salas diferentes.
s vezes, imagino que ela entra de repente na sala de piano e me pega
tocando a Sonata ao luar e fica to comovida que comea a me
acompanhar ao violino. Mas isso nunca vai acontecer,  apenas a
minha quimera. E o motivo pelo qual tenho essa quimera  nunca ter
visto o violino dela. Tampouco a escutei tocando. Nada impede que ela
tenha uma flauta no estojo de violino. (Neste caso, no se chama
Isabelle, e sim Kari.).
           O que quero dizer com tudo isso  que no sei como reagiria
se, de repente, ela segurasse a minha mo e me fitasse intensamente.
Tambm no sei o que faria se ela ficasse com lgrimas nos olhos.
Agora percebo que sou apenas quatro anos mais novo do que o meu pai
na poca em que conheceu a garota das laranjas. Posso entender que foi
um choque para ele. "Voc  um esquilo", disse.
         Acho que o compreendo perfeitamente, papai. Por isso, pode
continuar contando a histria.

         Depois desse breve encontro, iniciou-se a fase
lgica e sistemtica da minha busca pela garota das laranjas;
sucederam-se, uma vez mais, muitos longos dias sem que
eu encontrasse o menor vestgio dela.
         No vale a pena reproduzir todas as minhas
tentativas fracassadas, Georg, a lista no teria fim. Mas, de
tanto especular e analisar, um dia cheguei  seguinte idia:
nas duas vezes em que eu vira a garota das laranjas era uma
segunda-feira. Como no tinha pensado nisso ainda? Por
outro lado, as laranjas eram a minha nica pista real. De
onde vinham? Decerto, as quitandas de Frogner tambm
vendiam laranjas. Sem dvida, mas essas laranjas eram
suculentas e boas? Eram caras? Uma pessoa
verdadeiramente exigente, pensei, compra laranjas num
bom mercado de frutas, no Youngstorg, por exemplo, que
naquele tempo era o nico grande mercado de frutas e
verduras de Oslo. Pelo menos, quem consome quilos e
quilos de laranjas por dia as compra l. Depois, caso no
possa se dar ao luxo de tomar um txi, volta para casa de
bonde. Mas havia outra coisa alm disso: o saco de papel
pardo! Num supermercado normal, a gente recebia sacolas
de plstico. Mas no Youngstorg, eu matutei, todas as
compras eram embaladas em sacos de papel pardo
exatamente iguais ao que a garota das laranjas vivia
carregando por a!
         Esta era apenas uma entre muitas hipteses, mas
eu fui trs segundas-feiras seguidas comprar frutas e
verduras no Youngstorg. Para um estudante,  sempre
aconselhvel tratar de melhorar a alimentao, ultimamente
eu tinha desenvolvido uma pssima tendncia a me
alimentar de salsicha grelhada com salada de camaro.
         Eu no preciso descrever a colorida algazarra do
Youngstorg, Georg, basta voc fazer o que eu fiz. E ficar
atento a uma misteriosa garota de anoraque que, se no
estiver diante de uma banca, regateando o preo de um saco
de dez quilos de laranjas, j h de estar na sada do mercado,
carregando o pesado saco. Fora isso, pode esquecer o resto,
ou melhor, pode esquecer todas as outras.
         Mas ser que voc consegue v-la, Georg?
         Na primeira e na segunda vez eu sa de l frustrado,
mas na terceira segunda-feira, eis que subitamente eu avistei
um vulto alaranjado l no fundo do mercado, sem dvida
alguma, uma moa com um velho anoraque de andarilho
-- e, como se no bastasse, no  que estava diante de uma
banca de frutas, pondo justamente laranjas num enorme
saco de papel?
         Atravessei furtivamente o mercado e no tardei a
me postar atrs dela, a poucos metros de distncia. Ento
era l que ela fazia compras! Foi como se eu a pegasse em
flagrante delito. Sentindo as pernas bambas, cheguei a
ficar com medo de cair no cho.
         A misteriosa garota ainda no havia terminado de
pr as laranjas no saco, e isso era porque ela as comprava de
modo totalmente diferente das outras pessoas. Imagine s:
eu tive tempo de sobra para ver que escolhia as frutas uma a
uma e examinava detidamente cada exemplar antes de
coloc-lo no saco ou devolv-lo ao monte de onde
provinha. Entendi por que ela no se contentava em
compr-las numa quitanda qualquer de Frogner. A moa
fazia questo de escolher dentre uma enorme variedade de
laranjas.
         Eu nunca tinha visto tanta exigncia com frutas, de
modo que fiquei convencido de que aquela garota no as
comprava simplesmente para lhes tirar o suco. Mas, ento,
o que fazia com as laranjas? Voc tem idia, Georg? Pode
imaginar por que ela s vezes demorava um minuto para
decidir se punha esta ou aquela fruta no saco?
         Eu s tinha uma explicao para isso: a garota das
laranjas era encarregada da cozinha de um grande
jardim-de-infncia, no qual cada criana recebia uma laranja
todas as manhs. Ningum ignora que a maioria das
crianas tem um senso de justia altamente desenvolvido.
Por isso, a garota das laranjas era obrigada a cuidar para que
as frutas fossem todas idnticas, ou seja, do mesmo
tamanho, igualmente redondas e igualmente exuberantes. E
 claro que tambm tinha de cont-las.
         Achei essa hiptese absolutamente plausvel, e
inclusive fiquei com um pouco de medo, pois era possvel
que vrios rapazes bonites estivessem prestando servio
social no tal jardim-de-infncia. Mas, Georg, a dois metros
de distncia, eu no tardei a entender que se tratava de coisa
muito diferente. Era bem visvel que a garota das laranjas se
esforava justamente para encontrar as laranjas mais
diferentes que havia no tocante ao tamanho,  forma e  cor.
Alis, havia um detalhe importante: algumas ainda estavam
com o cabinho e uma ou duas folhas de laranjeira.
         Foi um alvio no precisar mais me preocupar com
os intrometidos do servio social. Mas esse foi o meu nico
motivo de alegria. Ela era e continuava sendo um enigma.
         Enfim, a garota das laranjas colocou a ltima fruta
no saco, pagou e tomou a direo da Storgate. Eu a segui a
certa distncia, pois queria que ela s me visse no bonde de
Frogner. Mas foi justamente nesse ponto decisivo que eu
me enganei. Ela no foi tomar o bonde na Storgate. Antes
de chegar  parada, entrou num carro branco, um Toyota
dirigido por um homem.
         Senti que no podia abord-la naquele momento.
No queria conhecer aquele sujeito. E ento o automvel
arrancou e desapareceu na primeira esquina.
         Mas voc precisa notar um detalhe importante,
Georg: ao entrar no carro com aquele saco enorme nos
braos, a garota das laranjas se vira de repente e olha para
mim. No sei dizer se me reconhece ou no. S sei que, ao
entrar no Toyota branco de um homem, ela olha para mim.
         Quem era aquele felizardo? No consegui avaliar a
idade dele, podia muito bem ser o pai dela, mas mesmo
assim... ora, como eu ia saber? Um garoto do servio
social? Dificilmente, j que tinha um Toyota branco. Ou
ser que era o pai da menininha de quatro meses chamada
Ranveig? No necessariamente, nada confirmava tal coisa.
Era igualmente possvel que o homem do Toyota
pretendesse atravessar a Groenlndia de esqui com a garota
das laranjas. J fazia tempo que eu tinha uma idia da pinta
daquele sujeito. Em longas seqncias de imagens,
conseguia ver as raes de laranja, as machadinhas de gelo,
as facas, os sacos de dormir, o fogareiro e os tabletes de
sopa. Via a barraca em que eles iam pernoitar, era amarela, e
sem dvida alguma oito cachorros puxavam o seu tren.
          claro que eu conseguia v-los  minha frente.
Eles que no pretendessem se esconder de mim. Eu tinha
um filme inteiro na cabea: um casal assimtrico percorre
de esqui as infinitas geleiras groenlandesas. Ela  linda e
inocente como uma deusa da neve. Coisa que dele no se
pode dizer, pois tem nariz torto, uma curvatura amarga na
boca e um olhar que anuncia as piores intenes, to
abismai quanto as gretas da geleira, nas quais ela pode cair
a qualquer momento. (Nesse caso, ele a ajuda a sair do
buraco? Ou segue viagem mais depressa ainda para se
regalar com as raes de laranja dela, na certeza absoluta de
que nunca mais voltar a v-la?) Esse sujeito possui fora
viril, uma fora primitiva e feia. Abate ursos-polares com a
mesma indiferena com que outros matam moscas. E, j
que estamos falando nisso: ele  bem capaz de violent-la
entre dois blocos de gelo, longe da mo disciplinadora da
civilizao. Pois, afinal, quem h de v-la num lugar to
longnquo? Quem h de estar de olho nela l naqueles
ermos glaciais? Isso eu posso dizer, Georg. Fora eu, no h
quem olhe por ela. Eu podia formar uma imagem cada vez
mais ntida da tal expedio. Tinha viso de tudo que eles
iam levar. Antes do anoitecer, j havia dado nomes aos oito
cachorros e, mais tarde,  noite, fizera a lista completa das
provises de que iam precisar. Ao todo, o equipamento
pesava 240 quilos, contando o frasquinho de xampu e a
garrafinha de aguardente, para que eles brindassem ao
chegar a Siora-paluk ou Qaanaag...
         Mas no dia seguinte eu j estava mais calmo.
Nenhum louco percorre a Groenlndia de esqui em
dezembro. Nesse ms, as expedies se dirigem  Antrtida,
e por isso ningum se abastece de laranjas no mercado
municipal de Oslo, e sim no Chile ou na frica do Sul. Alis,
nada garante que seja boa idia levar laranjas. Quem vai
esquiar no plo Sul precisa de tantas calorias por dia que
no tem necessidade de uma proviso suplementar de
vitamina. Alm disso, as laranjas pesam muito e, acima de
tudo: com grossas luvas polares nas mos, como descascar
uma laranja congelada? Como fonte de lquido numa
expedio polar, as laranjas so to inteis quanto, outrora,
os cavalos do explorador Scott. L, para obter a necessria
quantidade de lquido, bastam algumas gotas de gasolina e
um fogareiro. Gelo e neve -- ou seja, gua -- so as nicas
coisas que existem em abundncia naquelas paragens, e
uma laranja  constituda de mais de oitenta por cento de
gua.
        Querida garota das laranjas, pensei. Quem  voc?
De onde vem? Onde est agora?

                               ***

          Mame tornou a bater na porta.
          -- O que voc est achando, Georg? -- perguntou.
          -- Legal -- respondi. -- Mas agora me deixe s. Ela ficou
dois segundos calada e ento disse:
          -- Eu no acho certo voc ficar trancado a dentro. Eu
retruquei:
          -- E o que adianta ter chave na porta se a gente no pode
us-la de vez em quando? Que eu saiba, privacidade tambm existe.
          Ela ficou meio irritada. Ou talvez seja melhor dizer que
ficou ofendida. E declarou:
          -- Voc est sendo infantil, Georg. No tem nenhum motivo
para se trancar.
          -- Eu tenho quinze anos, mame. E, se algum est sendo
infantil, pode crer que no sou eu.
          Ela respirou ruidosamente. E o silncio voltou.
           claro que eu no disse nada sobre a garota das laranjas.
Alis, tinha a forte impresso de que meu pai nunca contou  minha
me as coisas que estava me contando. Do contrrio, ela mesma podia
me informar disso, e meu pai no teria necessidade de dedicar os seus
ltimos dias neste mundo a escrever uma carta to longa. Talvez tivesse
vivido uma experincia na juventude e agora estava querendo chamar a
ateno do filho para ela: conversa de homem para homem, digamos.
Em todo caso, havia uma coisa importante sobre a qual ele queria me
fazer uma pergunta.
          At ali, porm, a nica pergunta que ele tinha feito era sobre
o telescpio Hubble. Pena que no tinha idia de quanta coisa eu sabia
sobre isso!
          O mais esquisito nesse trabalho foi que o professor me
mandou l-lo para a classe toda. Tambm tive de mostrar as fotografias.
Sei que ele tinha a melhor das intenes, mas j no intervalo seguinte
algumas meninas comearam a me chamar de "Mini-Einstein". Alis,
foram justamente as que mais se devotam a fazer experincias com o
lpis de sobrancelha e o batom. Se bem que, na minha opinio, elas
fazem experincias com muitas outras coisas.
          Eu no tenho nada contra sombra, delineador ou lpis de so-
brancelha. Mas acontece que estamos em um planeta no espao sideral.
E no existe idia mais maluca do que essa!  uma loucura pensar que
o espao existe. Mas h garotas que, por causa da sombra e do
delineador, no conseguem enxergar o espao csmico. E sem dvida
tambm h rapazes que, por conta do futebol, so incapazes de ver o
horizonte. Em todo caso, h uma grande diferena entre um espelho de
maquiagem e um bom telescpio. Deve ser isso que chamam de
"deslocamento de perspectiva"`. Talvez tambm se pudesse falar numa
"experincia do ora-veja-s", da percepo repentina de um contexto
qualquer. Nunca  tarde para uma experincia do ora-veja-s. Porm
muita gente passa a vida inteira sem perceber que flutua no espao vazio.
H tanta coisa aqui embaixo, isso s atrapalha. J basta a gente se
preocupar com a prpria aparncia.
          Ns somos deste planeta. Longe de mim contestar isso. Somos
parte da natureza deste planeta. Aqui aprendemos, com os macacos e
os rpteis, a nos reproduzir, e eu no tenho nada a opor. Em outra
natureza, talvez fosse muito diferente, mas  aqui que ns estamos. E,
repito, no tenho a menor inteno de questionar essas coisas. S acho
que elas no deviam nos impedir de enxergar um pouco alm da ponta
do nariz.

          "Telescpio" significa mais ou menos "ver aquilo que est
muito longe". Mas por acaso a tal histria da "garota das laranjas" ti-
nha realmente alguma relao com o telescpio espacial?
          O telescpio no foi enviado ao espao para observar mais de
perto as estrelas e os planetas. Isso seria to absurdo quanto se colocar
na ponta dos ps para ver melhor as crateras da Lua. No caso do
telescpio espacial, trata-se de observar a partir de um ponto situado
fora da atmosfera terrestre.
          Muita gente pensa que est olhando para as estrelas no cu,
mas no est. Essa impresso  criada pela instabilidade da atmosfera,
 mais ou menos como a superfcie agitada da gua dando a impresso
de que os seixos se confundem ou oscilam no fundo da lagoa. Ou,
inversamente, do fundo de uma piscina, nem sempre a gente enxerga
bem o que se move l em cima, na beirada.
          No h nenhum telescpio na Terra que nos fornea imagens
realmente ntidas do espao csmico. Disso s o Hubble Space
Telescope  capaz. Por isso ele nos revela muito mais acerca do que
h l fora do que os telescpios terrestres.
          Muitos so to mopes que no conseguem distinguir um ca-
valo de uma vaca e um hipoptamo de uma naja. Essa gente precisa de
culos.
          Eu j contei que detectaram um erro grave no espelho
principal do Hubble e que a tripulao da Endeavour corrigiu esse
defeito em dezembro de 1993. Mas, na verdade, eles no alteraram
nada no espelho. Apenas puseram culos nele. Esses culos so consti-
tudos de dez espelhinhos e so chamados COSTAR, que  abreviatura
de Corrective Optics Space Telescope Axial Replacement.
          No, eu continuava sem entender que diabo o telescpio espa-
cial tinha a ver com a tal garota das laranjas. Agora, enquanto escrevo,
eu sei, pois  claro que j li at o fim a carta que meu pai me escreveu
nas semanas que precederam a sua morte. E a li pelo menos quatro
vezes, mas naturalmente no quero revelar muita coisa antes da hora.
          Conte papai! Conte para todo mundo que estiver lendo este
livro.

         A vez seguinte em que vi a garota das laranjas foi
na noite de Natal, sim, bem na noite de Natal, imagine. E,
nessa ocasio, consegui conversar com ela. Bem... quer
dizer, pelo menos a gente chegou a trocar algumas palavras.
         Na poca, eu morava num apartamento minsculo,
em Adamstuen, com um colega chamado Gunnar. Mas
queria passar o Natal com a minha famlia, no Humlevei. A
famlia se compunha de meus pais e meu irmo, o seu tio
Einar. Einar  quatro anos mais novo do que eu e, naquele
tempo, estava concluindo o ensino mdio. Isso foi muitos
anos antes de a vov e o vov mudarem para Tonsberg.
         Eu praticamente j tinha perdido a esperana de
voltar a ver a garota das laranjas e,  parte isso, andava
pensando coisas muito desagradveis com relao ao
sujeito do Toyota branco. Mas, antes de voltar para casa no
Humlevei, eis que tive a idia repentina e excepcional de ir
ao culto. Estava to fixado naquela moa misteriosa que
pus na cabea que ela tambm ia  igreja antes de se
encontrar com os seus para festejar o Natal. (Quem eram
"os seus"? Pois , quem haveriam de ser?) Cheguei 
concluso de que o mais provvel ou, para ser exato, o
menos improvvel era encontr-la na catedral.
         Por via das dvidas, quero deixar claro que no
estou contando todas essas coisas com a inteno de florear
a histria. Os fantasmas no mentem, Georg, de nada lhes
serve mentir. Mas, em compensao, confesso que no
estou contando tudo. Quem ia fazer uma coisa to
despropositada?
         No vejo necessidade de me estender sobre todas
as minhas tentativas frustradas de rever a garota das laranjas.
Passei dias e semanas ocupado em percorrer Frogner de
ponta a ponta, mas no quero insistir nisso, sairia uma
histria muito comprida e prolixa. No mnimo quatro vezes
por semana, eu dava longos passeios pelo parque Frogner e,
no raro, acreditava t-la avistado na ponte grande, em
frente  lanchonete ou perto do monlito, mas nunca era
ela. At ao cinema eu ia na esperana de encontr-la. Muitas
vezes, nem assistia ao filme. Se a garota das laranjas no
aparecesse at o fim dos trailers, eu era capaz de sair e, s
vezes, at comprava ingresso para outro filme. Ficava
atento aos filmes das quais me parecia que ela gostava, um
deles se chamava Momento decisivo, outro foi a produo
sua intitulada Um amor to frgil. Mas j disse que no vale a
pena insistir nessas coisas.
         Este relato s tem um fio da meada, Georg: as
ocasies em que realmente me encontrei com a garota das
laranjas. No tem o menor sentido discorrer sobre as
muitas vezes em que no consegui. Assim como no teria
sentido ficar falando em todas as cartelas da loto nas quais
ningum acertou a quina. Por acaso j lhe contaram uma
histria assim? Quando foi que voc encontrou uma
reportagem, no jornal ou numa revista, sobre algum que
jogou na loto, mas no conseguiu ficar milionrio? Pois
aqui  a mesma coisa. A histria da garota das laranjas 
como a histria de uma gigantesca loteria, na qual s os
nmeros vencedores so visveis. Pense quantas cartelas da
loto so preenchidas toda semana. Procure imagin-las
guardadas num salo enorme, talvez seja preciso um ginsio
inteiro. Ento, com um elegante passe de mgica, todas as
cartelas que no foram premiadas com um milho
desaparecem. Vo restar pouqussimas no ginsio, Georg.
Mas  s nelas que a imprensa fala!
         Pois bem, ns estamos na pista da garota das
laranjas, no seu encalo, e esta histria s fala nela. Por ora,
vamos deixar tudo o mais de lado. Vamos riscar todos os
outros habitantes desta cidade. Colocar todas as outras
mulheres entre dois grandes parnteses. Nada mais simples.

         No a vejo logo ao entrar na catedral, mas no
tardo a dar com ela de repente, quando o rgo comea a
tocar um preldio de Bach. Fico paralisado, comeo a
sentir calor.
         A garota das laranjas est do outro lado do
corredor central, sim, s pode ser ela, e durante o culto
vira-se para trs e olha para o coro, que entoa uma cano
de Natal. Nesse dia, no est com o anoraque alaranjado de
caminhante nem com o saco de laranjas. Afinal de contas,
 Natal. Est com um casaco preto e traz o cabelo preso na
nuca com uma bonita fivela que parece ser de prata; talvez
tenha sido lavrada pelos sete anes que salvaram a vida da
Branca de Neve.
         Mas quem est com ela? H um homem  sua
direita, mas durante toda a cerimnia, eles no se olham
uma s vez. Pelo contrrio, j quase no fim do culto, ele se
inclina para cochichar alguma coisa ao ouvido de outra
mulher, a qual, por sua vez, est sentada  sua direita. Na
minha lembrana,  um belo movimento. Obviamente, a
gente pode se inclinar tanto para a direita quanto para
esquerda, esse homem tambm, a escolha  exclusivamente
dele, mas acontece que se inclina para a direita e, portanto,
se voc quiser, para o lado certo. Alis, tenho a sensao de
que sou eu que controlo o movimento dele.
          esquerda da garota das laranjas h uma velhota
gorducha, e nada indica que as duas se conheam, mas 
perfeitamente possvel que j tenham se visto no
Youngstorg, pois sem dvida alguma a velhota tem cara de
vendedora do mercado, talvez por isso ambas achem
divertido ir juntas ao culto do Natal. Por que no, Georg?
Por que no iriam? Com certeza, a garota das laranjas  a
melhor freguesa da velhota, pelo menos no item laranja.
Por isso tem direito a um desconto. Sete coroas o quilo de
laranjas marroquinas, o que no  pouco, mas a garota das
laranjas paga s seis e meio -- embora demore quase meia
hora para abarrotar o saco com uma variedade
representativa dos diversos exemplares.
         Eu quase no ouo o que o pastor diz, mas com
certeza est falando em Maria, Jos e o Menino Jesus,
mesmo porque no seria adequado falar em outra coisa. Ele
se dirige s crianas, isso me agrada, hoje  o dia delas.
Mesmo assim, a nica coisa que eu quero  que o culto
termine. Ento se ouve o posldio, os fiis se levantam dos
bancos, e eu preciso dar um jeito de fazer com que a garota
das laranjas saia da igreja antes de mim. Ela passa pelo meu
banco. Move um pouco a cabea, no sei dizer se notou a
minha presena ou no. Mas est sozinha. E  ainda mais
bonita do que na minha memria. s vezes, todo o brilho
do Natal se concentra numa nica mulher.
         Ah! S eu sei que essa moa  uma autntica garota
das laranjas que, alm disso, possui uma infinidade de
sedutores segredos. Sei que saiu de outro conto de fadas, de
um conto com regras muito diferentes das que vigoram
aqui. Sei que ela  uma espi na nossa realidade. Mas, aqui
na catedral,  como qualquer um de ns e se alegra conosco
porque o nosso Redentor nasceu. Nada mal, at que  muita
generosidade da parte dela.
         Sigo-a bem de perto. Algumas pessoas esto
paradas em frente  igreja, desejando-se feliz Natal, mas eu
s tenho olhos para a mgica fivela de prata que prende o
cabelo da garota das laranjas. No mundo inteiro existe
apenas uma garota das laranjas, e isso unicamente porque
ela veio de outra realidade. Ela toma o rumo de Grensen, e
eu a sigo a poucos metros de distncia. Est nevando, os
flocos gelados danam no ar. Nisso eu reparo s porque os
midos tufos de neve se depositam no cabelo da garota das
laranjas. Agora seu cabelo est ficando mido, penso, 
uma pena no ter um guarda-chuva ou pelo menos um
jornal com que lhe proteger a cabea!
          loucura, eu sei, tenho autoconhecimento
suficiente para saber disso. Mas  noite de Natal. E, mesmo
que j tenha passado a hora do milagre, este  um dia
mgico, no qual tudo  possvel. Os anjos comunicam a
aleluia aos pastores, e garotas das laranjas perambulam
pelas ruas como se isso fosse a coisa mais normal do
mundo.
         Eu a alcano pouco antes da Ovre Slottsgate.
Adianto-me, paro  sua frente, viro-me e digo alegre:
         -- Feliz Natal!
         Ela se surpreende ou talvez se finja surpresa, no
sei. Sorri vagamente. No parece uma espi. Parece uma
garota que eu daria tudo para conhecer melhor. E diz:
        -- Feliz Natal.
        Agora est sorrindo de verdade. Ns continuamos
andando. No creio que ela se oponha a que eu a
acompanhe. No tenho certeza, mas acho que gosta de
mim. Vejo o volume de duas laranjas que ela escondeu sob
o casaco preto. So bem redondas e exatamente do mesmo
tamanho. Deixam-me nervoso. Ultimamente, as formas
arredondadas me deixam terrivelmente nervoso.
        Tenho a impresso de que preciso falar um pouco
mais; do contrrio, vale mais a pena passar por ela e dar a
entender que no tenho tempo. Mas eu nunca tive tanto
tempo na vida. Estou na prpria fonte do tempo, estou
estacionado no fim e no propsito de todos os tempos. Sou
obrigado a pensar em um verso do poeta dinamarqus Piet
Hein: "Quem no vive agora no vive nunca./ O que voc
est fazendo?".
        Eu vivo agora, e no  sem tempo, pois no vivi at
agora. Alguma coisa em mim no cabe em si de contente. E
eu pergunto sem pensar:
        -- Quer dizer que voc no vai para a
Groenlndia? Foi uma pergunta besta. Ela fecha os olhos.
        -- No -- responde. -- No  l que eu moro.
        Ento me lembro de que Oslo tem um bairro
chamado Gronland. Fico terrivelmente sem jeito, mas acho
prefervel insistir no assunto. Digo:
        -- O que eu quero dizer  que voc no vai para as
geleiras groenlandesas. Com oito cachorros puxando o
tren e dez quilos de laranjas.
        Ela sorri ou no sorri?
        S nesse momento me ocorre que talvez nem se
lembre de mim, do incidente no bonde. Isso me decepciona,
tenho a sensao de que me falta cho onde pisar, mas
tambm no deixo de me sentir aliviado. Afinal j faz dois
meses que eu derrubei o saco enorme de laranjas; antes
disso, a gente nunca tinha se visto, e a cena s durou alguns
segundos.
         Mas decerto ela se lembra do nosso encontro na
lanchonete da Karl Johan. Ou ser que tem o hbito de
acariciar a mo do primeiro que aparece numa lanchonete?
 uma idia desagradvel. E nada lisonjeira para ela. Nem
mesmo uma garota das laranjas pode andar por a fazendo
boas aes sem saber para quem.
         -- Laranjas? -- pergunta ela, e sorri com um calor
mediterrneo, um verdadeiro siroco do Saara.
         -- Exatamente, laranjas suficientes para duas
pessoas atravessarem a Groenlndia de ponta a ponta.
         Ela pra. No sei se est disposta a continuar
conversando. No sei se acha que eu estou tentando
convid-la a uma perigosa excurso de esqui na
Groenlndia. Mas agora torna a me fitar, os olhos escuros
oscilando entre os meus, procurando-os, e pergunta:
         -- Foi voc, no?
         Eu fao que sim, embora no tenha certeza do que
ela est perguntando, j que no fui o nico que a viu com
aquele monte de laranjas. Mas ento ela acrescenta, como
se acabasse de lembrar de uma coisa:
         -- Foi voc que me empurrou no bonde de
Frogner, no? Eu fao um gesto afirmativo.
         -- Palavra que voc foi o prprio Papai Noel. Eu
digo:
         -- E esse Papai Noel quer muito pedir desculpas
pelas laranjas perdidas.
         Ela ri alegremente, como se nunca tivesse pensado
nisso. Inclina a cabea para o lado e diz:
        -- Ora, que bobagem. Eu achei voc uma graa.

                            ***

         Desculpe interromper o relato, Georg, mas eu
quero saber se voc pode me ajudar a decifrar um enigma.
Afinal, j deu para perceber que alguma coisa anda errada.
J naquela fatal viagem de bonde, a garota das laranjas me
encarou com ar desafiador, quase como se fosse dona de
mim. Parecia ter me escolhido entre todos os passageiros
do bonde lotado ou at mesmo entre todas as pessoas do
mundo. Ento, depois, deixou-me sentar  sua mesa numa
lanchonete. Passou um minuto me olhando nos olhos,
depois pousou a mo na minha. Nessa mo, borbulhava
todo um caldeiro de poo mgica repleta de sentimentos
maravilhosos. Agora tornamos a nos encontrar poucos
minutos antes que os sinos toquem anunciando o Natal. E
ela no se lembra de mim?
         Por certo no podemos esquecer que essa moa
saiu de um conto de fadas completamente diferente do
nosso, isto , de um conto em que vigoram regras
totalmente diferentes das nossas. Pois havia duas realidades
paralelas, uma com sol e lua, a outra era a insondvel
histria da carochinha cujas portas a garota da laranja abriu
subitamente. E, apesar disso, Georg, s havia duas
possibilidades: naturalmente, era possvel que ela se
lembrasse muito bem de mim nos dois episdios, talvez at
no Youngstorg, mas no quisesse que eu soubesse e
preferisse fingir no me reconhecer. Essa era uma
possibilidade. A outra inquietava mais. Escute s: a pobre
garota tinha um problema de sade, sofria da cabea, como
se diz por a. Pelo menos, tinha um grave problema de
memria. Talvez no conseguisse se lembrar de nada,
talvez se tratasse de um problema tpico de esquilo. O
esquilo simplesmente est solto no mundo, ora aqui, ora ali.
"Quem no vive agora no vive nunca./ O que voc est
fazendo?" O delicioso jogo da vida no d lugar a
lembranas e ecos, j tem muito que fazer consigo mesmo.
Essa era a regra no conto de fadas da garota das laranjas. E,
alm disso, naquele momento ocorreu-me o nome desse
conto. Chamava-se "Entra-no-meu-sonho".
        Por outro lado, Georg: desde ento, naturalmente
tenho pensado muito no efeito que posso ter tido sobre ela.
Eu tambm lhe segurei a mo, tambm a fitei
profundamente nos olhos. E o que resolvo fazer ao lhe
interceptar o caminho quando estamos saindo do culto de
Natal na catedral? Eu digo "Feliz Natal", como convm,
mas ela no diz "Puxa, h quanto tempo!". Nada disso, eu
lhe pergunto se no vai para a Groenlndia. Quer dizer,
para as geleiras groenlandesas, com oito cachorros
puxando o tren e dez quilos de laranjas. O que a garota das
laranjas ia pensar de mim! Deve ter me tomado por um
esquizofrnico.
        Ns conversamos sem nos entender. Pusemo-nos
a jogar um complicadssimo jogo de bola, no qual havia
demasiadas regras. Por mais que jogssemos, no havia
bola que atingisse a meta.

        E agora, Georg, eis que um txi livre chega
repentinamente da Akersgate. A garota das laranjas estende
o brao direito, o carro pra, ela se afasta...
        Sou obrigado a pensar na Gata Borralheira, que
tem de sair do baile antes da meia-noite, pois o encanto
est prestes a se desfazer. Penso no prncipe que, ento, fica
sozinho no terrao do palcio, abandonado, abandonado.
        Mas eu tinha de contar com isso. Obviamente, a
garota das laranjas precisava estar em casa na noite de
Natal. Pois  o que determinam as regras. As garotas das laranjas
no ficam zanzando por a quando os sinos anunciam o
Natal. Do contrrio, de que serviriam os sinos? Alis, os
sinos da igreja no esto a justamente para impedir que as
garotas das laranjas enfeiticem os rapazes? Eram quase
cinco horas, e dali a pouco eu ficaria completamente
sozinho naquele pedao deserto da Ovre Slottsgate.
        Tratei de pensar rpido. S tinha um segundo para
dizer ou fazer alguma coisa para que a garota das laranjas
nunca mais me esquecesse.
        Podia pedir o seu endereo. Podia perguntar se
no amos na mesma direo. Ou podia lhe oferecer cem
coroas pelos dez quilos de laranjas, incluindo trinta de
indenizao pelo prejuzo, afinal era impossvel saber se ela
tinha mesmo desconto no mercado. Para satisfazer a
minha curiosidade, podia ao menos perguntar por que ela
vivia comprando aquela quantidade de laranjas. No que
fosse totalmente fora do comum armazenar vveres. Mas
por que justamente laranjas? Por que no mas ou
bananas?
        Durante esse breve segundo, torno a pensar na
viagem pelas geleiras groenlandesas, na famlia grande em
Frogner, na festa de encerramento do semestre, na qual vo
servir pudim de laranja aos montes -- e na menininha, na
pequena Ranveig, que agora deve estar no colo de um papai
musculoso que prestou exame em administrao de
empresas h apenas quinze dias e, h um ms, foi eleito
diretor do clube de rapazes "Malhados e Sarados". Duvido
que dessa vez eu consiga olhar para o barulhento
jardim-de-infncia. As crianas me deixam nervoso.
         Mas no consigo achar a palavra certa, Georg, so
tantas as possibilidades. Por isso, quando ela entra no
automvel, eu simplesmente grito:
         -- Acho que estou apaixonado por voc!
         Era verdade, mas eu me arrependi do modo como
disse isso.
         O txi arranca. Mas a garota das laranjas no
embarcou. Mudou de idia. Aproxima-se devagar,
elegantemente transportada pelo seu prprio peso, pela sua
prpria vontade, segura a minha mo -- mais ou menos
como se, nos ltimos cinco anos, tudo o que tivssemos
feito fosse segurar a mo um do outro -- e faz sinal para
que continuemos andando. Depois olha para mim e diz:
         -- Eu preciso tomar o prximo txi. Esto me
esperando.
         Sim,  claro, quem a espera  um super-homem e
um lindo pimpolho, penso eu. Ou uma me e um pai, o pai
decerto  pastor -- e talvez tenha sido ele que acabou de
ministrar o culto --, alm das quatro irms, dos dois irmos
e, atualmente, tambm h um cachorrinho no apartamento,
que o pequeno Petter, o irmo caula, conseguiu ganhar 
custa de muita insistncia. Ou talvez seja o mal-humorado
explorador do plo que a est aguardando com luvas
polares, macaco trmico, quilhas, cera de esqui e um
dicionrio inute-dinamarqus/dinamarqus-inute, tudo
muito bem embrulhado debaixo da rvore de Natal.
Naturalmente, esta noite, a garota das laranjas no h de
querer ir a nenhuma festa de encerramento do semestre.
Nesta noite, o jardim-de-infncia deve estar fechado.
         -- Logo vo tocar os sinos do Natal -- digo. --
No ? Voc no pode estar na cidade quando os sinos
tocarem.
        Ela no responde, aperta a minha mo com fora e
ternura -- e  como se estivssemos flutuando, levssimos,
no espao sideral, parecemos fartos de leite intergalctico,
tendo o universo inteiro s para ns.
        O Museu Histrico ficou para trs, e ns chegamos
ao Parque do Castelo. Sei que a qualquer momento pode
passar um txi. Sei que em breve os campanrios vo
anunciar a festa de Natal.
        Eu me detenho diante dela. Com muito cuidado,
acaricio-lhe o cabelo mido e pouso a mo na fivela de
prata em sua nuca. Embora esteja gelada, aquece todo o
meu corpo. Porque eu estou mesmo tocando aquela fivela!
        Ento pergunto:
        -- Quando a gente vai se encontrar outra vez?
        Ela olha fixamente para o asfalto antes de erguer
os olhos e me fitar. Suas pupilas danam, inquietas, tenho
a impresso de que seus lbios esto trmulos. Ento ela
apresenta um enigma com o qual ainda hei de quebrar
muito a cabea. Pergunta:
        -- Quanto tempo voc consegue esperar?
        Que diabo de resposta eu podia dar, Georg?
Talvez fosse uma armadilha. Se dissesse "dois ou trs
dias", eu me mostraria impaciente demais. E, se
respondesse "a vida inteira", ela podia pensar que eu no a
amava tanto assim ou talvez que no fosse sincero. De
modo que era preciso encontrar uma resposta
intermediria.
        Eu disse:
        -- Agento esperar at que o meu corao comece
a sangrar de aflio.
        Ela sorriu, insegura. Ento roou o dedo em meus
lbios. E perguntou:
         -- E quanto tempo demora?
         Desesperado, eu sacudi a cabea e resolvi dizer a
verdade.
         -- Cinco minutos, talvez.
         Ela claramente gostou de ouvir essas palavras, mas
mesmo assim sussurrou:
         -- Seria bom se voc conseguisse agentar um
pouco mais...
         Agora fui eu que tive de pedir uma resposta.
Perguntei:
         -- Quanto?
         -- Voc tem de esperar meio ano. Se conseguir,
podemos nos rever.
         Acho que deixei escapar um suspiro.
         -- Por que tanto?
         A garota das laranjas contraiu o rosto. Pareceu
estar sofrendo. E disse:
         -- Porque  exatamente esse o tempo que voc
precisa esperar.
         Ela viu o quanto eu fiquei decepcionado. Talvez
por isso tenha acrescentado:
         -- Mas, se voc conseguir, nos seis meses seguintes
a gente vai se ver todo dia.
         Eis que os sinos das igrejas comeam a dobrar, e
s nesse momento eu tiro a mo de seu cabelo mido e da
fivela de prata. Ao mesmo tempo, um txi livre se aproxima
na Wergelandsvei. Tinha de ser assim.
         Ela me olha bem nos olhos e parece pedir alguma
coisa, pedir compreenso, pedir-me que use toda a minha
capacidade e toda a minha razo. Est com lgrimas nos
olhos outra vez.
        -- Bom, feliz Natal ento... Jan Olav -- balbuciou.
E indo para o meio da rua, pra o txi, embarca e acena
alegremente para mim. Mas o ar est carregado de
fatalidade. Ela no olha para mim quando o carro se afasta e
logo desaparece. Acho que est chorando.

         Eu estava arrasado, Georg. Em estado de choque.
Tinha ganhado um milho na loto, mas s por uns poucos
minutos, logo depois vieram avisar que houvera um
engano, de modo que o prmio no seria pago, pelo menos
no agora.
         Quem era aquela extraordinria garota das
laranjas? Eu j tinha feito muitas vezes essa pergunta. Mas
agora se acrescentava outra questo. Como ela sabia o meu
nome?
         Os sinos continuavam repicando, na catedral e nas
outras igrejas do centro da cidade, anunciando a festa de
Natal. No se via vivalma na rua, talvez por isso repeti
vrias vezes essa pergunta em voz alta no ar de dezembro,
quase cantando: "Como ela sabe o meu nome?".
Igualmente urgente era a terceira pergunta: por que s
poderia voltar a v-la dali a seis meses?
         Eu teria ocasio de sobra para me ocupar dessa
indagao. E, enquanto passavam os dias, no me faltaram
respostas plausveis, mas era impossvel saber qual delas era
a certa. S podia me ater a uns poucos sintomas, porm,
como eu j disse, o meu forte era interpretar sinais ou fazer
diagnsticos. Quem sabe no estava exagerando um
pouco? Em todo caso, surgiram muitas hipteses paralelas.
         Talvez a garota das laranjas estivesse gravemente
enferma, vai ver que era por isso que lhe haviam prescrito
uma rigorosa dieta de laranjas. Talvez, nos prximos seis
meses, fosse obrigada a se submeter a um desagradvel
tratamento nos Estados Unidos ou na Sua, j que no
havia mais nada que se pudesse fazer aqui na Noruega.
Mesmo porque sempre ficava com lgrimas nos olhos,
principalmente quando se separava de mim. Mas ela
tambm havia dito que, depois, ns amos passar seis meses
nos encontrando todo santo dia, ou seja, de julho a
dezembro. Primeiro eu teria de passar meio ano esperando
a garota das laranjas, e depois poderia ficar com ela todos os
dias. Esse pensamento me deu mais coragem. No fundo,
no era um trato to ruim assim, de modo que eu no tinha
motivo para me queixar. Significava que, no ano seguinte,
nos veramos em um de cada dois dias. E, alm de tudo,
no seria infinitamente pior passar todos os dias juntos
durante seis meses, para depois nunca mais nos vermos?
         Eu estava comeando a estudar medicina, e todos
sabem que os estudantes de medicina, em seu af de
interpretar sinais, de fazer diagnsticos, adoram farejar
doenas raras. Tal como acontece com certa freqncia de
os estudantes de teologia duvidarem da sua f em Deus ou
de os futuros juristas colocarem em dvida o direito e a
legislao do pas. Por isso, num exerccio de rigorosa
autodisciplina, tentei me dissuadir de que a garota das
laranjas estivesse doente e fosse obrigada a se sujeitar a um
tratamento doloroso num pas estrangeiro. No me
faltavam outras pistas a seguir.
         No entanto, mesmo que a garota das laranjas
estivesse com uma doena terminal ou completamente
louca, o fato de ela saber o meu nome continuava sem
explicao. E isso no era tudo: por que ela chorava quase
toda vez que me via? O que havia em mim que a deixava to
indescritivelmente triste?
         Nos feriados de fim de ano que se seguiram, eu
pude me entregar de corpo e alma a essas cogitaes. Por
exemplo, era capaz de repassar muitas e muitas vezes tudo
o que imaginei sobre a enorme famlia em Frogner. Ou de
enumerar todos os motivos que me ocorriam para a
restrio de eu s poder reencontrar a garota das laranjas
dentro de meio ano. Uma das respostas -- e talvez tpica do
seu gnero -- dizia que a garota das laranjas era
simplesmente boa demais para este mundo. Por isso tinha
resolvido ir para a frica, a fim de contrabandear alimento
e medicamentos para os miserveis daquela parte da Terra,
principalmente nas regies em que grassavam a malria e
outras molstias terrveis. Entretanto, uma resposta dessas
no decifrava o enigma das muitas laranjas. Ora, por que
no? Talvez ela pretendesse lev-las para a frica. Por que
eu ainda no havia pensado nisso? Era possvel que tivesse
investido todas as suas economias e fretado um avio
Hrcules s para esse fim.
         Tudo bem, Georg, ns combinamos de s seguir
as pegadas verdadeiras da garota das laranjas. Para lhe
contar todas as minhas idias e fantasias naquele tempo, eu
teria de passar um ano inteiro diante do computador, e j
no me resta tanto tempo assim. A questo  simplesmente
essa, por mais que me doa pensar nela.
         Mas por que parar de sonhar e devanear? Fora o
fato de a garota das laranjas ter me fitado algumas vezes
nos olhos, ter segurado duas vezes a minha mo e ter
roado o dedo na minha boca uma vez, eu s conseguia
pensar nas nossas poucas palavras. Por isso anotei tudo por
escrito e fiquei quebrando a cabea para interpretar a nossa
conversa.
        E voc, Georg? Ser que consegue: 1) explicar por
que ela comprava tanta laranja? 2) contar por que, na
lanchonete, ela me olhou intensamente nos olhos e segurou
a minha mo, mas no disse uma palavra? 3) dizer por que
escolhia cada laranja com tanto cuidado, no Youngstorg,
evidentemente procurando no pegar duas muito
parecidas?  capaz de: 4) achar um motivo pelo qual ns
s podamos nos rever dali a seis meses? E 5) pode decifrar
o maior de todos os enigmas, ou seja, como ela sabia o meu
nome?
        Caso consiga tudo isso,  de se supor que voc
esteja prestes a responder  pergunta mais importante de
todas: quem era aquela garota das laranjas afinal? Uma de
ns? Ou vinha de uma realidade totalmente diferente,
talvez de outro mundo, no qual ainda tinha de passar seis
meses antes de ser autorizada a retornar e aqui ficar?
        Eu no conseguia interpretar os sinais, Georg. No
conseguia fazer um diagnstico.

         No muito tempo depois que a garota das laranjas
desapareceu no Wergelandsvei, apareceu outro txi, o qual
eu tratei de tomar. Fui para casa, no Humlevei, passar o
Natal com a minha famlia.
         Naquele inverno, Einar s tinha uma paixo, que
era praticar o slalom em Tryvannskleiva. Eu havia comprado
para ele um par de luvas de esqui muito chiques e estava
ansioso para que ele abrisse o embrulho depois da ceia.
Alm disso, gastara um dinheiro com uma rao de luxo
para a sua gata. Minha me ia ganhar uma muito discutida
antologia de poesia sueco-finlandesa. Era de Marta
Tikkanen e se intitulava Os poemas de amor do sculo. Para o
meu pai, comprara o romance de um novo autor noruegus
chamado Erling Gjelsvik, ambientado em Pamplona, na
Espanha. Eu o havia lido e achei que interessaria ao meu
pai. Convm acrescentar que, naquele tempo, eu sonhava
escrever alguma coisa. Talvez por isso me pareceu
particularmente interessante dar ao meu pai o livro de
estria de um escritor jovem e desconhecido.
         Na poca, eu costumava dormir no quartinho
contguo  sala de visitas. Agora  o seu quarto, pelo menos
enquanto escrevo isto. No posso saber como voc estar
quando ler o que escrevo.
         No quero falar na ceia de Natal daquele ano, no
se encaixa no arcabouo que estabeleci para esta histria.
S vou contar que, na noite de 24 para 25 de dezembro, no
consegui conciliar o sono um segundo.

           Eu tinha chegado s at a metade da longussima carta do
meu pai, mas agora queria ir ao banheiro. A culpa era toda minha, j
que tinha me entupido de refrigerante.
           Droga, pensei. Ia ter de passar pela sala, pelo hall e pelo
corredor, e ser crivado de olhares curiosos dos adultos. Acho que isso
 que  passar pelo "corredor polons". Mas no tinha outra sada.
           Pus o impresso na cama, abri a porta e tranquei-a ao sair.
Guardei a chave no bolso.
           Os quatro apareceram na hora. Procurei no dar bola para
os muitos olhares interrogativos que me endereavam.
           -- J terminou? -- perguntou mame. Ela estava com cara
de ponto de interrogao, pois, afinal, o que  que eu acabara de ler?
           --  triste? -- quis saber Jorgen. Parecia convencido de que
devia sentir pena de mim porque o meu pai morreu, embora sempre
tivesse se esforado muito para ser um bom substituto. No deixava de
ser legal da parte dele e talvez fosse melhor assim. Mas no dava para
ele ter pena da minha me, que perdeu o marido, e ao mesmo tempo
tomar o lugar desse homem, para no dizer deitar-se em sua cama.
Acho que, no fundo, Jorgen achava timo que o meu pai tivesse morrido.
Do contrrio, ele no teria a mame. Nem Miriam. E tambm no
teria a mim. No   toa que dizem: "Tua morte  minha salvao".
          Reparei que ele tinha se servido de uma boa dose de usque.
Vez por outra Jorgen toma l o seu aperitivo, mas normalmente isso s
acontece nas sextas-feiras e nos sbados. Aquele dia era segunda-feira.
          No creio que ele achasse terrivelmente desagradvel ficar be-
bendo no meio da sala, no  isso que interessa. Mas talvez achasse um
pouco desagradvel eu ter me trancado no quarto para ler uma coisa que
o meu verdadeiro pai escreveu pouco antes de morrer, muito tempo antes
que houvesse um Jorgen nesta casa. Quando era pequeno, eu s vezes
o chamava de "inquilino". O que, naturalmente, era uma
infantilidade. S estava querendo provoc-lo.
          -- Ou voc ainda no terminou ? -- perguntou o vov.
Tinha acendido um charuto. E havia compreendido a situao.
          -- Ainda falta a metade. E agora eu vou ao banheiro.
          -- Mas voc est gostando? -- A vov no dava sossego.
          -- Sem comentrios -- respondi.  o que dizem os polticos
para os jornalistas quando no querem enfrentar perguntas
complicadas.
          O que a imprensa e os pais tm em comum  a curiosidade
insacivel. E o que os polticos e as crianas tm em comum  que os
outros no param de lhes fazer perguntas desagradveis, para as quais
nem sempre h uma resposta simples.

          Talvez tenha chegado a hora de apresentar com mais
detalhes os coadjuvantes desta histria, e comeo pela mame que,
afinal,  quem eu mais conheo.
          Mame acaba de completar quarenta anos, e com toda a certe-
za eu posso descrev-la como uma mulher madura e independente, pelo
menos no tem o menor medo de expressar sua opinio. Alm disso, ela
 "maternal", e agora no estou pensando apenas no modo como cuida
de Miriam. Tambm comigo  meio superprotetora e, s vezes, se dirige
a mim como se eu fosse dois ou trs anos mais novo. Em geral eu no ligo,
mas de vez em quando isso me deixa fulo, por exemplo, quando trago
os colegas de escola para casa. Parece que ela faz questo de demonstrar
aos meus amigos que eu continuo sendo o seu bebezinho, muito embora
j seja alguns centmetros mais alto do que ela. Um dia eu estava
jogando xadrez na sala com um amigo, ele se chama Martin, e ela se
aproximou do sof com uma escova e estava disposta a me pentear! Mas
ento eu disse muito claramente o que achava daquilo. No gosto de
ficar com raiva da mame -- e, na ocasio, no fiquei com raiva, fiquei
furioso, transtornado --, mas, como Martin estava presente, tive de
mostrar que sabia estabelecer os meus limites. Mame simplesmente foi
para a cozinha e, vinte minutos depois, apareceu com chocolate quente
e bolo de uva passa. Martin soltou um assobio de entusiasmo, mas eu
achei o fim da picada ela praticamente me dar comida quase que na
boca. Tive vontade de correr para a cozinha ver se ainda havia cerveja
na geladeira. Se no achasse nenhuma lata, pensei, sabia onde Jorgen
guardava a garrafa de usque. Mas a minha sorte  que Martin tem
senso de humor.  claro que depois ns precisamos conversar sobre isso.
Acho que ele passou a respeitar mais a minha me quando eu lhe contei
que ela dava aula na Academia de Belas-Artes.
          -- Se aparecer um novo Picasso, j sabe quem foi a
professora dele -- disse eu. Depois do que tinha acontecido, estava
muito interessado em realar um pouco o talento dela.
           difcil descrever a prpria me, pelo menos no que se refere
a veleidades, manias e coisas do gnero, mas francamente ela tem uma
particularidade muito especial. Mame adora alcauz, todo tipo de
alcauz. Em toda parte a gente tropea em barquinhos de alcauz,
tirinhas e bombons. Ultimamente ela anda comendo escondida, pois
Jorgen e eu resolvemos cortar o mal pela raiz e reprimir esse hbito
pouco sadio. Jorgen acha que o consumo de alcauz provoca presso alta,
o que talvez seja um exagero, mas agora a coisa foi to longe que eu tive
de prometer a ela no contar a Jorgen quando ela vai  cidade e compra
um saco de gatinhos de alcauz ou uma lata de bombons com recheio de
alcauz.
           Se tivesse de resumir em duas palavras o lado forte da
mame, eu diria: o bom humor. Mas tambm no posso negar o seu
lado fraco: o mau humor. E  bem raro eu observar qualquer coisa entre
esses dois extremos. Em geral, mame est muito bem-humorada, mas
de vez em quando vira uma ona. Ou seja, ela sempre pende para um
lado, nunca se mostra "equilibrada". A sua frase preferida : "Agora
a gente joga uma partida de baralho e depois vai dormir".
           Mas falemos em Jorgen. Ele tem um metro e setenta, ou
seja, exatamente a mesma altura que mame, coisa que no chega a
impressionar num homem adulto. Muitos diriam que isso  uma des-
vantagem, e, se tiverem razo, no  a sua nica desvantagem, pois
ainda por cima Jorgen tem cabelo vermelho. Sua pele  muito clara,
no vero ele nunca fica bronzeado, fica vermelho, todo queimado de sol,
at nos braos o sujeito tem plos ruivos. Como eu j disse, Jorgen 
muito ligado na moda, eu diria at obcecado. Nem todos os homens tm
trs tipos de desodorante e quatro de loo de barba no banheiro. Nem
todos se aventuram na rua com um casaco de pele de camelo
amarelo-claro e um leno de seda preto no pescoo. Jorgen sim. E o pior
 que fica bem com essa roupa.
           Mas, apesar de tudo, Jorgen  investigador de policial Vive
falando na sua obrigao de manter o sigilo, mas nem sempre consegue.
H algum tempo, eles resolveram comprar um guarda-roupa novo para
mim. (Alegavam, irritadssimos, que viviam tropeando nas minhas
coisas espalhadas pela casa, mas  claro que isso era um grande exagero,
pois eu nunca deixei um nico p de meia jogado no andar trreo.
Mesmo porque eu raramente fico l.) Passamos a tarde inteira
montando o guarda-roupa e s de noite o pusemos no lugar. Jorgen
queria coloc-lo perto da porta, mas eu no concordei. Queria que
ficasse perto da janela, ainda que ele ultrapassasse meio centmetro do
batente. Disse que o quarto era meu e que no me importava ficar com
meio centmetro de janela a menos. Lembrei-o de que eu moro nesta casa
h mais tempo do que ele e que, alm disso, era bom poder abrir o
guarda-roupa mesmo quando a porta do quarto estivesse aberta.
Naturalmente, consegui impor a minha vontade, mas ele passou o resto
do dia emburrado comigo e, mesmo assim,  custa de muito esforo.
           Talvez o lado forte de Jorgen seja a disposio a dedicar
quase todas as suas horas livres ao esforo de me transformar num
atleta. Todo mundo nasce com msculos, ele diz, mas os msculos preci-
sam ser usados. E  possvel que o seu lado fraco seja no querer aceitar
que ser atleta talvez no faa parte dos meus planos futuros. Duvido
que Jorgen ache legal eu viver ensaiando a Sonata ao luar. Sem
dvida, a sua frase predileta  "Depende do gosto do fregus".
           Antes de falar nos meus avs, preciso ressaltar que os
conheo muito bem, tanto quanto a Jorgen, porque h anos que os visito
com freqncia em Tonsberg. Alis, passei um bom tempo na casa deles
logo que mame e Jorgen resolveram ficar juntos. Na poca, eu tinha s
dez anos. Duvido que mame e Jorgen tivessem se casado se ela no
tivesse a possibilidade de se livrar de mim durante alguns dias. No
digo isso para me queixar, pelo contrrio. Eu sempre gostei de Tonsberg.
Alm disso, acho bom que ela e Jorgen tenham tido a sensatez de me
poupar da fase inicial do seu relacionamento, ou seja, o perodo do flerte.
Nem por isso a coisa deixou de ser dura para mim. Uma vez eu subi
ao primeiro andar para dizer boa-noite, e dei com os dois debaixo das
cobertas, aos beijos e abraos. Sem estmago para ficar vendo aquilo, dei
meia-volta e desci a escada na ponta dos ps. Talvez tivesse reagido de
outro modo se Jorgen fosse meu pai. Talvez no. No fundo, no achei
aquilo to terrvel assim. Mas eles bem que podiam ter fechado a porta
do quarto. Podiam ter dito que estavam com sono, que iam dormir.
Ento eu no teria me sentido to idiota. E to sozinho.
           Vov est para completar setenta anos, e a vida toda foi
professora de canto. Gosta de qualquer tipo de msica, mas o seu grande
amor  Puccini. Transformou em misso da sua vida fazer com que eu
goste de La Bohme, mas, francamente, a pera italiana me parece
to cafona, mesmo La Bohme, no passa de uma mistura de amor
com tuberculose. No mais, a minha av gosta muito da natureza,
principalmente dos pssaros. Adora todo tipo de peixe e frutos do mar
e inventou, por exemplo, uma salada especial que ela chama de "salada
Tonsberg" (feita com camaro, carne de siri e almndegas de peixe;
sendo que a originalidade est nas tais almndegas). Todo outono, ela
insiste em ir colher cogumelos comigo na ilha de Tjome. O seu lado mais
forte: a vov conhece os nomes de todos os passarinhos e tambm sabe
onde eles fazem ninho. O lado mais fraco: s consegue (infelizmente)
cozinhar cantando rias de Puccini. Eu no tentei faz-la perder esse
hbito, simplesmente no tive coragem, pois ela  uma tima cozinheira.
Sua frase preferida: "Sente a, Georg, para a gente bater um papo".
          Antes de se aposentar, o vov trabalhava no Instituto de
Meteorologia do Estado e nunca perdeu esse interesse, vive comprando
jornais s para discutir a previso do tempo. Fuma charutos mas,
segundo ele afirma, s nas ocasies festivas. Pelo visto, para ele, as
minhas visitas a Tonsberg so ocasies muito festivas, assim como os
nossos passeios de barco. Ele  alegre e engraado, para no dizer
espalhafatoso, e no hesita em dizer o que pensa. Quando acha horrvel
o penteado da vov, diz abertamente. Mas tambm no vacila em
contar quando gosta do penteado dela. Vov passa a metade do
semestre de vero no seu barco e a outra metade debruado nos jornais.
De vez em quando, escreve uma carta de leitor  Gazeta de
Tonsberg e talvez possa ser considerado uma celebridade local. Seu
lado mais forte:  um timo marinheiro. Seu lado mais fraco: s vezes
d a impresso de que se considera o rei de Tonsberg. Sua frase
predileta: "Ns ricos temos sorte na vida!".
          Tambm j mencionei o tio Einar. Achei gozado ler que, no
outono em que meu pai conheceu a garota das laranjas, ele tinha a mes-
ma idade que tenho agora. Hoje  piloto de um grande navio da ma-
rinha mercante, no se casou, mas garante que tem uma noiva em cada
porto. {Houve uma poca em que eu tive a impresso de que ele tambm
tinha uma noiva a bordo. Em todo caso, durante uns seis meses existiu
uma tal Ingrid que, depois, se demitiu de repente.) Ele vive prometendo
um dia me levar ao exterior em seu navio, mas com certeza  s conversa
fiada, pois no deu em nada at agora. O lado forte: possivelmente o tio
mais fantstico da Noruega. O lado fraco: nunca cumpre as promessas.
A frase predileta: "No vem que no tem, rato de terra!".
          Agora s falta um, mas, em compensao,  o mais difcil de
descrever, pois se trata de Georg Roed. Eu tenho um metro e setenta e
quatro, de modo que sou quatro centmetros mais alto do que Jorgen.
Acho que ele no gosta muito disso, mas tambm  possvel que no
ligue (!). Como eu vivo dentro do garoto, nunca o vejo de fora, mo-
vimentando-se pela casa. No entanto, vez por outra, dou de cara com ele
nas raras ocasies em que paro na frente do espelho. Por presunoso que
parea, sou obrigado a confessar que perteno  parcela da populao
que est satisfeita com a aparncia que tem. No digo que sou lindo,
mas horroroso tambm no sou. Em todo caso,  bom ficar atento. Li,
em algum lugar, que mais de vinte por cento das mulheres esto
convencidas de que fazem parte dos trs por cento das mais lindas do
pas, e essa equao obviamente  impossvel. No sei quanta gente se
inclui nos trs por cento mais feios, mas imagino que seja horrvel passar
a vida toda insatisfeito consigo mesmo. Eu espero sinceramente que
Jorgen no fique triste pelo fato de ser ruivo e medir s um metro e
setenta sem sapatos. s vezes me d vontade de saber se isso acontece,
mas no tenho coragem de perguntar.
          Se existe uma coisa que me preocupa na minha aparncia, 
que ultimamente andaram saindo umas espinhas bem desagradveis
na minha testa, e no me consola saber que dentro de quatro ou oito
anos elas tero desaparecido. Jorgen diz que umas boas sesses de
jogging com ele podem ajudar, mas nessa eu no caio. Foi uma grande
besteira ele dizer isso, e agora  que eu no corro mesmo. Para que no
pensem que estou fazendo jogging s para me livrar das espinhas.
          Eu herdei os olhos azuis do meu pai, sou louro e tenho a
pele muito clara, mas fico bem bronzeado no vero. O meu lado forte:
Georg Roed faz parte da parcela da populao que realmente
compreendeu que ns moramos num planeta da Via Lctea. O lado
fraco: no sou propriamente um cara audacioso. Bem que gostaria de
ser um pouco mais ofensivo nesse aspecto. Frase predileta: "Por que
no?".

           Depois de ir ao banheiro, tive de passar pela sala outra vez,
mas agora todos os adultos ficaram calados. Evidentemente, tinham
combinado isso. Fechei a porta do quarto que antigamente era o do
meu pai, tranquei-a e me joguei na cama. Logo ia saber quem era a
misteriosa garota das laranjas. Caso meu pai tivesse voltado a v-la,
diga-se de passagem. Talvez fosse uma bruxa. Pelo menos o meu pai ela
enfeitiou. Ele devia ter um motivo para fazer tanta questo de me
escrever sobre essa moa. Com certeza, eu precisava saber, era uma coisa
que meu pai, antes de morrer, queria muito comunicar ao filho.
           Continuava com a sensao de que a garota das laranjas
podia ter alguma coisa a ver com o telescpio Hubble ou pelo menos com
o universo e o espao sideral. Meu pai escreveu uma coisa estranha que
me levou a pensar assim. Voltei algumas pginas e reli: "Ela no
responde, aperta a minha mo com fora e ternura -- e 
como se estivssemos flutuando, levssimos, no espao
sideral, parecemos fartos de leite intergalctico, tendo o
universo inteiro s para ns".
           Ser que a garota das laranjas era de outro planeta? Em todo
caso, insinuou-se que ela podia ser de um mundo diferente do nosso.
Teria chegado num vini?
            claro que no, no acredito numa coisa dessas, e meu pai,
com certeza, tambm no acreditaria. Mas talvez ela estivesse con-
vencida disso. O que no deixava de ser gravssimo!
           O Hubble d uma volta em torno da Terra em noventa e sete
minutos, a uma velocidade de vinte e oito mil quilmetros por hora. S
para comparar: a primeira locomotiva a vapor da Noruega levava duas
horas e meia para percorrer o trecho de sessenta e oito quilmetros entre
Christiania e Eidsvoll. Eu fiz o clculo, e resultou numa velocidade
mdia de vinte e oito quilmetros por hora. Portanto, o telescpio
Hubble  mil vezes mais veloz do que o primeiro trem da Noruega. (O
meu professor gostou muito da comparao!)
           Vinte e oito mil quilmetros por hora! Isso sim  flutuar,
levssimo, no espao sideral! E  fartar-se de "leite intergalctico". Pelo
menos considerando que ele passa o tempo todo tirando fotografias de
coisas situadas a milhes de anos-luz da Via Lctea.
           O Hubble possui duas asas com placas solares. Elas tm
doze metros de comprimento, dois e meio de largura e fornecem trs mil
watts ao satlite. Mas, ao sair da catedral, passar pelo Museu His-
trico e chegar ao Parque do Castelo,  bem pouco provvel que aqueles
dois pombinhos se sentassem nessas asas para ter o universo inteiro s
para eles. Muito embora talvez estivessem no stimo cu.
           Peguei o mao de papis e continuei lendo.

         Entre o Natal e o Ano-Novo, eu no tentei
encontrar a garota das laranjas. Deixei reinar a paz natalina.
Mas, em janeiro, parti para a luta. Estava em tima forma.
         Fiz centenas de tentativas de localiz-la, mas
sucesso, que  bom, no tive nenhum, motivo pelo qual
nada posso contar. Tenho certeza de que voc j se
acostumou ao ritmo e  lgica deste relato.
         Mesmo assim, vou abrir uma exceo, e ela tem a
ver com um momento importante que eu esqueci de pr na
listinha de enigmas para voc decifrar. O velho anoraque de
andarilho, Georg! E esse anoraque? Foi justamente ele que
me levou  idia de uma penosa excurso de esqui nos gelos
da Groenlndia. Foi ele que me levou a supor que talvez a
garota das laranjas fosse muito pobre. Mas, acima de tudo,
sugeria que ela adorava passear no frio.
        Por isso tratei de esquiar muito naquele inverno, e
 bem possvel que as tantas excurses pelas imediaes de
Oslo e das montanhas tenham contribudo para que,
durante mais de dois meses, o meu corpo conseguisse
manter  distncia esta doena cruel. Mas agora no quero
falar nesses passeios de esqui, pois eu no a vi, no cruzei
com ela nos Loipen nem em Kikut, Stryken ou Harestua.
No entanto, com a chegada de maro, comeou a se
aproximar o domingo do Holmenkollen. Eu ficava
contentssimo toda vez que pensava na iminente
temporada de esqui. Agora todas as peas pareciam se
encaixar, todo o quebra-cabea. Para mim, era como a
quina da loto, s faltava um sorteio, e as chances estavam
para l de boas.
        Quando faz bom tempo, mais de 50 mil pessoas
se renem no Holmenkollen nesse domingo. Ou seja, uma
porcentagem enorme da populao de Oslo sobe esse
morro. Mas qual  a porcentagem dos que vo com um
anoraque velho? Se voc quiser saber, eu diria que fica bem
perto dos cem por cento.
        Pois bem, fui ao Holmenkollen, e o tempo no
estava nada mau, coisa que aumentava as minhas
probabilidades. Eu tinha mais de 50 mil chances de topar
com a garota das laranjas, e palavra que, naquele domingo
de maro, no faltavam anoraques velhos l em cima, em
todos os tons de desbotado. Por isso nem olhei para a pista
de esqui, estava mais do que ocupado com a contemplao
dos muitos anoraques. Avistei vrias vezes a garota das
laranjas e, em todas, podia ter soltado um grito de alegria,
mas nunca era ela. Em duas ocasies cheguei a ver a
fabulosa fivela de prata no cabelo, mas no era a dela.
         A garota das laranjas no estava l, Georg.
Simplesmente no estava. E essa foi a nica coisa que eu
registrei. Nem cheguei a saber quem venceu a prova de
salto. Tudo que constatei naquele domingo foi que a garota
das laranjas no foi ao Holmenkollen. Eu s tinha olhos
para o que no existia.
         Depois disso, estive s mais uma vez no
Holmenkollen e no sei se isso lhe diz alguma coisa. Ser
que lhe desperta uma vaga lembrana de algo que ns dois
fizemos l quando voc tinha quase trs anos e meio?
         Nessa ocasio, ns ficamos na parte de baixo do
declive, olhando para os esquiadores l no alto. Era um dia
de maro particularmente radiante. Um raro favnio
elevara muito a temperatura. E, para que no cancelassem a
competio de esqui, foi preciso ir buscar neve em meia
Noruega, para ser mais exato, no alto das montanhas
prximas de Finse. Nesse ano, Jens Weifsflog ficou com a
medalha de ouro. Foi uma grande decepo para o pblico
noruegus, mas no propriamente uma surpresa, pois
aquela no era a primeira vitria de Weifsflog.
         Vou lhe contar um segredinho. Mesmo naquele
dia quente de maro, quase um ano atrs, quando eu e voc
estvamos no Holmenkollen, mais de uma vez eu me
surpreendi procurando a garota das laranjas. Tinham se
passado mais de dez anos, mas a frustrao continuava
dentro de mim.

       Eu tenho pouco tempo, meu filho. Mas no  s
por esse motivo que vou saltar algumas semanas. Antes
disso no h nada que valha a pena contar.
         Num dos ltimos dias de abril, achei um bonito
carto-postal na minha caixa de cartas. Era sbado, e eu
tinha ido visitar meus pais no Humlevei. Portanto, o carto
no foi enviado a Adamstuen, onde na poca eu morava
com Gunnar. Mesmo assim, estava endereado a mim.
         Agora oua: no carto havia um laranjal encantador,
e na fotografia estava escrito com letras grandes PATIO DE
LOS NARANJOS; isso significa mais ou menos "ptio das
laranjeiras", isso o meu espanhol permite saber. Como j
disse, eu sempre soube interpretar sinais.
         Ptio das laranjeiras! O meu corao disparou.
Georg, existe uma coisa chamada presso arterial. Em
situaes extremas, ela pode subir repentinamente, pode
at saltar. Mas nem por isso a gente deve se furtar s
grandes experincias e s emoes fortes. Esse estado no
oferece nenhum perigo. (Espero que, mesmo assim, voc
no se meta a voar com asa-delta nem a praticar o
pra-quedismo no futuro. E nada de bungee jumping!)
         Eu virei o carto-postal. Tinha sido postado em
Sevilha e s estava escrito: Eu penso em voc. D para esperar
mais um pouco?
         Nada mais, nem o nome do remetente. Mas havia
um rosto desenhado no carto, e era o rosto dela, Georg,
aquela carinha de esquilo. Parecia desenhado por uma
artista, por uma grande artista, alis.
         Nada disso me surpreendeu muito. Naturalmente,
a garota das laranjas estava no ptio das laranjeiras, como
no podia deixar de ser. Simplesmente tinha viajado ao seu
reino, o pas dos laranjais. Tudo isso era perfeitamente
normal na minha imaginao. Afinal, o Menino Jesus
tambm preferiu ficar no templo para estar na casa de seu
pai.
         No era difcil de entender. Eu tinha matado a
charada. Todas as combinaes do jogo de pacincia se
revelaram de uma hora para a outra. L a garota das laranjas
podia passar meio ano tomando flego para se dedicar ao
seu interesse exigente, quase artstico, pelas variedades de
laranja, e ento finalmente voltaria para cumprir a promessa
de passar outros seis meses encontrando-se diariamente
comigo. Depois, talvez precisasse partir de novo para
tornar a respirar, mas ento tudo seria diferente, muito
diferente.
         Eu fiquei felicssimo, meu crebro se ps a
produzir grandes quantidades de uma substncia a que ns,
mdicos, damos o nome de "endorfina". Existe uma
palavra especial para designar esse estado quase mrbido de
felicidade, a gente diz que o paciente est "eufrico". Pois
era nesse estado que eu me encontrava. E, por isso, fui
correndo falar com os meus pais, os dois estavam no
jardim-de-inverno, mame na cadeira de balano verde e
papai atrs de um jornal na velha espreguiadeira. Entrei
precipitadamente e comuniquei que ia me casar. Foi o que
eu disse, que pretendia me casar. Coisa que no devia ter
feito, pois meia hora depois veio o grande tombo. Meu
crebro parou de produzir endorfina e l se foi a euforia. E
eu acabei sem entender bulhufas. Compreendendo menos
do que nunca.
         A garota das laranjas j mostrara que sabia o meu
nome. Mas agora estava claro que tambm sabia o meu
sobrenome. E isso no era tudo, Georg: l no pas dos
laranjais, tinha at mesmo o endereo da casa do Humlevei.
O que voc me diz disso? Era bom, de algum modo, era
uma idia maravilhosa, fosse qual fosse a explicao que se
desse ao enigma. Mas tambm no era triste ela ter ido 
Espanha sem me dizer uma palavra que fosse, naqueles
minutos mgicos em que estivemos de mos dadas no
Parque do Castelo, pouco antes que os sinos do Natal
comeassem a dobrar e a Gata Borralheira embarcasse na
sua carruagem que, do contrrio, viraria uma abbora?
         Agora tinham se passado trs meses e meio, e no
mnimo vinte e cinco incurses de esqui ou expedies de
busca.
         Ou ser que a garota das laranjas tambm havia
estado no Marrocos, na Califrnia ou no Brasil? Hoje em
dia, a laranja  um fruto fantstico, Georg. Na minha
opinio, h muito que devia ter sido canonizada como a
fruta mais importante da natureza. Talvez a garota das
laranjas trabalhasse na Agncia de Inspeo das Laranjas da
ONU (AIL)? Acaso as laranjas estavam sendo atacadas por
uma nova praga? Ou ser que ela ia com tanta freqncia ao
Youngstorg para avaliar o estado de sade das laranjas? Era
por isso que fazia inspees semanais?
         Talvez aquela moa to viajada j tivesse estado na
China. Ento devia saber que, em alguns lugares, essa fruta
tambm era conhecida como "ma-da-china", pois
provm desse pas. Entretanto, se a garota das laranjas
estivesse na China, onde brotou a primeira laranjeira do
planeta, eu infelizmente no tinha a menor possibilidade de
lhe enviar um carto-postal com os dizeres  garota das
laranjas, China. Para o correio chins seria dificlimo
localiz-la em meio a mais de um bilho de pessoas. Eu
certamente conseguiria, mas confesso que duvidava que os
carteiros chineses se dispusessem a procur-la com a
mesma avidez.
        Deixe estar, Georg, a gente precisa prosseguir.
        Larguei os estudos durante alguns dias, pedi mil
coroas emprestadas aos meus pais e comprei passagem
num vo barato para Madri. L pernoitei na casa do tio de
um conhecido. Na manh seguinte, embarquei no avio
para Sevilha. Certeza de que a encontraria eu no podia ter,
partia do princpio de que as probabilidades eram mais ou
menos iguais s do Holmenkollen. E mais: mesmo que no
a encontrasse em Sevilha, quer dizer, cara a cara, eu sabia
que ela estivera l pouco tempo antes de sua longa viagem,
digamos, ao Marrocos. Alm disso, ficaria conhecendo o
pas dos laranjais e respiraria um pouco do ar to ctrico que
ela havia respirado, passaria pelas ruas pelas quais ela
passara, talvez at me sentasse nos mesmos bancos em que
tinha se sentado. S isso j valia a viagem. Ademais, no era
to inconcebvel assim dar com vestgios importantes que
ela porventura tivesse deixado, por exemplo, no tal ptio
das laranjeiras, supondo que me permitissem entrar l.
Imaginei que aquele lugar sagrado fosse protegido por
muralhas, ces ferozes e guardas armados at os dentes.
        No entanto, pouco mais de meia hora depois de
desembarcar em Sevilha, tive a oportunidade de passear
no ptio das laranjeiras. Ficava espremido atrs da grande
catedral da cidade e era um belo pomar cercado de muros,
quase uma plantao-modelo, cheia de rvores
geometricamente enfileiradas, todas carregadas de frutas
maduras. Mas nem sinal da garota das laranjas. Era de se
presumir que tivesse ido  cidade pouco antes. Por certo
no ia demorar...
        Tentei refletir com o mximo de sensatez,
procurando me convencer de que no podia ter esperana
de encontr-la imediatamente, talvez nem mesmo no
primeiro dia. Por isso, passei s trs horas no ptio das
laranjeiras. Contudo, s para ter certeza, resolvi deixar um
bilhete numa velha fonte bem no centro do pomar. Escrevi:
Eu tambm penso em voc. No, no d para esperar nem mais um
pouco. Coloquei uma pedrinha em cima do papel.
         No assinei o meu nome nem escrevi o da
destinatria do recado, mas acrescentei um pequeno
desenho da minha cara. Embora o retrato estivesse longe
de se parecer comigo, tinha certeza de que, quando
encontrasse o bilhete, a garota das laranjas saberia de quem
era. Por certo no ia demorar a voltar. Era natural que
fosse dar uma olhada na correspondncia de vez em
quando.

          S uma hora depois de deixar o bilhete debaixo da
pedra e retornar  cidade foi que me ocorreu, para a minha
grande contrariedade, que talvez eu tivesse feito uma
tremenda besteira.
          Ela dissera: Voc tem de esperar meio ano. Se conseguir,
podemos nos rever. Eu perguntei por que devia esperar tanto. E
a garota das laranjas respondeu: Porque  exatamente esse o tem-
po que voc precisa esperar. Mas, se voc conseguir, nos seis meses
seguintes a gente vai se ver todo dia.
          Entendeu, Georg? Eu havia infringido o
regulamento. No agentara os seis meses de espera. E, por
esse motivo, ela j no tinha obrigao de cumprir a
promessa de se encontrar diariamente comigo nos seis
meses seguintes.
          O nosso acordo solene era faclimo de
compreender, mas terrivelmente difcil de cumprir.
Acontece que todos os contos de fada tm as suas regras, e
 graas a elas que um se distingue do outro. No h
necessidade de entender essas regras. H necessidade de
observ-las. Do contrrio, as promessas no se cumprem.
         Entendeu, Georg? Por que a Gata Borralheira foi
obrigada a sair do baile no palcio antes de meia-noite? Eu
no tinha a menor idia, e a Cinderela certamente tambm
no. Mas ningum pode fazer essas perguntas quando entra
no maravilhoso pas dos sonhos por meio do encanto e da
magia. Simplesmente deve aceitar as condies, por
absurdas que sejam. Para ficar com o prncipe, a Gata
Borralheira  obrigada a fugir do baile  meia-noite em
ponto. Nada mais simples, nada mais explcito.  preciso
observar as regras. Seno, l se vai o vestido de baile, e a
carruagem vira abbora. Portanto, ela faz o que pode para
estar em casa  meia-noite e consegue por um triz, s que,
no caminho, perde um sapatinho. Curiosamente,  justo
esse sapatinho que ajuda o prncipe a encontr-la no fim da
histria. E as irms malvadas pagam caro o fato de no
terem observado o regulamento.
         Mas nesse conto de fadas vigoravam outras regras.
Se eu visse a garota das laranjas trs vezes com um grande
saco de frutas nos braos, ela me pertenceria. Mas tinha de
v-la na noite de Natal e, mais do que isso talvez, tinha de
fit-la nos olhos no exato momento em que o dobrar dos
sinos anunciasse o Natal e, ao mesmo tempo, tinha de tocar
na fivela de prata mgica. No adianta perguntar por qu,
Georg, as regras eram essas. Se eu no passasse pela prova
derradeira e decisiva, que consistia em ficar seis meses
longe dela, todo o meu esforo teria sido em vo e tudo
estaria perdido.
         Voltei precipitadamente ao ptio das laranjeiras.
Mas o bilhete havia sumido, e era impossvel saber se ela o
encontrara. Afinal, qualquer turista noruegus podia t-lo
pegado.
         No momento em que pus os olhos na pedra sob a
qual havia deixado o bilhete -- como ficou dito, ele
desaparecera por completo --, ocorreu-me outra coisa.
Algo que me deu um pouco de esperana, por mais que eu
tivesse infringido as regras. O que voc acha, Georg: a
garota das laranjas havia escrito um carto-postal para mim
porque sabia o meu endereo. Ora, eu simplesmente lhe
deixara a devida resposta, mas, como no sabia o endereo
dela, tivera de bancar o mensageiro e levar o bilhete em
pessoa ao ptio das laranjeiras, de onde ela remetera o
carto.
         No era mais ou menos a mesma coisa? Ela
tambm no havia infringido o regulamento? O que voc
acha, Georg? Com toda certeza, sabe interpretar to bem
quanto eu as regras desse conto de fadas.
         Por outro lado,  verdade que ela me pedira para
esperar mais um pouco. Isso renovava o nosso pacto. E eu
tinha respondido que no podia aceitar as condies ou que
j no estava disposto a observar as regras.
         Ela escreveu: Eu penso em voc. D para esperar mais
um pouco?
         Mas, Georg: se a resposta sincera a esse pedido era
que eu no agentava esperar mais, o que fazer? Qual  a
sua opinio?
         No, eu no tinha como saber. Estava envolvido
demais. Naquele momento, s me restava dar um jeito de
encontr-la.
         Nunca havia estado em Sevilha ou mesmo na
Espanha. Mas no tardei a acompanhar o fluxo de turistas
at o antigo bairro judeu. Chamava-se Santa Cruz, e mais
parecia um enorme templo em homenagem  laranjeira.
Todas as praas e mercados eram cercados de ps de
laranja.
         Depois de vagar de uma praa a outra sem
encontrar a garota das laranjas, acabei me instalando num
caf, onde havia uma mesa vaga  sombra de uma frondosa
laranjeira. Tinha visitado todas as praas de Santa Cruz, e
sem dvida alguma aquela era a mais bonita. Chamava-se
Plaza de la Alianza.
         Fiquei ali e tive o seguinte pensamento: para quem
procura uma pessoa numa cidade grande, sem ter a menor
idia de onde ela est, vale a pena ficar vagando de um lugar
a outro ou  mais fcil encontr-la se a gente se plantar num
lugar bem central e l permanecer at que ela aparea por
conta prpria?
         Leia duas vezes essa frase antes de formar uma
opinio, Georg. A concluso a que cheguei foi a seguinte: o
bairro mais lindo de Sevilha era Santa Cruz; e a praa mais
linda desse bairro, a Plaza de la Alianza. Se a garota das
laranjas tambm pensasse assim, cedo ou tarde acabaria
aparecendo. Ns tnhamos nos encontrado em uma
lanchonete de Oslo. E tnhamos nos encontrado na
catedral. Se havia uma coisa que a garota das laranjas e eu
sabamos fazer muito bem, era encontrar-nos por acaso.
         Resolvi ficar l mesmo. Eram s trs da tarde, eu
podia passar pelo menos oito horas na Plaza de la Alianza.
No me pareceu uma espera to longa assim. Antes de
partir de Oslo, eu reservei um quarto em uma pequena
penso ali perto. Tinha de voltar para l at meia-noite,
quando trancavam a porta. (At as penses espanholas tm
regras que a gente precisa observar!) Se a garota das laranjas
no aparecesse at a meia-noite daquele primeiro dia, eu
pretendia passar todo o dia seguinte na tal praa, ficaria
esperando do amanhecer ao anoitecer.
         E esperei e esperei. Olhava para todos os que
entravam e saam da praa, espanhis e estrangeiros.
Cheguei  concluso de que o mundo era mesmo lindo.
Voltei a ter aquela sensao eufrica que abrangia tudo que
me rodeava. Pois quem somos ns que aqui vivemos? Cada
pessoa naquela praa era como uma arca de tesouro viva,
repleta de pensamentos e recordaes, de sonhos e
saudades. Eu ocupava o centro da minha prpria existncia
neste mundo, mas isso naturalmente valia para todos os
outros seres humanos que povoavam a praa. Para o
garom, por exemplo, cuja tarefa era servir quem l entrasse,
e, ao pedir a quarta xcara de caf, tive a impresso de que
ele achou que j fazia muito tempo que eu estava ocupando
aquela mesa, umas trs ou quatro horas. Mais de meia hora
depois, vendo a quarta xcara vazia, ele me perguntou com
toda a amabilidade se devia trazer a conta. Mas eu no
podia ir embora, estava aguardando a garota das laranjas, de
modo que achei melhor pedir uma poro grande de tapas e
um refrigerante. Nada de cerveja ou vinho enquanto a
garota das laranjas no chegar, pensei; a ento ns
tomaremos champanhe. Mas a garota das laranjas no
apareceu. Quando deram as sete horas, achei conveniente
pedir a conta. De repente, percebi o quanto tinha sido
ingnuo. Fazia muitos dias que eu encontrara o
carto-postal de Sevilha na caixa de cartas, e ele havia
demorado outros tantos para chegar.
         A garota das laranjas me pareceu to inalcanvel
quanto sempre fora. Obviamente, tinha coisa mais
importante para fazer do que brincar de esconde-esconde
comigo, talvez estivesse estudando espanhol em Madri ou
em Salamanca. Paguei a conta, agora eu podia ir embora.
Estava decepcionado com a minha insensatez e foi com um
n na garganta que decidi voltar  Noruega no dia seguinte.
        No sei se voc j provou essa horrvel sensao de
haver feito uma coisa em vo. Talvez tenha sado de casa,
debaixo de neve ou chuva, e ido  cidade a fim de comprar
uma coisa de que precisava com muita urgncia e tenha
dado com o nariz na porta da loja que fechou dois minutos
antes.  o tipo da coisa irritante, e o que mais irrita  a nossa
prpria burrice. Pois eu estava com a desagradvel
impresso de que tudo fora intil, e no era por ter ido de
bonde ao centro da cidade. Eu fizera uma viagem a Sevilha
sem ter nenhuma referncia alm de um carto-postal, no
conhecia ningum l, logo ia me enfiar numa pensozinha
ordinria e praticamente no sabia falar uma palavra em
espanhol. Fiquei com vontade de dar uma boa bofetada em
mim mesmo, se bem que isso seria to idiota que tornaria
tudo ainda mais lamentvel, mas resolvi me punir de outro
modo, mesmo porque no me faltavam possibilidades, eu
podia, por exemplo, me condenar a nunca mais ter
qualquer coisa a ver com a garota das laranjas, at o fim da
vida, acontecesse o que acontecesse.
        E eis que ela chega, Georg! Eram sete e meia, e de
repente l est ela na Plaza de la Alianza!
        Quatro horas e meia depois de eu ter me instalado
debaixo da laranjeira, a garota das laranjas entra
esvoaando na praa dos laranjais. Naturalmente sem o
velho anoraque, afinal o clima da Andaluzia  subtropical.
Estava com um vestidinho de vero de conto da
carochinha, mais vermelho do que as buganvlias que eu
vira no muro nos fundos. Talvez o tivesse pedido
emprestado  Bela Adormecida ou roubado de uma fada.
        Ainda no me viu. Est escurecendo na praa. Faz
calor, muito calor, porm mesmo assim eu sinto frio, tenho
arrepios.
         Mas ento, Georg -- no posso poup-lo disso --,
ento percebo que ela vem acompanhada de um rapaz, ele
deve ter uns vinte e cinco anos.  alto, bem-apessoado e
ostenta uma exuberante barba loura. Tem cara de
explorador do plo. E o que mais me incomoda  ele no
ser nada antiptico.
         Pois bem, eu perdi a parada. Mas a culpa  toda
minha. Infringi o regulamento. Quebrei uma promessa
solene. Interferi em algo que no me pertencia, em um
conto de fadas que no compartilhava comigo as suas
regras. "Voc tem de esperar meio ano", ela havia dito. "Se
conseguir, podemos nos rever..."
         Quando eles me avistam, eu certamente estou
mais parecido com o fogo que a Gata Borralheira tinha de
esfregar e limpar do que com o prncipe que a livrou da
opresso da madrasta e das irms postias. Digo quando eles
me avistam, pois, sei l por que, no  a garota das laranjas
quem primeiro olha para mim. Quem primeiro me nota  o
sujeito barbudo. (Voc consegue entender, Georg? Eu no
consegui.) Ele segura o brao da garota das laranjas, aponta
para mim e diz alto e bom som, de modo que todos os
presentes ouam:
         -- Jan Olav!
         Pelo sotaque, percebo que  dinamarqus. Eu
nunca o vi mais gordo.
         O que acontece agora  muito rpido, mesmo
assim  bom voc procurar imaginar como foi. A garota das
laranjas me v debaixo da laranjeira. Fica dois segundos
parada junto a uma grande fonte ornamental, no centro da
praa, olha fixamente para mim, como que paralisada, e
depois de um segundo parece j estar h uma ou duas horas
petrificada naquela posio, incapaz de se mexer. Mas ela se
mexe. A Bela Adormecida passou cem anos dormindo e
ento acordou, e foi como se no tivesse cochilado mais do
que meia hora. Ela vem correndo, enlaa-me o pescoo e
repete exatamente o que o dinamarqus acaba de dizer:
         -- Jan Olav!
         Ento  a vez do dinamarqus, Georg. Ele se
aproxima da mesa devagar, aperta a minha mo com muita
fora e diz de modo gentil:
         --  um prazer conhec-lo pessoalmente, Jan
Olav!
         A garota das laranjas j se sentou, e o dinamarqus
pousa a manzorra no ombro dela e diz:
         -- Bom, agora com licena!
         Com essas palavras, vai se afastando sem nos dar
as costas, recua, sai do caf, finalmente gira sobre os
calcanhares e retorna trotando para a praa de onde veio. E
desaparece. Sim, e ns ficamos livres dele. As boas fadas
esto mesmo do meu lado. Ela est sentada  minha frente.
Pe as mos nas minhas. Sorri com ternura, talvez um
pouco nervosa, mas assim mesmo com ternura.
         -- Voc no conseguiu -- diz. -- No conseguiu
me esperar.
         -- No -- reconheo. -- Porque o meu corao
comeou a sangrar de aflio.
         Eu a fito. Ela continua sorrindo. Procuro sorrir
tambm, mas no consigo.
         -- Quer dizer que eu perdi a aposta -- acrescento.
         Ela pensa um pouco antes de responder:
         -- Uma vez ou outra na vida, a gente precisa
suportar um pouco a saudade. Eu lhe escrevi. Queria lhe
dar a fora de que voc estava precisando para agentar
mais um pouco.
        Percebo um tremor nos meus ombros.
        -- Ento eu perdi -- repito.
        -- A verdade  que voc foi desobediente -- diz ela
com um sorriso incerto. -- Mas talvez nem tudo esteja
perdido.
        -- Como assim?
        --  como antes. A questo  saber quanta
pacincia voc tem.
        -- No estou entendendo nada.
        Ela aperta com carinho as minhas duas mos.
        -- O que voc no est entendendo, Jan Olav? --
limita-se a dizer, a sussurrar, a murmurar.
        -- As regras. Eu no entendo as regras.
        E foi assim que comeou a nossa longa conversa.

        Georg! No preciso contar tudo o que dissemos
aquela noite e aquela madrugada, mesmo porque no me
lembraria de tudo. Fora isso, sei que voc tem um monte de
perguntas para as quais quer resposta o mais depressa
possvel.
        Assim, uma das primeiras coisas para as quais eu
quis uma explicao foi como a garota das laranjas sabia o
endereo dos meus pais. O carto-postal de Sevilha era
recente. Dirigi a ela um olhar interrogativo, e ela me
perguntou com doura na voz:
        -- Jan Olav... voc no se lembra mesmo de mim?
        Eu a examinei. Tentei v-la como se aquele fosse o
nosso primeiro encontro. No me limitei a olhar para os
seus olhos escuros, no sondei unicamente aquele rosto to
expressivo. O meu olhar desceu at os seus ombros nus, ela
no se importou, e eu observei o seu leve vestido. Mas no
foi nada fcil lembrar-me dela em outro contexto que no
as raras vezes em que nos encontramos pouco antes do
Natal. Caso tivesse cruzado alguma outra vez na vida com a
garota das laranjas, eu simplesmente no conseguia
recordar, pois ali, quela mesa, a nica coisa em que eu
podia pensar era no quanto ela era linda, infinitamente linda.
Deus a criara, pensei. Ou quem sabe no teria sido
Pigmalio, aquele grego fabuloso que esculpiu no mrmore
a mulher ideal e suscitou a compaixo da deusa do amor,
que deu vida  esttua. No nosso ltimo encontro, a garota
das laranjas estava usando chapu e casaco de inverno.
Agora trajava uma roupa to vaporosa que eu cheguei a
ficar constrangido, com a sensao de estar perto demais
dela. E, mesmo assim, ou talvez justamente por isso, no
conseguia reconhec-la.
        -- No d para tentar se lembrar de mim? --
repetiu ela. -- Eu queria tanto que voc conseguisse.
        -- Pode me dar uma dica? -- pedi. Ela disse:
        -- O Humlevei, seu bobo.
        O Humlevei. Foi l que eu cresci. L que nasci.
Tinha passado a vida inteira no Humlevei. Fazia s seis
meses que estava morando em Adamstuen.
        -- Ou o Irisvei -- acrescentou ela.
        Era a mesma regio. O Irisvei comeava no
Humlevei.
        -- Klevervei talvez!
        Tambm ficava perto. Quando eu era pequeno,
vivia brincando no parque entre as casas de Klevervei. L
havia muitos arbustos e rvores. Acho que tambm havia
um tanque de areia e um balano. Mais tarde, construram
bancos.
        Tornei a encarar a garota das laranjas. E tive um
sobressalto, foi mais ou menos como acordar de uma
hipnose muito profunda. Eu apertei as mos dela. Faltou
pouco para que no me saltassem lgrimas.
        -- Veronika! -- exclamei ento.
        Ela abriu um sorriso luminoso. Mas ainda me
pergunto se, ao mesmo tempo, no enxugou uma lgrima.
        Eu a fitei nos olhos, mas o meu olhar no ficou
errando  toa. J no havia o que pudesse me conter, eu
estava livre de toda e qualquer inibio. De repente, tive
coragem de me mostrar sem reserva alguma. Ousei me
entregar por inteiro  garota das laranjas. E isso foi um
grande alvio para mim.
        Talvez no exista nenhuma intimidade equivalente
a dois olhares que se encontram com firmeza e
determinao, e alm disso eles simplesmente no querem
se separar.

        A menina de olhos castanhos morava em Irisvei.
Passamos juntos quase todos os dias desde que
aprendemos a andar ou pelo menos a falar. Entramos
juntos na escola mas, logo depois do Natal, Veronika e
sua famlia se mudaram para outra cidade, na poca ns
tnhamos sete anos. Portanto, tinha sido doze ou treze anos
antes. Mas, desde ento, nunca mais voltamos a nos ver.
        Sempre brincvamos no parque de Klevervei, entre
arbustos e flores, bancos e rvores. L levvamos a nossa
vida de esquilos -- sim, toda uma vida de esquilos. Se
Veronika no tivesse mudado, aquela infncia
despreocupada no tardaria a acabar. Eu j estava cansado
de ouvir dizerem, no ptio da escola, que eu gostava mais
de brincar com meninas.
         Lembrei-me de uma cano que ns dois ouvimos
na minha casa ou na dela e que sempre cantvamos quando
estvamos brincando: "H aqui um homenzinho que
brinque com mulherzinhas? Ento no fim os dois vo
brincar no seu pequeno reino encantado..."
         -- Mas voc no me reconheceu -- disse ela,
deixando claro que continuava desapontada com isso,
talvez meio zangada at. De repente, era uma garotinha de
sete anos que estava falando comigo, no uma mulher feita
de vinte.
         Eu no conseguia parar de olhar para ela. Achava o
seu vestido vermelho encantador e impressionante. Dava
para ver a respirao dela, pois o vestido subia e descia,
subia e descia, quase como as ondas do mar numa linda
praia, e a praia era o vestido.
         Ergui a vista. E o meu olhar parou numa
borboleta amarela entre as folhas de uma laranjeira. No
era a primeira que eu via aquele dia. Era uma entre muitas.
         Ento apontei para ela e disse:
         -- Como eu ia reconhecer uma lagarta que faz
tempo j se transformou em borboleta?
         -- Jan Olav! -- disse ela com severidade. E no se
disse mais nenhuma palavra sobre aquela metamorfose de
criana para mulher.

         Eu continuava com muitas perguntas sem
resposta. O meu encontro com a garota das laranjas me
levara  beira da loucura, pelo menos havia abalado a minha
existncia de cabo a rabo.
         -- Ns nos encontramos em Oslo. Nos vimos trs
vezes e, desde ento, eu praticamente no consigo pensar
em outra coisa. A voc sumiu, simplesmente desapareceu.
Era mais difcil reter voc do que caar uma borboleta. Mas
por que eu tinha de esperar seis meses para voltar a v-la?
         Ora essa, obviamente porque ela queria passar seis
meses em Sevilha. Isso eu j estava comeando a entender.
Mas por que fazia tanta questo de passar meio ano em
Sevilha? Ser que era por causa do tal dinamarqus?
         Voc certamente pode imaginar a resposta dela,
Georg. Eu no pude, mas voc sabe o que  importante
para Veronika. Enquanto escrevo esta longa carta, no
cesso de me perguntar se o quadro grande das laranjeiras
continua na parede do hall. Ela sempre diz que j superou
esse quadro --  o que est dizendo agora, enquanto
escrevo --, mas, pelo seu bem, espero que no o tenham
dado a ningum ou jogado no sto. Se foi esse o caso,
convm procur-lo.
         Ela disse:
         -- Eu estou numa escola de arte aqui, mais
exatamente numa escola de pintura. Queria muito fazer
esse curso, era to importante para mim!
         -- Escola de pintura? -- repeti. Eu estava atnito.
-- Mas por que voc no me contou na noite de Natal?
         Como ela demorasse a responder, eu disse:
         -- Lembra como estava nevando? Lembra que
acariciei o seu cabelo? Lembra que os sinos comearam a
tocar bem quando o txi chegou? E ento voc sumiu!
         Ela disse:
         -- Eu me lembro de tudo. Para mim,  como um
filme. Como as primeiras cenas de um filme... muito
romntico.
         -- Pois eu no entendo por que voc fez tanto
segredo -- declarei.
         Ela ficou sria por um instante. E disse:
        -- Acho que fiquei gostando de voc aquela vez no
bonde. Gostando de novo, pode-se dizer, mas agora  bem
diferente de antigamente. E ento ns nos reencontramos.
Mas eu acreditei que agentaramos passar seis meses
separados. Cheguei a achar que era necessrio. Quando
crianas, ns ramos to prximos! Mas agora j no somos
crianas. Agora talvez fosse bom sentirmos um pouco de
saudade um do outro. Quer dizer, para que no voltemos a
brincar juntos meramente por fora de um velho hbito.
Voc devia me descobrir outra vez. Por isso no quis
contar onde estava.
        J no lembro bem qual foi a minha resposta e
tambm no recordo tudo que a garota das laranjas disse,
porm, quanto mais a gente conversava, mais depressa
saltava de um episdio para outro, de um tema para outro.
        -- E o dinamarqus? -- perguntei quando a
ocasio permitiu. Tive a sensao de estar cobrando uma
coisa. Foi uma besteira. Eu me senti to ridculo.
        Ela respondeu com poucas palavras, quase
zangada. Disse:
        -- Ele se chama Mogens. Est fazendo o mesmo
curso. Tem muito talento. E foi bom encontrar outro
escandinavo aqui.
        Tudo comeou a girar na minha cabea. Eu
perguntei:
        -- Mas como ele sabe o meu nome?
        J me perguntei muitas vezes se ela no corou um
pouco nesse momento, mas no sei, talvez o vestido
vermelho no me deixasse ver bem, e, alm disso, j estava
escuro, s dois postes de ferro fundido projetavam uma luz
dourada na praa. Tnhamos pedido uma garrafa de vinho
tinto da Ribera del Duero e estvamos com os copos na
mo.
        Ela respondeu:
        -- Eu pintei o seu retrato. Foi de memria, mas
saiu muito parecido com voc. Mogens gosta dele.
Qualquer dia eu o mostro. Chama-se simplesmente Jan
Olav.
        Veronika  que tinha desenhado o prprio rosto no
carto-postal. Isso eu nem precisei perguntar. Mas ainda
havia uma coisa que me dava o que pensar. Eu disse:
        -- Ento o sujeito do Toyota branco no era
Mogens? Ela riu. E pareceu querer mudar de assunto.
Disse:
        -- Por acaso voc pensa que eu no o vi aquele dia
no Youngstorg? Estava l s por sua causa!
        Isso eu no entendi. Tive a impresso de que era
uma charada. Mas ela explicou:
        -- Primeiro ns nos encontramos no bonde.
Depois eu sa investigando pela cidade para saber qual era a
lanchonete que voc freqentava. Nunca tinha estado l,
mas um dia simplesmente entrei e me sentei  mesa depois
de comprar um livro com quadros do pintor espanhol
Velzquez. Fiquei folheando o livro e esperando.
        -- A mim?
        Eu sabia que era uma pergunta besta. Ela
respondeu quase com irritao:
        -- Por acaso voc acha que  o nico que procura?
Afinal, eu tambm fao parte dessa histria. No sou
apenas uma borboleta que voc tem de caar.
        No me atrevi a insistir nessas questes; por ora,
pareciam-me muito perigosas. Limitei-me a perguntar:
        -- Mas como foi essa histria do Youngstorg?
        -- No seja bobo, Jan Olav. Eu j expliquei. Onde
estar Jan Olav?, pensei. E onde ser que vai me procurar,
caso me procure, depois de ter me visto duas vezes com um
saco de laranjas? No tinha certeza, mas talvez voc me
procurasse no mercado municipal do centro da cidade. Eu
o procurei muitas vezes l. Mas tambm em outros lugares.
Estive no Klovervei e no Humlevei. Uma vez, cheguei a
visitar os seus pais.  verdade que me arrependi assim que
eles abriram a porta, mas j era tarde. Falei qualquer coisa
sobre casas de parentes e antigos campos de caa. E no
precisei dizer o meu nome. Coisa que voc devia anotar
bem. Eles me convidaram a entrar, mas eu disse que no
tinha tempo. E falei no curso em Sevilha.
         Eu no sabia se devia acreditar naquilo.
         -- Nenhum dos dois me disse uma palavra sobre
isso -- observei.
         Ela exibiu um sorriso enigmtico. Achei-a meio
parecida com a Mona Lisa, mas talvez fosse porque eu
agora sabia que ela estava matriculada numa escola de
pintura. Ela explicou:
         -- Eu pedi que no lhe contassem nada. At
precisei inventar uma desculpa para justificar isso.
         Eu emudeci. Poucos dias antes, tinha mostrado
aos meus pais o carto-postal que acabara de chegar de
Sevilha. Entrei na sala de supeto, dizendo que ia me casar.
S ento entendi por que eles no hesitaram em me
emprestar o dinheiro da passagem. No disseram uma
palavra para perguntar se era sensato viajar a Sevilha no
meio do semestre, s para visitar uma moa com quem
havia me encontrado trs vezes em Oslo.
         A garota das laranjas continuou falando:
         -- No  fcil encontrar uma pessoa numa cidade
grande, e muito menos cruzar o caminho dela quando a
gente quer. E s vezes  justamente isso que a gente quer.
Eu queria muito fazer este curso e no podia me
comprometer s vsperas da viagem. Mas quando duas
pessoas esto empenhadas em se procurar, no  nenhum
milagre elas acabarem se encontrando.
         Eu mudei de assunto. Quer dizer, mudei de
terreno.
         -- Voc j tinha ido ao culto de Natal na catedral?
-- perguntei.
         Ela sacudiu a cabea.
         -- No, nunca. E voc?
         Eu tambm sacudi a cabea. Ela disse:
         -- Na verdade, eu j havia estado l s duas horas.
Depois fiquei vagando nas redondezas,  espera do culto
seguinte. Afinal, era Natal e em breve eu sairia do pas.
         Acho que ficamos algum tempo calados. Mas eu
no queria perder o fio da meada. Perguntei:
         -- Ento o sujeito do Toyota no era Mogens?
         -- No.
         -- Quem era ento?
         Ela hesitou um pouco antes de responder.
         -- Ningum.
         -- Ningum?
         -- Era uma espcie de "ex". A gente estava na
mesma classe no ginsio.
         Eu devo ter sorrido. Mesmo assim, ela disse:
         --  impossvel controlar o passado do outro, Jan
Olav. A pergunta  se ns temos um futuro juntos.
         Ento eu disse uma coisa terrivelmente estpida,
talvez porque ousava acreditar que a garota das laranjas e eu
podamos ter um futuro juntos. Eu disse:
         -- To be two or not to be two, that is the question.
         Acho que ela tambm no achou isso muito genial.
Para escapar ao constrangimento, tornei a mudar de
assunto. E disse:
         -- Mas e as laranjas? Para que voc as queria? Sim,
o que pretendia fazer com aquele monte de laranjas?
         Ela riu alegremente. Depois disse:
         -- Sim, isso eu tenho certeza de que voc quer
saber. Foi com as laranjas que eu o atra ao Youngstorg. E,
por isso, voc me falou numa excurso aos gelos da
Groenlndia. Com trens puxados por cachorros e dez
quilos de laranjas.
         No vi nenhum motivo para contestar isso. Mas
voltei a perguntar:
         -- Para que voc queria tantas laranjas?
         Ento ela me fitou mais ou menos como aquela vez
na lanchonete em Oslo. E disse muito lentamente:
         -- Para pint-las.
         Para pint-las? Eu fiquei assombrado.
         -- Todas juntas?
         Ela fez que sim com elegncia. E disse:
         -- Precisava pintar muitas laranjas para fazer o
curso em Sevilha.
         -- Tantas assim?
         -- Eu teria de pintar muitas laranjas. Por isso
estava treinando.
         Eu sacudi a cabea, desnorteado. Ela queria me
fazer de bobo? Eu disse:
         -- No teria sido mais prtico comprar uma laranja
e pint-la vrias vezes?
         Ela inclinou a cabea para o lado e disse com
resignao:
         -- Pelo jeito, ns vamos ter muito o que conversar
nos prximos tempos, pois parece que voc  cego de um
olho.
        -- De qual?
        -- No existem duas laranjas iguais, Jan Olav.
Assim como no existem duas hastes de grama iguais. 
por isso que voc est aqui agora.
        Eu me senti um palhao. No conseguia entender
o que ela estava querendo dizer.
        -- Por que no existem duas laranjas iguais? Ela
disse:
        -- Voc no viajou at Sevilha para encontrar uma
mulher. Se veio, no precisava ter tido tanto trabalho,
mulher  o que no falta na Europa. Mas voc queria
encontrar a mim. E eu sou nica. Eu tambm no mandei o
carto-postal de Sevilha para um homem em Oslo. Mandei-o
para voc. Pedi que voc no me esquecesse. E que tivesse
um pouco de confiana em mim.
        Ainda ficamos muito tempo l depois que o caf
fechou. Quando finalmente nos levantamos, ela me puxou
para junto do tronco da laranjeira debaixo da qual tnhamos
ficado sentados, ou talvez tenha me empurrado para l, no
lembro mais. E ento disse:
        -- Pode me beijar, Jan Olav. Porque agora eu
finalmente o fisguei.
        Eu pousei a mo em suas costas e a beijei de leve
na boca. Ela disse:
        -- No, eu quero um beijo de verdade! E tambm
quero um abrao!
        Eu obedeci. Afinal, quem ditava as regras era a
garota das laranjas. Ela tinha gosto de baunilha. Seu
cabelo cheirava a limo fresco.
        Tive a clara impresso de que, l no alto da
laranjeira, dois esquilinhos corriam em crculos. No sei
bem do que brincavam, mas estavam completamente
absortos na brincadeira.

                            ***

        No vou escrever muito mais sobre essa noite,
Georg, talvez seja melhor poup-lo disso. Mas voc precisa
saber como ela acabou.
         bvio que eu no cheguei  penso antes da
meia-noite. A garota das laranjas tinha alugado um
quartinho com um nicho de cozinha na casa de uma velha
senhora. As paredes estavam repletas de aquarelas que
representavam flores de laranjeira ou ps de laranja. E no
canto estava o meu grande retrato a leo. Eu no disse nada
sobre esse quadro, ela tambm no. Seria chegar perto
demais da magia daquele conto de fadas. Nem tudo
precisava ser formulado em palavras. Era o que diziam as
regras. Mas eu achei que ela tinha me pintado com olhos
muito grandes e muito azuis. Parecia ter concentrado toda a
minha personalidade nos olhos.
        Fiquei at tarde da noite contando a Veronika
longas histrias cheias de detalhes engraados. Falei na filha
doente de um pastor, com duas irms, quatro irmos e um
labrador deprimido. Narrei a histria de uma dramtica
excurso de esqui  Groenlndia, com um tren puxado
por oito cachorros e dez quilos de laranjas. Disse tudo
acerca da mulher enrgica que exercia a funo de agente
secreta da inspeo de laranjas da ONU, e da sua solitria e
destemida luta contra um novo e perigosssimo vrus que
atacava as frutas. Discorri sobre tudo que sabia sobre a
moa do jardim-de-infncia que era obrigada a ir todo dia
ao mercado escolher, a duras penas, trinta e seis laranjas
absolutamente idnticas. Falei muito na garota que tinha de
preparar um pudim de laranja para cem estudantes de
administrao. Contei a biografia da moa de dezenove
anos que era casada com um desses estudantes e at j tinha
uma filha com ele -- por mais repulsivo que aquele homem
fosse para muita gente. E citei a mulher corajosa e abnegada
que contrabandeava medicamentos e vveres para as
crianas pobres da frica.
        A garota das laranjas respondeu com recordaes
da nossa infncia no Humlevei e no Irisvei. Eu tinha
esquecido quase tudo, mas,  medida que ela contava, voltei
a lembrar.
        Quando acordamos, o sol j estava alto. A garota
das laranjas foi a primeira a despertar, e eu nunca vou
esquecer como foi bom ser acordado por ela. J no sabia o
que era fantasia e o que era realidade, talvez essa fronteira
tivesse sido suprimida. S sabia que eu j no precisava
procurar a garota das laranjas. Eu a tinha encontrado.

         Eu tambm. Agora sabia quem era a garota das laranjas e
podia ter adivinhado muito antes que meu pai me contasse que ela se
chamava Veronika...
         Quando eu estava nesse ponto da leitura, mame tornou a
bater na porta. E disse:
         -- So dez e meia, Georg. Ns j pusemos a mesa. Ainda
falta muito?
         Eu disse solenemente:
         -- Querida garotinha das laranjas. Eu penso em voc. D
para esperar mais um pouco?
         No podia v-la com a porta fechada, mas cheguei a ouvir co-
mo ela emudeceu. Eu disse:
          -- Uma vez ou outra na vida, a gente precisa agentar um
pouco a saudade.
          Como no veio nenhuma resposta, acrescentei:
          -- H aqui um homenzinho...
          Do outro lado da porta o silncio continuava profundo. Mas
ento eu ouvi minha me se comprimindo na madeira. Ela cantou em
voz baixa junto ao batente:
          --... que brinque com mulherzinhas...
          Mas no conseguiu cantar at o fim, pois estava chorando.
Chorava e sussurrava.
          Eu tambm sussurrei:
          -- Ento no fim eles vo brincar no seu pequeno reino encan-
tado...
          Ela respirou fundo e perguntou, fungando:
          -- Ento ele escreveu... sobre isso?
          -- Escreveu -- respondi.
          Minha me no disse nada, mas eu vi pela fechadura que ela
ainda estava l fora.
          -- Eu j vou, mame -- cochichei. -- S faltam quinze
pginas.
          Ela continuou calada. Talvez no conseguisse dizer uma
palavra. Eu no sabia o que tinha se armado l fora por minha culpa.
          Pobre Jorgen, pensei. Pelo menos desta vez ele tem de se
conformar com o segundo lugar. Miriam estava dormindo. Agora
ramos meu pai, minha me e eu que estvamos conversando. Em
outros tempos ns ramos uma pequena famlia no Humlevei. E, alm
disso, na sala estavam os meus avs, que um dia construram esta casa.
Jorgen no passava de um visitante aqui.

          Pensei bem em tudo que tinha lido. Uma coisa importante
j estava clara. Meu pai no me considerava um panaca. No tinha
inventado nenhum conto de fadas sobre a garota das laranjas. Talvez
no tivesse me contado tudo. Mas tudo que me contara era a mais pura
verdade.
          No entanto, eu no conseguia me lembrar de ter visto um
quadro de laranjeiras no hall. No me lembrava de nenhum quadro
com laranjas. S tinha visto os muitos outros quadros pintados pela
mame. Tinha visto a aquarela dos lilases e das cerejeiras do nosso
quintal.
          Ainda havia muita coisa desse tipo, sobre a qual eu
precisava falar com ela. Ou era melhor ir dar uma olhada no sto.
Mas eu sempre soube que, quando era menina, mame morava no
Irisvei. Uma vez, estive naquela casa amarela para entregar uma carta
que haviam colocado errado na nossa caixa de correio.
          Talvez descobrisse mais coisas sobre os quadros das
laranjas se continuasse lendo. Mesmo porque havia outra pergunta
importante: o meu pai escreveria mais sobre o Hubble?
          Esse telescpio deve o nome ao astrnomo Edwin Povoei
Hubble, que provou que o universo se dilata. Primeiro ele descobriu que
a nebulosa Andrmeda no  apenas uma nuvem de poeira e gs na
nossa prpria galxia, e sim uma galxia independente, fora da Via
Lctea. O fato de a Via Lctea ser apenas uma de muitas galxias
derrubou a imagem que os astrnomos tinham do universo.
          Hubble fez a sua descoberta mais importante em 1929,
quando conseguiu constatar que quanto mais distante uma galxia
estiver da Via Lctea, mais depressa ela se desloca. Essa descoberta 
o prprio fundamento da teoria do Big Bang -- a teoria da exploso
original. Segundo essa teoria, que quase todos os astrnomos acatam
atualmente, o universo surgiu de uma violenta exploso h doze ou
catorze bilhes de anos. Isso foi h muito tempo, h muito tempo
mesmo.
          Se tudo que aconteceu no universo pudesse se condensar
num nico dia, a Terra s teria surgido no fim da tarde. Os
dinossauros apareceriam alguns minutos antes da meia-noite. E os
seres humanos existiriam h apenas dois segundos...

         Voc ainda est a, Georg? Voltei a me sentar diante
do computador depois de lev-lo ao jardim-de-infncia. 
segunda-feira.
         Hoje voc estava meio manhoso. Fui buscar o
termmetro, mas voc no tinha febre. Tambm lhe
examinei a garganta e os ouvidos e apalpei os gnglios
linfticos, mas no achei nada. Acho que s est um pouco
resfriado e talvez ainda cansado do fim de semana.
         Quase desejei que voc estivesse doente mesmo,
ainda que s um pouco, para passar o dia todo aqui em casa
comigo. Mas tambm preciso terminar este texto.
         No fim de semana, ns dois estivemos em
Fjellstolen. Sbado bem cedinho, a mame saiu com um
velho balde de ordenhar e s muito mais tarde voltou com
quatro quilos de amoras silvestres. E voc ficou zangado,
Georg. Queria porque queria ir colher amoras na montanha
e,  tarde, pde colher empetros sozinho. E a mame foi
obrigada a preparar gelia de empetro. Ns a comemos no
domingo. Acho que estava um pouco azeda para o seu
gosto, mas  claro que voc fez questo de com-la, afinal
tinha colhido as frutinhas.
         Neste vero ns tambm vimos muitos lemingues,
e voc desenhou um, com lpis de cor amarelo e preto, no
caderno da casa de campo. Ficou bonito, e com um pouco
de boa vontade a gente consegue enxergar um lemingue no
desenho. A nica coisa  que voc ps nele um rabo
comprido demais. Por via das dvidas, mame escreveu
"Lemingue" embaixo do desenho. E acrescentou: "Georg,
1/9/1990".
         Ser que ainda existe o caderno da casa de campo?
Existe, Georg?
        Passei boa parte da noite lendo o caderno da casa
de campo de ponta a ponta. Voc j estava dormindo. Fiz
isso vrias vezes. Mal acabava de ler o ltimo registro -- e
de ver mais uma vez o seu desenho --, tornava a comear
da primeira pgina. Parto do princpio de que, antes do
Natal, no podemos voltar  casa de campo.
        No fim, Veronika apareceu e me tomou o caderno.
Guardou-o no alto da estante de livros, embora
normalmente ele fique na escarpa da lareira.
        -- Agora vamos tomar um vinho -- limitou-se a
dizer.

         Mas voltemos  Espanha.
         Fiquei dois dias com Veronika em Sevilha. Depois
fui obrigado a voltar para a Noruega, coisa que tanto
Veronika como a dona da casa acharam uma tima idia.
Eu tinha de agentar quase trs meses esperando, at que o
curso dela terminasse. Mas aprendera a suportar a saudade.
Aprendera a confiar na garota das laranjas.
          claro que tive de perguntar se a antiga promessa
continuava valendo, e se era mesmo verdade que ns amos
ficar todos os dias juntos nos seis meses seguintes. Eu j
no tinha tanta certeza, afinal violara as regras. Ela pensou
muito antes de responder. Creio que estava procurando
uma resposta profunda. Depois sorriu e disse:
         -- Talvez eu tenha de descontar os dois dias que
voc passou aqui.
         Quando ela me acompanhou at o nibus do
aeroporto, ns demos com uma pomba branca morta na
sarjeta. Veronika estremeceu e parou. Eu achei estranho
que aquilo a perturbasse tanto. Ento ela se virou para mim,
mergulhou a cabea no meu peito e chorou. E at eu chorei.
Ns ramos to jovens. Estvamos em pleno conto de
fadas. No podia aparecer uma pomba morta na sarjeta.
Muito menos uma pomba branca. Era o que diziam as
regras. Ns dois choramos. A pomba branca era um mau
pressgio.

                           ***

         De volta a Oslo, eu me concentrei nos estudos.
Tinha muita coisa que recuperar, pois na semana anterior
perdera vrias aulas importantes, fora aquelas que matara
indo esquiar ou vagando pela cidade. Dali por diante,
aproveitei bem o tempo, j no precisava percorrer Oslo
inteira  procura da garota das laranjas. Tampouco
precisava me dar ao trabalho de andar atrs de namorada. A
maioria dos meus colegas perdia muito tempo com isso.
         Mesmo assim, eu no deixava de ter um
sobressalto toda vez que dava com um casaco preto de
mulher -- ou com um vestido vermelho quando o tempo
comeou a esquentar. Sempre que via uma laranja, pensava
em Veronika. Quando ia fazer compras, ficava perdido em
pensamentos na seo de frutas. Agora via perfeitamente
que, de fato, no existiam duas laranjas iguais. Podia
observ-las com fria serenidade. E quando ia comprar
laranjas, sempre escolhia as mais bonitas, por mais que isso
demorasse. De vez em quando fazia suco e, uma vez,
preparei um pudim de laranja e o servi de noite a Gunnar e
a outros amigos que tinham vindo jogar bridge.
         Gunnar estava no terceiro semestre do curso de
administrao pblica e, no fundo, era o cozinheiro l em
casa. S fazia bifes ou bacalhau. Embora nunca exigisse
retribuio, achei legal surpreend-lo com um pudim de
laranja. E o preparei com carinho. A minha me, ou seja, a
sua av, havia me ajudado a encontrar uma receita num
livro antigo. At se ofereceu para fazer o pudim para mim.
No sabia, coitada, que o importante era eu mesmo faz-lo.
Duvido que tivesse a mais vaga idia de que aquele projeto
tinha a ver com Veronika.
         E ento ela voltou  Noruega, Georg. Chegou de
Sevilha em julho. Eu fui busc-la no aeroporto. Muita gente
presenciou o nosso reencontro quando ela passou pela
alfndega com duas malonas e uma pasta enorme, cheia de
quadros e desenhos. Primeiro, ficamos meio minuto
parados, entreolhando-nos, talvez para provar que
tnhamos fora de carter para esperar mais alguns
segundos. Mas logo nos derretemos num abrao trrido,
extraordinariamente trrido, isso eu devo reconhecer,
mesmo num aeroporto. Uma velhota que passou por ns
no nos perdoou e rosnou: "Isso  uma vergonha!". Ns
rimos. No tnhamos por que sentir vergonha. Quanto
tempo havamos esperado!
         Ainda no setor de desembarque, Veronika fez
questo de parar, abrir a pasta e me mostrar os seus
trabalhos. Folheou rapidamente os desenhos, passando
inclusive pelo retrato de "Jan Olav", que eu vi de relance,
registrando uma vez mais a radiante luz azul dos meus
olhos no quadro. No pude dizer nada sobre ele, mas
Veronika fez muitos comentrios entusiasmados sobre os
outros. Falava sem parar, parecia uma cachoeira. No
procurou esconder o quanto se orgulhava das pinturas que
estava me mostrando. No dissimulou que tinha aprendido
muito naqueles seis meses.
         Passamos o resto do vero esvoejando em todos
os rumos. Estivemos nas ilhas de Oslofjord, viajamos para
o Norte, visitamos museus e exposies de arte e, nas
noites intensas do fim do vero, amos passear nas ruas
elegantes de Tasen.
         Voc precisava ver! Precisava ver como ela ficava
nas exposies de arte! Precisava ouvi-la rir! E eu tambm
ria, caa na gargalhada. No sei se existe coisa mais
contagiosa do que o riso.
         Passamos a usar cada vez com mais freqncia o
pronome "ns".  uma palavra estranha. "Amanh eu vou
fazer isso ou aquilo", a gente diz normalmente. Ou
pergunta a outra pessoa, a "voc" por exemplo, o que vai
fazer. Isso no  difcil de entender. Mas de repente "ns"
passa a ser a coisa mais bvia do mundo. "Ns vamos de
balsa a Langoyene para nadar?" -- "Ou vamos ficar lendo
em casa?" -- "Ns gostamos da pea de teatro?" -- E
ento, um dia: "Ns somos felizes".
         Ao empregar o pronome "ns", a gente estabelece
uma conexo entre duas pessoas com uma ao comum e
quase faz com que elas se transformem em uma s. Muitas
lnguas tm um pronome especial para se referir a apenas
duas pessoas. Esse pronome se chama dual, e designa as
coisas que vo aos pares. Eu acho isso importante, pois s
vezes a gente no  nem uma pessoa nem muitas. A gente 
"ns dois", e o  como se esse "ns dois" fosse inseparvel.
So fabulosas as regras que passam a vigorar quando esse
pronome  subitamente introduzido, quase como por um
passe de mgica: "Agora ns vamos cozinhar". -- "Agora
vamos abrir uma garrafa de vinho." -- "Agora vamos
dormir." No chega a ser absurdo falar assim? Em todo
caso,  completamente diferente de dizer "Agora voc
precisa tomar o nibus e ir para casa, eu estou cansado".
        Quando a gente usa o dual, do qual a palavra
"ambos"  um vestgio, passam a vigorar regras totalmente
novas. "Ns vamos passear!" Nada mais simples, Georg,
somente trs palavras, e no entanto elas descrevem uma
seqncia de atos que interferem profundamente na vida de
duas pessoas na Terra. E no  s em termos de quantidade
de palavras que se pode falar em economia de energia.
"Vamos tomar banho", disse Veronika. "Vamos comer."
-- "Vamos dormir!" Quando a gente fala assim, precisa s
de um chuveiro. Precisa s de uma cozinha, s de uma
cama.
        Para mim, foi um choque esse novo uso da
linguagem. "Ns" -- era como se um ciclo tivesse se
encerrado. O mundo inteiro parecia ter se dissolvido em
uma unidade superior.
        A juventude, Georg, a frivolidade juvenil!
        Mas eu tambm me lembro de uma noite
encalorada de agosto em que estvamos sentados em
Bygdoy, olhando para o fiorde. Sei l como me ocorreu essa
idia, mas de repente disse:
        -- Esta  a nica vez em que estamos neste mundo.
        -- Ns estamos aqui agora -- disse Veronika,
como que querendo me lembrar.
        Mas me pareceu que ela se esquivou daquilo que
eu estava tentando dizer, por isso acrescentei:
        -- Penso em noites como esta em que j no me
ser dado viver...
        Sabia que Veronika conhecia esse verso de Olaf
Bull. Tnhamos lido o poema juntos.
        Ela se virou e pegou o lbulo da minha orelha com
dois dedos. E disse:
        -- Mas mesmo assim, voc esteve aqui. Sorte sua!

                           ***

         No outono, Veronika entrou na academia de arte,
e eu continuei estudando medicina. Depois dos cursos
introdutrios, comecei a achar tudo cada vez mais
interessante.  tarde e  noite, ficvamos juntos com a
mxima freqncia possvel, em todo caso dvamos um
jeito de nos encontrar todo santo dia. Quer dizer, a garota
das laranjas suprimiu de fato aqueles dois dias que eu havia
roubado e os guardou para si. Acho que s queria me
provocar com isso, mas talvez tambm quisesse fixar um
exemplo. Ainda precisvamos observar as regras, pois o
conto de fadas no tinha terminado, estava apenas
comeando. Ao nosso redor continuavam surgindo contos
de fadas e, por isso, tambm novas regras a serem acatadas.
Lembra do que eu disse sobre essas regras? So coisas
importantes que a gente pode ou no pode fazer, mas no
precisa necessariamente entender. No precisa sequer falar
nelas.
         Em Oslo, Veronika tambm alugou um quarto
com nicho de cozinha na casa de uma senhora. No
precisava pagar aluguel, bastava cortar a grama do jardim
no vero, limpar a neve duas vezes por semana no inverno,
ir fazer compras para a proprietria (entre outras coisas,
uma garrafa de vinho do Porto). Mas vez por outra a
velhota, que se chamava sra. Mowinckel, consentia que eu
me encarregasse desses servios. Isso era bom, pois para ela
ficava mais fcil tolerar que eu s vezes pernoitasse no
quartinho de Veronika. Afinal, de certo modo j tinha
pagado o aluguel.
         Na noite de Natal, fomos novamente ao culto da
catedral, uma dvida que achvamos que tnhamos um com
o outro. Veronika usou o mesmo casaco preto e a mesma
lendria fivela de prata no cabelo. Agora eu pertencia
quele conto de fadas, quela mstica insondvel. Fizemos
questo de nos sentar no mesmo banco, e eu no precisei
me preocupar com o olhar dos homens na igreja. Podiam
olhar para Veronika  vontade, e alguns o fizeram. Eu
estava orgulhoso. E Veronika, radiante, feliz.  claro que eu
tambm estava feliz. E talvez ela tambm estivesse um
pouco orgulhosa.
         Depois do culto, fomos pelo mesmo caminho do
ano anterior. Era o que havamos combinado. J tnhamos
certo senso de tradio. Quase sem dizer nada, fomos
juntos ao Parque do Castelo. Embora no tivssemos
combinado de ficar to calados, isso aconteceu
espontaneamente.
         Paramos e nos abraamos no mesmo lugar em que
ela tomara o txi um ano antes, pois tambm nesse ano era
ali que os nossos caminhos se separavam. Veronika ia se
encontrar com o pai na casa de uma tia velha em Skillebekk
e, de l, os dois iriam a Asker, onde os pais dela moravam.
Naquele ano, eu tambm queria passar o Natal com os
meus pais e o meu irmo Einar no Humlevei.
         Foi a mesma cena do ano anterior. Queramos nos
separar no Wergelandsvei quando surgisse o primeiro txi,
que Veronika tomaria. Mas o que aconteceria quando o
carro chegasse? Seria o fim do conto de fadas? O encanto
se quebraria de repente? Ns no havamos falado sobre
isso. Nos seis meses anteriores, tnhamos nos visto
diariamente, com exceo dos dois dias de castigo. A garota
das laranjas cumprira a sua promessa solene. Mas que
regras vigorariam no ano seguinte?
         Aquele ano estava mais frio do que o anterior, e
Veronika tiritava. Eu a abracei e esfreguei-lhe as costas.
Depois contei que, no comeo do ano, Gunnar ia se mudar
do nosso pequeno apartamento. Tinha conseguido uma
vaga em Bergen. Ento eu disse que precisava procurar
uma pessoa com quem dividir o aluguel.
         Fui covarde, Georg. Coisa que ela obviamente
tambm achou. Quase ficou violenta. Gunnar ia se mudar?
E eu estava atrs de algum para dividir o aluguel? E pensei
em tudo isso sem falar com ela? Veronika ficou furiosa.
Temi que acabssemos brigados naquela noite de Natal.
Mas no fim ela disse:
         -- Ento eu posso mudar para l. Quer dizer, ento
ns podemos morar juntos. No podemos, Jan Olav?
          claro que no era outra coisa que eu desejava.
Mas, sendo mais covarde do que ela, tinha medo de
infringir as regras.
         Veronika ficou mais radiante que uma laranjeira da
Plaza de la Alianza quando ns combinamos que, no
comeo de janeiro, ela se mudaria para Adamstuen.
Portanto, no ano seguinte, ns no s ficaramos todo dia
juntos como juntos passaramos as noites. Eram as novas
regras.
         De sbito um ar de preocupao lhe ensombreou o
rosto, talvez uma espcie de dvida, imaginei, talvez ela
tivesse restries. Ou havia alguma coisa que no tinha
coragem de dizer?
         -- O que foi, Veronika? -- sussurrei. Agora eu a
conhecia. Ela disse:
         -- Quer dizer que o quarto de Gunnar vai ficar
vago? Eu fiz que sim, porm sem entender por que ela
insistia em falar nisso. J tinha dito que Gunnar ia se mudar.
Veronika disse:
         -- Mas ns no vamos dormir em quartos
separados.
         --  claro que no -- sorri eu, mas ainda sem
compreender o significado de tudo aquilo.
         Ela j no estava pensativa. Disse francamente o
que pensava.
         -- Ento eu posso usar o quarto de Gunnar como
ateli. -- Olhou de relance para mim a fim de testar a
minha reao. Eu rocei a mo na fivela de prata em sua
nuca, e disse que teria muito orgulho em morar com uma
artista.
         Menos de dois minutos depois, passou um txi.
Ela estendeu o brao para que ele parasse. Entrou, e dessa
vez voltou-se para mim e acenou alegremente com as duas
mos. E imaginar que tinha passado s um ano!
         No precisei procurar um sapatinho perdido
quando o txi arrancou. Naquele conto de fadas no havia
mais restries. Ns j no dependamos das regras
incompreensveis de uma fada mesquinha que decidia o que
era proibido e o que era permitido. Agora a sorte nos
pertencia.

       Mas o que  um ser humano, Georg? Quanto vale
um ser humano? Ser que ns somos apenas poeira que
qualquer ventania levanta e espalha?
       Enquanto escrevo estas linhas, o telescpio
Hubble continua na rbita da Terra. Agora faz mais de
quatro meses que est l fora e, desde o fim de maio,
enviou-nos muitas fotografias valiosas do universo, ou seja,
desse gigantesco territrio desconhecido do qual
basicamente ns todos procedemos. Mas no tardou para
que detectassem um grave defeito no telescpio. Agora
andam falando em mandar uma nave espacial para l, com
uma tripulao capaz de corrigir o defeito para que o nosso
conhecimento do espao sideral aumente ainda mais.
         Voc sabe o que aconteceu com o Hubble? Ser
que chegou a ser reparado?
         s vezes eu penso que esse telescpio  o olho do
universo. Afinal, um olho que consegue ver o universo
inteiro at que merece esse nome. Entende o que eu quero
dizer? O prprio universo criou esse instrumento
inimaginvel. O telescpio Hubble  um rgo do sentido
csmico.
         Que grandiosa aventura  esta que vivemos, e que
s vivemos durante um breve momento? Quem sabe um
dia o telescpio espacial nos ajudar a compreender essa
aventura. L fora, atrs das galxias, talvez esteja a resposta
para a pergunta "o que  o ser humano".
         Acho que j usei muito a palavra "enigma" nesta
carta. Tentar compreender o universo talvez seja mais ou
menos como montar um gigantesco quebra-cabea. Se bem
que talvez se trate igualmente de um enigma mental ou
espiritual, e pode ser que a soluo desse enigma se
encontre em ns mesmos. Pois ns  que estamos aqui.
Ns  que somos esse universo, ns.
         Pode ser que a nossa criao ainda no esteja
completa.  natural que o desenvolvimento fsico do
homem preceda o psquico. E talvez a natureza fsica desse
universo seja uma coisa apenas exterior, um material
necessrio ao autoconhecimento do cosmo.
         Tenho uma idia maluqussima: um dia Newton
chegou, inesperadamente,  concluso de que havia uma lei
da gravidade vigorando em toda parte. timo. No menos
repentinamente, Darwin constatou que este planeta tinha
passado por um desenvolvimento biolgico.  claro que
isso tambm  timo. Depois Einstein descobriu a relao
entre massa, energia e a velocidade da luz. Fantstico! E, em
1953, Crick e Watson mostraram como se constitua a
molcula de DNA, isto , o cdigo gentico dos vegetais e
dos animais. Maravilhoso! Mas tambm  concebvel que,
um dia -- e que dia no h de ser esse, Georg! --, um dia
uma alma perspicaz, num momento nico de lucidez,
venha a decifrar o enigma do universo. Imagino que isso
pode acontecer de uma hora para a outra! (Nesse dia, eu
queria mesmo era ser o sujeito encarregado de escrever as
manchetes de um grande jornal.)
        Lembra que eu iniciei esta carta dizendo que
queria lhe fazer uma pergunta? Pois a resposta que voc
vai dar  importantssima para mim. Mas ainda preciso
terminar o meu relato.

          O telescpio Hubble! L estava ele outra vez. Agora eu tinha
certeza de que a pergunta importantssima que meu pai ia me fazer
tinha a ver com o espao sideral.
          Sa da cama e fui olhar pela janela. Ainda nevava
intensamente. Mas isso no tinha a menor importncia, pensei. Porque,
mesmo quando o cu est totalmente encoberto aqui na Terra, o Hubble
continua enviando imagens cristalinas de galxias que esto a muitos
bilhes de anos-luz da nossa Via Lctea. E ele trabalha vinte e quatro
horas por dia. J nos mandou centenas de milhares de fotografias e
examinou mais de dez mil corpos celestes. Diariamente, o Hubble nos
fornece informao suficiente para encher todo um computador.
          Mas por que o meu pai tornou a falar no telescpio
espacial? Eu no conseguia entender o que ele tinha a ver com a garota
das laranjas. Porm isso j no era to importante. Importante era que
o meu pai sabia do telescpio Hubble. Tinha percebido o quanto era
importante para a humanidade. Isso ele conseguiu, embora j estivesse
doente para morrer. Deve ter sido uma das ltimas coisas de que se
ocupou.
          O olho do universo! Eu nunca tinha encarado o Hubble
desse modo. Pensava nele como uma janela da humanidade aberta
para o cosmo. Mas no era nenhum exagero chamar o telescpio
espacial de "olho do universo".
          Cerca de cento e cinqenta anos atrs, todo o alvoroo
causado pelo primeiro trecho de estrada de ferro da Noruega, entre
Christiania e Eidsvoll, foi um pouco exagerado. No nosso pas mora
um milsimo da populao do mundo e, no trecho entre Christiania e
Eidsvoll, em 1850 vivia talvez um dcimo disso. Com o telescpio
Hubble, todos os seres humanos do mundo podem viajar pelo universo
inteiro. Seis meses antes da morte do meu pai, coloc-lo em rbita custou
2,2 bilhes de dlares. Pelas minhas contas, d mais ou menos quatro
coroas para cada habitante da Terra, o que  baratssimo para singrar
o universo de ponta a ponta. A ttulo de comparao: na poca, uma
passagem de ida e volta de Oslo a Eidsvoll custava cerca de duzentas
coroas. No  propriamente barata, e quem concordar comigo pode ir
reclamar com a Sociedade Ferroviria Norueguesa. (Eu no tenho
inteno de falar mal da estrada de ferro da Noruega nem da antiga
maria-fumaa entre Christiania e Eidsvoll. Mas insisto que o
telescpio Hubble  mais importante para a humanidade e talvez at
mesmo para os camponeses de Romerike. Como j disse, no  exagero
chamar o telescpio Hubble de olho do universo. Essa tambm era a
opinio do meu pai, muito embora ele no tenha chegado a saber que
esse olho ganhou um culo!)
          "O telescpio Hubble  um rgo do sentido csmico",
escreveu. Acho que sei o que ele quis dizer com isso. Talvez a gente
possa afirmar que colocar o Hubble na rbita da Terra foi um pequeno
passo para a humanidade, pois em 1990 j existiam telescpios
potentes e uma nave espacial. Mas foi um grande salto para o universo!
Porque  do universo que se trata quando os homens tentam encontrar
uma resposta para a questo do que vem a ser, afinal, o espao sideral.
Nem mais, nem menos! O universo demorou cerca de 15 bi-
lhes de anos para mandar instalar uma coisa to
importante, um olho com o qual pudesse enxergar a si
mesmo! (Eu demorei uma hora para formular essa frase, por isso
resolvi real-la.)
          Nesse mato tem coelho, pensei. Continuei lendo depressa e
no tardei a presenciar o meu prprio nascimento. Nada mais especial
do que isso. Nem todos os bebs nascem num coquetel!
          Mas conte voc, papai. No queria interromp-lo. Voc
perguntou sobre o telescpio Hubble, e ento eu respondi.

         Vou ser mais breve daqui por diante, preciso ser,
pois no me resta muito tempo. Amanh, tenho um
compromisso importante. Por isso  a mame que vai
lev-lo ao jardim-de-infncia.
         Moramos quatro anos no pequeno apartamento
de Adamstuen. Veronika concluiu os estudos na academia
de arte, continuou pintando, como voc sabe, e acabou
virando professora de pintura: dava aula de "forma e cor"
num colgio. Mdico recm-formado, eu estava para
comear o meu perodo de residncia, quer dizer, ia passar
dois anos trabalhando em um hospital.
         Obviamente, voc sabe que os seus dois avs
nasceram em Tonsberg. Justamente nessa poca, eles
estavam prestes a realizar o antigo sonho de se aposentar e
voltar a morar l. Um dia, contaram que haviam comprado
uma casinha romntica em Nordbyen. Nesse meio-tempo
o meu irmo, ou seja, o tio Einar, j tinha ido para o mar,
creio que uma desiluso amorosa o levou a isso. E foi assim
que Veronika e eu acabamos mudando para o casaro do
Humlevei. Precisamos fazer um emprstimo bem elevado,
mas sabamos que agora tnhamos renda.
         O nosso primeiro ano no Humlevei foi dedicado 
jardinagem. Naturalmente, conservamos as duas macieiras,
a pereira e a cerejeira, bastou pod-las e adub-las. Tambm
mantivemos os velhos framboeseiros, no conseguimos
nos separar da uva-espim, da groselheira nem do ruibarbo.
Mas plantamos lilases, azalias e hortnsias. Tudo isso foi
deciso de Veronika. Afinal, eu j tinha passado a vida
inteira naquele quintal. Agora ele era dela. Nos dias de calor,
ela levava o cavalete para l e ficava pintando o que brotava
e desabrochava ao seu redor.
         Uma vez, quando a gente estava colhendo
framboesas, um abelho saiu de repente de uma folha de
trevo e fugiu voando desajeitadamente. Ocorreu-me que o
abelho era bem mais rpido que um jumbo, isto , na
proporo do seu peso. O jumbo voa a uma velocidade de
oitocentos quilmetros por hora, ou seja, oitenta vezes
mais depressa do que um abelho. Mas oitenta vezes vinte
gramas no passa de 1,6 quilo. Veronika e eu sabamos que
um Boeing 747 pesava muito mais. Em comparao com o
peso do seu corpo, um abelho chega a uma velocidade
vrios milhares de vezes superior  do Jumbo. E um Boeing
747 tem quatro motores a jato. Coisa que o abelho no
tem. Ele no passa de um aviozinho a hlice. Ns achamos
graa. Rimos do fato de um abelho conseguir voar to
depressa e de morarmos no Humlevei, ou seja, "a via do
abelho".
         Na poca, Veronika aguou o meu olho para as
pequenas sutilezas da natureza, e elas eram infinitas. A
gente era capaz de colher uma anmona ou uma violeta e
passar vrios minutos observando o pequeno milagre. O
mundo no era um conto de fadas extraordinrio e nico?
         Hoje, quer dizer, agora que estou escrevendo, fico
triste ao pensar no vo do abelho nos breves segundos
daquela tarde em que fomos colher framboesas no quintal.
Estvamos to animados, Georg, to soltos e
despreocupados. S espero que voc tambm tenha
herdado uma sensibilidade aberta para esses pequenos
mistrios. Eles no so menos fascinantes do que as estrelas
e galxias do cu. Acho que  preciso ser mais inteligente
para criar um abelho do que para produzir um buraco
negro.
         Para mim, este sempre foi um mundo mgico, j
era assim na minha mais remota infncia, muito tempo
antes de eu sair percorrendo as ruas de Oslo atrs de uma
garota das laranjas.  difcil descrever este sentimento com
palavras simples, mas imagine o mundo antes que tivesse
comeado toda essa conversa sobre as leis da natureza, a
teoria da evoluo, os tomos, as molculas de DNA, a
bioqumica e os neurnios -- sim, quando o globo
comeou a girar, quando ele se degradou a um "planeta" no
espao e antes que o altivo corpo humano se
desmembrasse em corao, pulmes, rins, fgado, crebro,
circulao sangnea, msculos, estmago e intestinos.
Estou falando no tempo em que o ser humano era um ser
humano, ou seja, nada mais e nada menos do que um
ntegro e soberbo ser humano. Naquele tempo, o mundo era
uma aventura fascinante.
         De repente uma rena sai apressada de um bosque
e o encara durante um segundo -- e ento desaparece.
Que alma pe esse animal em movimento? Que fora
insondvel decora o mundo com flores de todas as cores
do arco-ris e enfeita o cu noturno com uma riqussima
mirade de estrelas cintilantes?
         A gente encontra um sentimento da natureza to
franco e direto na literatura popular, por exemplo, nos
contos dos irmos Grimm. Leia-os, Georg. Leia as sagas
islandesas, leia os mitos gregos e escandinavos, leia o
Antigo Testamento.
         Olhe para o mundo, Georg, olhe para o mundo
antes de mergulhar na fsica e na qumica.
         Neste momento, grandes rebanhos de renas esto
percorrendo o Hardangervidda na ventania. Na ilha de
Camargue, entre os dois braos do delta do Rhne, pululam
milhares de flamingos rubros como o fogo. Belas manadas
de gazelas saltam como que por encanto nas savanas da
frica. Milhares e milhares de pingins pairam uns com os
outros numa praia gelada da Antrtida, e no sentem frio,
gostam das temperaturas de l. Mas no s a quantidade 
importante. Um alce solitrio perambula num bosque de
pinheiros no Leste da Noruega. No ano passado, um deles
se perdeu e veio parar aqui no Humlevei. Um lemingue
assustado se esgueira entre as tbuas de uma cabana de
Fjellstolen. Uma foca rechonchuda desliza numa ilhota
prxima de Tonsberg e cai na gua.
         No me venha dizer que a natureza no  um
milagre. No diga que o mundo no  um conto de fadas.
Quem no percebeu isso, talvez s chegue a
compreend-lo quando a histria j estiver chegando ao
fim. Porque, ento, ns temos uma derradeira possibilidade
de tirar os antolhos, uma derradeira oportunidade de nos
entregarmos a este milagre do qual temos de nos despedir,
o qual temos de deixar.
         Ser que voc entende o que estou tentando
exprimir, Georg? Ningum se despede chorando da
geometria euclidiana nem da tabela peridica dos tomos.
Ningum derrama uma lgrima que seja por estar se
separando da internet ou da tabuada.  de um mundo que
nos despedimos,  da vida,  do conto de fadas e da
aventura. E, alm disso, temos de nos despedir de um
pequeno nmero de pessoas que realmente amamos.
         Eu bem que gostaria de ter vivido antes da
inveno da tabuada e, principalmente, antes da fsica e da
qumica modernas, antes que ns tivssemos, por assim
dizer, entendido tudo -- ou seja, no MUNDO PURAMENTE
MGICO! Mas  exatamente assim que eu vivo a vida neste
momento em que estou diante do computador e lhe
escrevo estas linhas. Eu prprio sou cientista e por certo
no hei de ter esprito anticientfico, mas mesmo assim
nunca abri mo da minha viso de mundo mtica e um
pouco animista. Nunca deixei que Newton ou Darwin me
roubassem o verdadeiro mistrio da vida. (Se no entender
uma palavra ou outra, procure no dicionrio. Na sala de
visitas h um dicionrio atual. Pelo menos agora, enquanto
escrevo, mas no sei se voc o considerar to atual assim.)
         Vou lhe contar um segredo: antes de estudar
medicina, eu tinha duas alternativas para o futuro. Queria
ou ser poeta, quer dizer, uma pessoa que celebra com
palavras o mundo encantado em que vivemos -- mas
acho que j falei nisso --, ou ser mdico, isto , uma pessoa
a servio da vida. Por segurana, resolvi primeiro ser
mdico.
         Para ser poeta no d mais tempo. Mesmo assim,
consegui escrever esta carta.
         Ir do consultrio para casa e encontrar uma garota
das laranjas que ficava pintando flores de cerejeira em seu
prprio jardim era a realizao nica e grandiosa de todos
os meus sonhos. Uma vez, fiquei to contente ao v-la no
jardim que a peguei no colo e a levei para o quarto. Ela riu,
ah, como ela riu! Ento eu a pus na cama e a seduzi. No
fico constrangido em lhe falar tambm nesse aspecto da
nossa felicidade comum. Por que ficaria?  o fio condutor
desta histria.
         Quando ns mudamos para esta casa depois de
alguns meses de reforma, a primeira deciso que tomamos
foi a de nada fazer para evitar filhos. Isso ns decidimos na
primeira noite em que dormimos aqui. E foi a partir dessa
noite que comeamos a fazer voc.
         E, Georg, fazia um ano e meio que morvamos no
Humlevei quando voc nasceu. Eu fiquei orgulhoso na
primeira vez em que o peguei no colo. Voc era menino. Se
fosse menina, seu nome teria de ser Ranveig. Era assim
que se chamava a filhinha daquela garota das laranjas que
j era me de uma menina.
         Depois do parto, Veronika ficou plida e exausta,
mas felicssima. Mais felizes do que ns, era impossvel
ficar. Estava comeando um captulo completamente novo,
com regras completamente novas.
         Vou contar mais um segredo. No hospital
trabalhava um colega meu, mdico tambm. Ele serviu
uma taa de champanhe para a parturiente e o pai de
primeira viagem na prpria sala de parto. Isso era
terminantemente proibido. Mas a janela que dava para o
corredor tinha uma pequena cortina, de modo que bastou
fech-la para que ns trs pudssemos erguer um brinde 
vida na Terra que voc estava inaugurando. Voc no
ganhou champanhe,  claro, mas logo depois Veronika lhe
deu de mamar e, em todo caso, ela havia tomado um
golinho.

        Mas em Sevilha, na ocasio em que a garota das
laranjas me acompanhou at o nibus do aeroporto, ns
vimos uma pomba morta na sarjeta. Foi um mau agouro.
Talvez por que eu no tinha observado todas as regras
daquele conto de fadas.
        Lembra que ns passamos a Semana Santa na casa
de campo? Voc estava com quase trs anos e meio. Mas
com certeza esqueceu tudo. No curso de medicina a gente
tambm tem aulas de psicologia. Eu sei que as pessoas
guardam pouqussimas lembranas do perodo anterior ao
quarto ano de vida.
        Recordo que ns fomos para fora, sentamo-nos na
frente da casa e dividimos uma laranja, e Veronika gravou
isso em vdeo, quase como se tivesse adivinhado que
alguma coisa estava se aproximando do fim. Por que voc
no pergunta se ela ainda tem a fita, Georg? Talvez doa
procur-la, mas pergunte mesmo assim.
        Depois da Pscoa, eu percebi que estava
gravemente enfermo. Veronika no queria acreditar, mas
eu sabia. Era bom em interpretar sinais. Era bom em
diagnstico.
        Fui a um colega, alis, o mesmo que serviu o
champanhe na maternidade. Primeiro ele pediu alguns
exames de sangue, depois a tal tomografia
computadorizada, que  uma espcie de radiografia, e
concordou comigo. Os dois chegamos  mesma concluso.
        Ento comeou um dia-a-dia bem diferente. Para
Veronika e para mim, foi uma catstrofe, e enquanto fosse
possvel a gente precisava poupar voc dessa catstrofe.
Uma vez mais, estabeleceram-se novas regras. Palavras
como "saudade" e "pacincia" adquiriram um novo
significado. J no podamos nos prometer passar todos os
dias juntos no ano seguinte. De uma hora para outra,
ficamos to nus e to pobres. O camarada pronome "ns"
ficou com uma rachadura ameaadora. J no podamos
exigir nada do outro, j no podamos compartilhar as
expectativas do futuro.

        Se tiver lido isto, voc sabe um pouco da histria
da minha vida. Sabe quem sou eu. E imaginar isso me faz
bem.
        De certo modo, voc me conhece mais do que
muitas outras pessoas que me conhecem, ainda que desde
pouco antes do seu quarto aniversrio ns dois nunca mais
tenhamos conversado cara a cara. Na verdade, nem sempre
eu me comuniquei com os outros com tanta franqueza
quanto com voc nesta carta. E decerto agora voc entende
como foi difcil para mim ter de aceitar as novas regras. Eu
sabia o que provavelmente me esperava e tive de ir me
habituando, pouco a pouco,  idia de que deixaria voc e a
garota das laranjas.
        Mas preciso lhe fazer uma pergunta, Georg. No
agento esperar mais. Antes, porm, deixe-me contar o que
aconteceu aqui no Humlevei h algumas semanas.
        Veronika passa as manhs no colgio, ensinando
os meninos a pintar laranjas. J disse que ela no pode ficar
o dia todo comigo aqui em casa. Pois no caf-da-manh,
prefiro ficar sozinho com voc. Depois o levo ao
jardim-de-infncia e, ento, tenho algumas horas para mim,
durante as quais fico aqui, diante do computador,
escrevendo esta longa carta para voc. Geralmente tenho
de andar aos pulos, feito uma cegonha, para no chutar o
seu trenzinho. Voc notaria na hora se um dos vages
estivesse no lugar errado!
        Se s vezes eu durmo um pouco a estas horas do
dia, no  por estar passando mal, e sim porque no consigo
dormir  noite, pois os pensamentos que ento me
assediam acabam com o meu sossego. Justo quando estou
quase pegando no sono, comeo a olhar para o fundo
desses tristes enigmas, para esse grande e cruel conto de
fadas, no qual no h fadas boas, s terrveis pressgios,
espritos malignos e duendes perversos. De modo que 
melhor renunciar ao sono durante a noite e deixar para
cochilar no sof em plena luz do dia.
        No acho to difcil assim ficar acordado quando
sei que vocs esto em casa, voc e Veronika, quando sei
que os dois esto dormindo. Mesmo porque sei que basta
acordar Veronika, eu o fao ocasionalmente, e ento ela
fica comigo. Aconteceu algumas vezes de passarmos a
noite toda acordados. No conversamos muito.
Simplesmente ficamos juntos. Fizemos ch. Comemos um
sanduche. Agora  assim, Georg. So as novas regras.
        Podemos passar horas sentados, apenas de mos
dadas. s vezes eu olho para a mo dela,  to delicada e
bonita, ento olho para a minha, talvez para um dedo,
talvez s para uma unha. "Durante quanto tempo eu ainda
vou ter esse dedo?", pergunto nessas ocasies. Ou ento
levo a mo dela  boca e a beijo.
        Tenho pensado que essa mo que eu agora seguro,
vou segur-la at o fim, talvez num leito de hospital, talvez
muitas horas seguidas, at que no fim tenha de desistir de
tudo e tudo largar. A gente decidiu que  assim que vai ser,
ela me prometeu.  bom pensar nisso. E 
indescritivelmente triste pensar nisso. Quando eu largar
este universo, vou largar uma mo clida e viva, a da garota
das laranjas.
         Imagine, Georg, se do outro lado tambm existisse
uma mo que a gente pudesse segurar! Mas eu no acredito
que exista um outro lado. Disso eu quase tenho certeza.
Tudo quanto existe  apenas passageiro, tudo chega ao fim.
Mas, geralmente, a ltima coisa que a gente segura  uma
mo.
         Eu escrevi que o riso  uma das coisas mais
contagiosas que conheo. Mas a tristeza tambm contagia.
O medo  diferente. Ele no contagia to fcil quanto a
alegria e a tristeza, e  bom que seja assim. Com o medo,
ns todos estamos quase sozinhos.
         Eu tenho medo, Georg. Medo de ser expulso
deste mundo. Medo das noites como esta, em que j no
me ser dado viver.

        Mas uma noite voc acordou, era isso que eu queria
contar. Eu estava no jardim-de-inverno e, de repente, voc
saiu do quarto e veio para a sala. Esfregou os olhos e olhou
 sua volta. Normalmente teria subido direto ao nosso
quarto, mas dessa vez ficou na sala de visitas, talvez porque
a luz estava acesa. Eu fui para l e peguei voc no colo.
Voc disse que no estava conseguindo dormir. Pode ser
que tenha dito isso por ter ouvido, algumas vezes, a mame
e eu conversando quando o papai no conseguia dormir.
        Reconheo que me alegrei muito com isso, com o
fato de voc ter acordado e ter vindo ficar com o papai
quando ele estava precisando tanto. Por isso no tentei
fazer voc dormir novamente.
        Queria tanto conversar sobre tudo, mas sabia que
no era possvel, voc era muito pequeno para isso. Mesmo
assim, era grande o suficiente para me consolar. Se voc
conseguisse ficar acordado, queria passar algumas horas na
sua companhia aquela noite, na qual talvez no precisasse
acordar Veronika. Podia deix-la dormir.
        Eu sabia que a noite l fora estava magnificamente
estrelada, dava para ver do jardim-de-inverno. Estvamos
quase no fim de agosto, e talvez voc nunca tivesse visto o
cu estrelado, pelo menos no no semestre do vero que
estava chegando ao fim, e no ano anterior voc ainda era
muito pequeno. Eu o agasalhei com um pulver bem
quente, uma cala de l, vesti o bluso, e fomos para a
varanda, voc e eu. Tinha apagado a luz da casa e tambm
apaguei a de fora.
        Primeiro lhe mostrei a Lua, que era uma foice
finssima. Estava no leste, nas profundezas do cu. Tinha a
forma da curvatura de um "C" invertido, de modo que era
o quarto crescente. Eu lhe expliquei isso.
        Voc estava no meu colo, absorvendo toda a
segurana que o cercava. E eu bebi da segurana que voc
irradiava. Ento mostrei todas as estrelas e planetas do
firmamento. Tive tanta vontade de lhe contar tudo, de falar
na grande aventura na qual ns tambm tomamos parte,
desse gigantesco quebra-cabea, do qual voc e eu ramos
duas partculas minsculas. Esse conto de fadas tambm
tem leis e regras que ns no conseguamos entender,
diante das quais, querendo ou no, tnhamos de nos curvar.
        Sabia que talvez muito em breve teria de deix-lo,
mas eu no podia dizer isso. Sabia que, presumivelmente,
estava prestes a me afastar da grandiosa aventura que
estvamos contemplando naquele momento, mas eu no
podia revelar isso. Por isso comecei a lhe falar nas estrelas,
primeiro de um modo que voc pudesse compreender, mas
depois me entusiasmei e me pus a discorrer sobre o espao
e o cosmo como se estivesse conversando com um filho
adulto.
          E voc me deixou falar, Georg. Achou bom
ouvir-me, ainda que sem dar com o significado de todos os
enigmas que eu mencionava. Talvez tenha entendido as
minhas palavras bem mais do que eu imaginava. Pelo
menos, no me interrompeu e tambm no dormiu. Parecia
ter compreendido que no podia me deixar na mo naquela
noite. Quem sabe sentiu que no era eu que estava
cuidando de voc, e sim voc de mim. Naquela noite voc
pajeou o seu pai.
          Expliquei que era noite porque a Terra havia
girado em seu eixo e ficara de costas para o Sol. S
quando este est nascendo ou se pondo  que a gente v
que o globo terrestre gira, contei. Talvez voc tenha
entendido isso, j que de vez em quando cantvamos uma
cano de ninar que comeava com o verso O Sol fechou os
olhos, eu tambm vou fechar os meus... Lembra dessa msica?
          Apontei para Vnus e disse que aquela estrela era
um planeta que, tal como a Terra, girava em torno do Sol.
Naquela estao do ano, podamos ver Vnus no fundo do
cu oriental porque o Sol o iluminava exatamente como a
Terra. Ento lhe contei um segredo. Contei que pensava
em Veronika sempre que olhava para aquele planeta, pois
Vnus era a deusa do amor.
          Mas quase todos os pontos luminosos que vamos
no cu eram estrelas mesmo, expliquei ento, que tinham
luz prpria, como o Sol, porque cada estrelinha do cu era
um sol ardente. Sabe o que voc disse? "Mas as estrelas no
queimam a gente como o Sol", foi isso que voc disse.
        O vero tinha sido maravilhoso, Georg, por isso
precisvamos passar protetor solar em todo o seu corpo.
Eu o apertei no meu abrao e sussurrei: " porque elas
ficam incrivelmente longe daqui".

       Enquanto escrevo, voc est de quatro no cho,
montando um novo trenzinho.
       Este  o cotidiano, penso eu. Esta  a realidade.
Mas a porta de sada da realidade j est escancarada para
mim.
       Aqui h tanta coisa que a gente tem de abandonar!
Tanta coisa que a gente deixa para trs!
       H pouco tempo, voc perguntou o que eu tanto
escrevo no computador. Respondi que estou escrevendo
uma carta para o meu melhor amigo.
       Talvez tenha lhe parecido esquisita a tristeza na
minha voz quando eu afirmei que estava escrevendo para
o meu melhor amigo. E voc disse:
       -- E para a mame? Devo ter sacudido a cabea.
       -- A mame  o meu amor -- disse eu. -- Isso 
coisa muito diferente.
       -- E eu, quem sou? -- voc quis saber.
       Com isso, acabei caindo na sua armadilha. Mas
simplesmente coloquei voc no colo, na frente do
computador, abracei-o e disse que voc era o meu melhor
amigo, o melhor de todos.
       Por sorte, voc no me fez mais nenhuma pergunta.
No podia acreditar que a carta se endereava a voc. E eu
mesmo achei esquisito imagin-lo lendo-a um dia.
       O tempo, Georg, o que  o tempo?
        Continuei falando -- embora soubesse que voc j
no conseguia entender aquilo tudo.
        O cosmo  muito velho, eu disse, talvez tenha 15
bilhes de anos. E, apesar disso, ningum conseguiu
descobrir como ele surgiu. Ns vivemos dentro de um
grande conto de fadas, do qual ningum faz realmente idia.
A gente dana e brinca e bate papo e ri num mundo cujo
surgimento ningum pode entender. Essa dana e esse
brinquedo so a msica da vida, eu disse. A gente os
encontra em todos os lugares em que h seres humanos,
assim como em todo telefone h o sinal de linha.
        Ento voc inclinou a cabea para trs e olhou para
mim. Entendeu pelo menos a parte do sinal de discar no
telefone. Voc adora tirar o fone do gancho s para ouvi-lo.
        Logo depois, Georg, eu lhe fiz uma pergunta, alis,
a mesma que quero fazer agora que voc finalmente pode
compreend-la. Foi por causa dessa pergunta que lhe contei
a longa histria da garota das laranjas.
        Eu disse: "Imagine que, h muitos bilhes de anos,
no momento em que tudo foi criado, voc estivesse no
umbral desse conto de fadas. E tivesse a opo de nascer
neste planeta se quisesse. No saberia quando ia viver nem
quanto tempo passaria aqui, mas, fosse como fosse, seria
apenas questo de alguns anos. S saberia que, se decidisse
um dia nascer neste mundo, quando chegasse a hora ou,
como se diz, quando `o ciclo se completasse', teria de
deix-lo e a tudo quanto nele existe. Talvez isso o
contrariasse bastante, pois muita gente acha a vida neste
grande conto de fadas to maravilhosa que chega a ficar
com lgrimas nos olhos s de pensar que isso vai acabar.
Tudo aqui pode ser to bom que di pensar que um dia no
haver outros dias".
         Voc ficou caladssimo no meu colo. E eu disse: "O
que voc escolheria, Georg, se um poder superior lhe desse
a possibilidade de escolher? A gente pode imaginar, quem
sabe, uma fada csmica nesta grande e enigmtica aventura.
Voc teria optado por uma vida nesta Terra, breve ou longa,
dentro de cem mil ou cem milhes de anos?".
         Eu devo ter respirado fundo duas vezes antes de
continuar falando, ento prossegui com voz firme: "Ou
teria se recusado a participar deste jogo por no poder
aceitar as regras?".
         Voc continuou em silncio no meu colo. Eu
queria muito saber no que estava pensando. Voc era um
milagre vivo. Achei que o seu cabelo louro como o trigo
cheirava a tangerina. Um anjo de carne e osso, cheio de
vida.
         Voc no tinha adormecido. Mas no disse nada.
         Estou certo de que ouviu as minhas palavras,
inclusive  possvel que tenha prestado muita ateno. Mas
eu no tinha a menor idia do que se passava dentro de
voc. Ns estvamos to perto um do outro. E, mesmo
assim, de repente ficamos terrivelmente distantes.
         Eu o abracei com mais fora, talvez voc tenha
pensado que era para aquec-lo. Mas eu o tra, Georg,
porque comecei a chorar. Isso eu no queria, e tratei de me
recompor o mais depressa possvel. Mas no consegui
conter as lgrimas.

        Nas ltimas semanas, eu me fiz essa pergunta vrias
vezes. Teria optado por uma vida na Terra se soubesse que
um dia seria arrancado to subitamente daqui, talvez no
momento mais feliz da minha existncia? Ou ser que teria
agradecido e rejeitado de pronto esse jogo absurdo do "d e
toma"? Porque a gente vem uma nica vez a este mundo. 
entregue a essa grande aventura. E ento chega um ratinho
e o conto de fadas se acaba.
        No, juro que no sei qual seria a minha escolha.
Acredito que teria repelido essas condies. Talvez
respondesse com um delicado "no"  oferta de participar
dessa grande aventura se fosse apenas em uma visita breve,
e talvez o meu "no" nem fosse to delicado assim. Pode
ser que gritasse que no queria ouvir mais nenhuma palavra
sobre esse maldito dilema. Foi o que imaginei; no momento
em que estava na varanda, com voc no colo, tive plena
certeza de que recusaria totalmente a oferta.
        Se eu tivesse optado por no meter o nariz nesta
grande aventura, nunca saberia o que estava perdendo.
Voc entende o que quero dizer? Para ns, seres humanos,
s vezes  muito pior perder uma coisa que amamos do que
nunca ter tido essa coisa. Pense bem: se a garota das laranjas
no houvesse cumprido a promessa de passar seis meses se
encontrando comigo todos os dias quando voltasse da
Espanha, para mim seria melhor nunca t-la conhecido.
Tambm  assim nos outros contos de fada. Voc acha que
a Gata Borralheira teria voltado ao palcio com o prncipe
se lhe dissessem que s poderia passar uma semana l? O
que voc acha que ela sentiria se tivesse de retornar  sua
vida de outrora, ao fogo e as cinzas,  madrasta malvada e
s irms invejosas?
        Agora  a sua vez de responder, Georg, agora voc
tem a palavra. Pois foi quando ns dois estvamos
contemplando o firmamento, na varanda, que eu tomei a
deciso de lhe escrever esta longa carta. Alis, foi
justamente no momento em que chorei. E no chorei s
por saber que talvez muito em breve me separaria de voc e
da garota das laranjas. Chorei porque voc era to pequeno.
Chorei porque ns dois no podamos conversar de
verdade.
        Vou perguntar mais uma vez. Qual seria a sua
deciso se voc tivesse a possibilidade de escolher? Optaria
por uma vida breve aqui na Terra, para depois de poucos
anos separar-se de tudo e nunca mais voltar? Ou diria "no,
obrigado"?
        Voc s tem essas alternativas.  a regra. Se optar
pela vida, tambm est optando pela morte.
        Mas, olhe: prometa que vai refletir muito antes de
responder.

         Talvez eu tenha ido longe demais. Talvez esteja
fazendo voc sofrer. E talvez no tenha esse direito. Mas
para mim  importantssimo saber que resposta voc daria 
minha pergunta, porque eu sou diretamente responsvel
pelo fato de voc estar aqui. Voc no estaria no mundo se
eu tivesse me recusado a ele.
         Estou com uma espcie de sentimento de culpa por
haver contribudo para pr voc neste mundo. De certo
modo, eu lhe dei a vida, junto com a garota das laranjas, 
claro. Mas, por outro lado, tambm somos ns que um dia
tornaremos a tom-la. Dar a vida a uma criancinha no
significa apenas lhe dar o mundo de presente. Tambm
significa um dia tomar dela esse presente inconcebvel.
         Tenho de ser franco com voc, Georg. Pois digo
que rejeitaria delicadamente a oferta de uma rpida viagem
 grande aventura. Assim me parece. E se essa tambm for
a sua opinio, fico com remorso ao pensar na besteira que
fiz.
         Eu me deixei seduzir pela garota das laranjas,
deixei-me atrair pelo amor, achei irresistvel a idia de ter
um filho. "Onde foi que errei?", pergunto. Para mim, essa
pergunta significa um conflito brutal de conscincia. E ela
traz consigo a necessidade de deixar um pouco de ordem
atrs de mim.
        Mas, Georg, agora pode surgir um novo dilema, e
um dilema que talvez no seja to difcil -- ou maligno --
quanto o primeiro. Se voc responder que, apesar de tudo,
teria optado pela vida, ainda que fosse por um momento
brevssimo, eu no posso desejar nunca ter nascido.
        Desse modo a equao ainda pode dar certo, desse
modo pode ser que se estabelea um equilbrio. E essa,
naturalmente,  a minha esperana. Sim, por isso escrevo.
        Voc no pode responder diretamente a minha
grande pergunta. Mas indiretamente pode. Pode responder
pelo modo como quer viver essa vida que comeou quando
Veronika, eu e um mdico meio irresponsvel brindamos
com champanhe  sua chegada. Esse mdico do
champanhe era a sua fada protetora, tenho certeza disso.

        Agora voc pode deixar de lado esta minha
saudao. Agora  a sua vez de viver.
        Amanh eu vou ao hospital.  o meu compromisso
importante. E depois a mame vai lev-lo ao
jardim-de-infncia.
        Tambm preciso escrever isto. E devo acrescentar
uma coisa: no posso prometer que volto ao Humlevei.

        Georg! Uma ltima pergunta ainda: posso mesmo
ter certeza de que no h outra existncia depois desta?
Posso ficar convencido de que no estarei em algum lugar
quando voc ler esta carta? No, certeza absoluta eu no
posso ter. Pois, se o mundo existe, todos os limites da
improbabilidade j foram ultrapassados. Entende o que eu
quero dizer? J estou to assombrado com o fato de existir
um mundo, que no tenho lugar para mais assombro se
constatar que existe outro depois dele.
         Lembro que, h dois dias, ns passamos algumas
horas s voltas com um jogo de computador. Talvez esse
jogo tenha sido especialmente bom para mim, eu estava
precisando muito de algo que me distrasse dos tantos
pensamentos que me perseguiam. Mas sempre que a gente
"morria" nesse jogo, aparecia um novo cenrio onde
recomear. Quem garante que no h um novo "cenrio"
para a alma? Eu no acredito, palavra que no. Mas o sonho
do improvvel tem nome. Chama-se "esperana".

           DAQUELA NOITE NA VARANDA EU ME
LEMBRO! Ficou gravada na minha medula. Est tatuada no meu
corao. E, enquanto lia o que o meu pai escreveu sobre ela, senti vrias
vezes um frio na espinha. At agora estava praticamente esquecida,
pelo menos nunca mais teria pensado naquela noite estrelada se no
tivesse lido a carta, mas agora a lembrana ficou clara at demais,
TALVEZ ESTA SEJA
          A NICA RECORDAO GENUNA QUE
GUARDO DO MEU PAI.
          Das nossas visitas  casa de campo eu no consigo me
lembrar. E, por mais que me esforce, no recordo os nossos passeios ao
Sognsvann. Mas daquela noite encantada, l fora na varanda, eu me
lembro. Quer dizer: na minha recordao ela  completamente diferente.
Parece um conto de fadas ou um sonho colorido.
          Eu tinha acordado. Ento papai veio da varanda, entrou e
me ergueu no ar. Disse que ns amos voar l fora. Que amos ver as
estrelas. Voar no espao. Por isso ele precisava me agasalhar bem, pois
fazia muito frio no espao sideral. O papai queria me mostrar as
estrelas no cu. Tinha de faz-lo. Era a nossa nica chance e pre-
cisvamos aproveit-la.
          E eu sabia que papai estava doente! Mas ele no sabia que
eu sabia. Mame tinha me contado o segredo. Disse que talvez o papai
precisasse ficar no hospital, por isso estava triste. Creio que lembro que
ela me disse isso naquela tarde. Acho que foi por esse motivo que eu
acordei, acho que era por esse motivo que no conseguia dormir.
          Agora me lembro claramente da longa viagem espacial com
o meu pai, l fora na varanda. Acredito que tinha compreendido que
ele talvez nos deixasse. Mas antes queria me mostrar uma coisa.
          E ento -- agora, enquanto escrevo, sinto calafrios na
espinha -- quando a gente estava viajando no espao sideral, papai
comeou a chorar de repente. Eu sabia por que ele estava chorando, mas
ele no sabia que eu sabia. For isso no pude dizer nada. Fui obrigado
a ficar calado. O que ia acontecer era perigoso demais, no dava para
falar.
          Mas isso no  tudo: desde aquela noite, sei tambm que no
se pode confiar nas estrelas do cu. Pelo menos, elas no nos salvam de
nada. Um dia, teremos de abandonar tambm as estrelas do cu.
          Quando papai e eu estvamos viajando pelo espao sideral e
ele comeou a chorar, eu compreendi que no se pode confiar em nada no
mundo.

          Depois de ler os ltimos pargrafos da carta, finalmente
compreendi por que sempre me interessei pelo espao sideral. Meu pai
abriu os meus olhos para ele. Ensinou-me a desviar a vista de tudo
quanto nos incomoda aqui embaixo e olhar para o alto. Eu j era um
pequeno astrnomo amador bem antes de ter conscincia disso.
          Portanto, j no tenho por que me admirar com o fato de meu
pai e eu nos havermos interessado pelo telescpio Hubble. Foi ele que me
transmitiu esse interessei Eu simplesmente prossegui a partir do ponto
em que ele parou. Foi uma espcie de herana. E no ter sido sempre
assim? Os primeiros preparativos do Hubble j se fizeram na Idade da
Pedra. No, nada disso, os primeiros preparativos se iniciaram alguns
microssegundos aps a exploso original em que foram criados o tempo
e o espao.
          Existe uma expresso: plantar uma semente. E isso o meu
pai conseguiu fazer antes de morrer. At certo ponto,  a ele que devo o
tema do meu grande trabalho para o colgio. Duvido que o meu pai
tivesse muito interesse pelo futebol ingls. E, por sorte, nunca escutou as
Spice Girls. E que relao ele tinha com Roald Dahl eu no sei.

          Terminada a leitura, eu estava pensando um pouco quando
a minha me tornou a bater na porta.
          -- Georg?
          Eu contei que havia terminado a leitura.
          -- Ento por que voc no vem ficar com a gente?
          Pedi que ela entrasse no quarto. E fui abrir a porta. Por
sorte, ela entrou e a fechou imediatamente. No senti vergonha de
estar com lgrimas nos olhos. Mame tambm ficou com lgrimas nos
olhos no seu primeiro encontro com o meu pai. Pois eu acabava de ter
um encontro com ele.
          Enlacei o pescoo da garota das laranjas e disse:
          -- Papai nos deixou.
          Mame me abraou com fora. Ela estava chorando.
Sentou-se na beira da cama e ficou muito tempo calada. Depois
perguntou o que ele havia escrito.
          -- Voc deve imaginar como eu estou curiosa -- disse. -- E,
no sei por qu, tambm estou com um pouco de medo. Tenho at medo
de ler essa carta.
          Eu disse que meu pai havia escrito uma nica e longa carta
de amor, e mame imaginou que naturalmente era uma carta de amor
para mim. Precisei lhe contar com muita cautela. Expliquei que meu
pai havia escrito uma carta de amor para ela, a garota das laranjas.
           E acrescentei:
           -- Eu era o melhor amigo do papai. Mas voc era o amor dele.
 muito diferente.
           Ela ficou muito tempo calada. Era to jovem ainda. Depois
de ter lido o longo relato sobre a garota das laranjas, pude ver como ela
era linda. E, de fato, tinha certa semelhana com um esquilo. Mas,
sobretudo, parecia um velho filhote de passarinho. Eu vi o seu bico
tremer.
           Perguntei:
           -- Quem era o meu pai?
           Ela se encolheu. No sabia ao certo o que eu tinha passado
tantas horas lendo. E disse:
           -- Jan Olav,  claro.
           -- Mas quem era ele? Quer dizer, como ele era? --Ah...
           Pouco a pouco, apareceu um sorriso de Mona Lisa nas
comissuras de seus lbios. Ela me endereou um olhar quase
enigmtico. E me ocorreu uma coisa que meu pai mencionara muitas
vezes. Vi o quanto ela era concentrada. Vi os seus olhos castanhos
errarem no quarto ou executarem um bailado inquieto.
           Ela disse:
           -- Ele era infinitamente meigo... uma pessoa rara de fato. E
era um grande sonhador, talvez um contador de histrias... vivia
descrevendo a vida como um conto de fadas, e eu estou convencida de que
tinha um... um sentimento quase mgico da vida. Fora isso, era um
romntico sem limites... mas isso ns dois ramos. Ento ele adoeceu de
uma hora para a outra, e eu no posso esconder que ele enfrentou a
morte com uma tristeza enorme. Foi muito doloroso presenciar isso,
muito doloroso. Ele gostava muito de mim... e  claro que de voc
tambm... sim, voc era um deus para ele. E no queria nos perder.
Mas no tinha como se defender da doena, e a doena o levou de ns
com muita brutalidade. Ele nunca conseguiu aceitar o prprio destino,
era impossvel, nem mesmo no fim. Por isso deixou um vazio to
grande...mas h uma palavra que agora no me ocorre...
         -- Pode pensar com calma.
         -- Ele era um entusiasta, como se diz. Era isso que eu
queria dizer.
         Eu achei graa. E disse:
         -- E era mesmo. Fora isso, tinha uma boa dose de
autoconhecimento. E inclusive no lhe faltava auto-ironia. E nem todos
possuem essa qualidade.
         Mame olhou para mim, perplexa. E disse:
         -- Pode ser. Mas como voc sabe? Eu apontei para o mao de
papis.
         -- Qualquer hora voc l tudo isso -- disse eu. -- Ento vai
entender a que eu estou me referindo.
         Uma vez mais, a garota das laranjas teve de enxugar os
olhos.
         Mas a gente no podia continuar chorando no meu quarto. O
que Jorgen ia pensar? Eu no queria estar na pele dele.
         -- Precisamos nos juntar ao resto do pessoal -- disse ela.

         Quando ns entramos na sala, eu estava me sentindo anos e
anos mais velho do que algumas horas antes, quando fui para o quar-
to com a carta do meu pai. Estava me sentindo to adulto que nem dei
ateno aos olhares curiosos que me examinavam.
         A mesa j estava servida, pratos frios. Havia frango assado
e presunto, salada Waldorf com fatias de laranja e uma travessa grande
de salada verde. Os cinco nos sentamos, eu  cabeceira.
         Mame costuma dizer: "Quando h muita gente reunida, al-
gum tem de se encarregar da regncia". Pois eu tive a sensao de que
havia assumido a regncia. Mesmo porque todo mundo estava olhando
fixamente para mim. De certo modo, eu era o personagem principal.
         Quando nos sentamos, eu olhei a minha volta e disse:
          -- Acabo de ler uma longa carta que meu pai escreveu pouco
antes de morrer. E entendo que vocs todos querem saber o que ele tinha
para me dizer...
          A sala ficou em silncio. O que eu estava querendo dizer afi-
nal? E como prosseguir? Eu disse:
          -- A carta era para mim. Mas eu no era o nico que o meu
pai amava. E agora tenho uma notcia boa e uma ruim. Vou dar pri-
meiro a boa. Todos vocs podem ler a carta inteira. Inclusive Jorgen. A
notcia ruim  que hoje eu no vou deixar ningum l-la.
          Vov, que estava curiosssima, baixou a cabea. A sombra
da decepo lhe marcou o rosto. Essa sombra foi a prova de que ela no
tinha lido a carta do meu pai, nem agora nem antes, h onze anos. De
fato, a carta passara onze anos no forro do carrinho de beb.
          Eu disse:
          -- A carta do meu pai... eu preciso digerir um pouco as coisas
que ele diz antes que todo mundo comece a falar nelas. Fora isso, preciso
de tempo para pensar na resposta que vou dar a uma pergunta
importantssima que ele faz. Mesmo porque eu ainda no sei como
dar essa resposta.
          Todos pareceram aceitar a minha deciso. Ningum
insistiu nem fez perguntas. Jorgen at se levantou e se aproximou de
mim. Deu uma palmada no meu ombro e disse:
          -- Acho razovel, Georg. Voc tem todo o direito de esperar
at que tudo se assente um pouco.
          E eu disse:
          -- Fora isso, j  quase meia-noite. Hora de dormir.
          Eu ouvi bem o modo adulto e solene como me expressei.
Agora eu era adulto.

         Mas nessa noite no consegui conciliar o sono. Fazia tempo
que a casa estava mergulhada no silncio, e eu continuava estendido na
cama, olhando para a branca paisagem. Horas antes tinha parado de
nevar.
           No meio da noite, eu me vesti. Pus o casaco forrado, o gorro,
o cachecol e as luvas. Ento sa pelo jardim-de-inverno e fui para a
varanda. Limpei a neve do banco de ferro fundido e me sentei. Apaguei
a luz.
           Olhei para o firmamento salpicado de estrelas e tentei
reviver o estado de esprito daquela noite em que estava no colo do meu
pai. Acreditei me lembrar do abrao apertado dele. Acreditei me
lembrar que ele estava fazendo isso para que eu no casse da
espaonave. E ento aquele homem corpulento, com voz de trovo,
comeou a chorar.
           Tentei pensar na pergunta importante que ele havia feito.
Mas no soube o que responder.
           Pela primeira vez na vida tive a conscincia exata de que,
um dia, tambm deixaria este mundo e tudo perderia. Era uma idia
horrvel. Uma idia insuportvel. E meu pai havia aberto meus olhos
para isso. Coisa que, no entanto, eu no achei horrvel. Era bom saber
o que me esperava. Era como saber quanto dinheiro estava guardado no
banco. Por outro lado, era maravilhoso saber que eu s tinha quinze
anos.
           Entretanto: apesar de tudo, talvez fosse melhor no ter
nascido, pois eu j estava morrendo de tristeza porque um dia seria
obrigado a ir embora daqui. Mas decidi fazer aquilo que meu pai escre-
vera na carta. Dar tempo ao tempo antes de responder a uma pergunta
to difcil.
           Inclinei a cabea para trs e fiquei olhando para as muitas es-
trelas e os planetas l em cima. Tentei me imaginar no interior de uma
espaonave. Vi mais de uma estrela cadente. E fiquei um tempo
assim.
           Depois ouvi o barulho de uma porta. Mame saiu 
varanda. J comeava a clarear.
           -- Voc est aqui? -- perguntou. Era bvio que eu estava
l.
           -- No conseguia dormir.
           -- Eu tambm no. Eu a fitei e disse:
           -- Ponha um agasalho e venha ficar comigo, mame.
           Ela no tardou a voltar. Estava com o casaco preto que usa
desde que eu me conheo por gente. Mesmo assim, no tinha certeza de
que era o que ela estava vestindo na catedral. Mas quando se sentou ao
meu lado, eu disse:
           -- Agora s falta a fivela de prata no cabelo. Mame levou
a mo  boca. Depois perguntou:
           -- Ele escreveu sobre isso?
           Como resposta, eu apontei para um planeta grande que
acabava de despontar no leste. Sem dvida era um planeta, pois no
brilhava como as outras estrelas; eu tinha noventa por cento de certeza
de que se tratava de Vnus. E perguntei:
           -- Est vendo o planeta l em cima?  Vnus, tambm
conhecido como estrela da manh. Sempre que via esse planeta, o meu
pai pensava em voc.
           Quando a gente est com a cabea repleta de pensamentos, ou
diz alguma coisa, ou ento fica calada. Mame ficou calada. Depois de
algum tempo, eu disse:
           -- Passei uma noite inteira aqui com o meu pai pouco antes
de ele ir para o hospital. Voc pode ler isso na carta dele. Mas agora
quem est aqui somos ns.
           -- Georg, eu estou contente com essa carta e tenho um pouco
de medo. Quero que voc esteja em casa quando eu a ler. Voc promete?
           Eu respondi com um aperto de mo. Podia imaginar que era
importante para ela saber que eu estava por perto quando lesse a carta
do meu pai. No era Jorgen que ia consol-la quando a garota das
laranjas lesse a longa carta de Jan Olav. Mas ele tambm poderia ler
a carta do meu pai,  claro que sim. Eu no tinha a menor inteno de
facilitar a vida dele. Eu disse:
          -- Naquela noite, quando estvamos aqui, meu pai disse
que teria de nos deixar.
          Ela estremeceu e disse:
          -- Sabe, Georg... no sei se consigo continuar falando sobre
isso agora.  uma coisa que voc precisa respeitar. No v que abriu
antigas feridas? D para entender?
          Ela estava quase zangada. Estava zangada.
          -- Sim,  claro -- respondi. --  claro que d para
entender. Ainda ficamos muito tempo na varanda, mas no dissemos
mais nada. Talvez tenhamos passado uma hora sentados lado a lado.
Fiquei impressionado. Mame sempre se queixava de ser friorenta.
          Eu apontava para cima toda vez que descobria uma coisa
nova no cu, mas logo as estrelas comearam a empalidecer cada vez
mais e, enfim, desapareceram quando o dia raiou.
          Antes que nos separssemos, eu tornei a apontar para o cu e
disse:
          -- L em cima flutua um olho enorme. Pesa mais de onze to-
neladas,  grande como uma locomotiva e se move com a ajuda de duas
longas asas.
          Vi que mame se encolheu: afinal, o que eu estava querendo
dizer com aquilo?
          No queria assust-la nem contar uma histria de assombra-
o. Por isso acrescentei, afim de tranqiliz-la:
          -- O telescpio Hubble.  o olho do universo.
          Ela abriu um tpico sorriso de me e, estendendo o brao, ten-
tou me acariciar o cabelo. Mas eu afastei a cabea a tempo. Ela con-
tinuava me considerando uma criana. Talvez julgasse que eu estava me
referindo ao meu trabalho.
          -- Um dia a gente tem de descobrir o que tudo isso significa
-- disse eu.

         Naquele dia, no precisei ir ao colgio. Podia simplesmente
contar a verdade ao professor, disse a minha av. Bastava contar que eu
recebera uma carta do meu pai morto onze anos antes. Em tais si-
tuaes, faz bem parar e respirar um pouco, ela acrescentou.
          Em tais situaes, pensei. Eu no achava to normal assim
receber uma carta do falecido pai.
          Vov e vov acabaram voltando a Tonsberg sem ler a carta do
meu pai. Prometi que eles a receberiam em uma semana o mais tardar.
Vov ficou meio irritada por ter de esperar tanto. Afinal quem tinha
achado a carta fora ela, e insistira muito naquela viagem a Oslo. Mas
o vov a lembrou do que Jorgen havia dito.
          Jorgen teve de ir trabalhar mais cedo aquele dia, eu mal o vi.
Em compensao, mame e eu ficamos em casa. No final da manh,
tirei uma soneca no sof amarelo, j que tinha passado a noite toda sem
dormir. Quando acordei, ns subimos ao sto e comeamos a mexer
nas coisas.
          Pedi que ela me mostrasse todas as fotografias de Sevilha.
Por sorte, ela no havia jogado fora nenhuma, muito embora insistisse
que j "superara aquelas fotos". Disse isso bem no momento em que
pegou o velho retrato do meu pai que, na poca, a garota das laranjas
pintara de memria. No fizemos comentrios sobre o quadro, mas ao
v-lo eu estremeci. Nunca tinha visto um par de olhos to azuis numa
pintura. Imaginei que aquele tom certamente continha uma grande
quantidade de cobalto. E pensei que aqueles olhos deviam ter visto uma
coisa que nenhum outro ser humano viu.
          -- Mas o papai voc no superou -- eu disse. No foi uma
pergunta, foi quase uma ordem.
          Convenci minha me a pendurar o quadro das laranjeiras de
volta no lugar de antes. Tiramos outro quadro da parede e colocamos o
velho exatamente onde estava quando o meu pai escreveu a carta no
computador. Isso foi na poca em que ele tinha de andar pela sala feito
uma cegonha para no pisar nos trilhos do meu trenzi-nho. Foi numa
poca diferente desta.
          Achei que o quadro das laranjeiras estava exatamente no
lugar certo, e at que era bem bonito. Jorgen que engolisse esse pequeno
retorno  situao original, pensei. E, alis, foi o que eu disse tambm.
          Achamos o trenzinho no sto, dentro de uma enorme caixa
de papelo. Tambm achamos o velho computador. Eu o levei para bai-
xo, conectei o cabo do monitor e do HD e tentei entrar no processador
de texto. Era um velho sistema DOS, O processador de texto se chamava
Word Perfect. O pai de um colega meu ainda trabalhava com uma
dessas peas de museu, e eu j havia mexido nela mais de uma vez.
          Mas o programa exigia uma senha de no mximo oito
caracteres para dar acesso aos documentos escritos pelo meu pai. E,
onze anos antes, ningum tinha conseguido descobrir que senha era essa.
          Mame ficou atrs de mim enquanto eu tentava a sorte. Disse
que eles tinham experimentado diversas palavras e tambm muitos
nmeros, por exemplo, datas de nascimento, o nmero da placa do carro,
o da carteira de identidade.
          Eu desconfiava que eles no usaram muito a imaginao.
No tardei a digitar a seguinte palavra com menos de oito letras:
L-A-R-A-N-J-A. E a mquina fez "plim", e mostrou uma lista de
dados no disco rgido.
          Dizer que mame ficou impressionada  pouco. Ela levou as
mos  cabea e quase desmaiou.
          Nos computadores antigos, o comando <dir> corresponde
s "pastas" de hoje em dia. E tambm esse <dir> tinha nomes de no
mximo oito letras. Um deles era "Veronika". Eu usei a seta para
dar "Enter". Esses computadores antigos ainda no tinham mouse.
Ento apareceu o nome de um nico documento, chamava-se
"Georg.car". Tornei a apertar a tecla "Enter". E zs -- eis que
estava diante do mesmssimo texto que eu lera na noite anterior. Voc
est sentado, Georg?  bom que esteja, porque eu vou lhe
contar uma histria eletrizante... Apertei o HOME, O HOME e
ento a seta vertical para percorrer todo o documento. Demorou uma
eternidade, no mnimo dez segundos. E, sim, a ltima frase desse texto
era: Mas o sonho do improvvel tem nome. Chama-se
"esperana".

          O mais genial no meu achado foi o seguinte: quando resolvi
escrever este livro com o meu pai, estava imaginando um trabalho
manual de verdade, com tesoura e cola. Mas tudo acabou ficando
muito mais fcil do que eu esperava, pois agora bastava entrar no velho
documento e inserir o que eu quisesse no texto do meu pai. Assim, tive
realmente a sensao de estar escrevendo um livro com ele.
          Depois de muito quebrar a cabea, consegui ligar a velha im-
pressora. Era uma das tais impressoras de margarida, uma coisa to
incrvel que eu cheguei a temer que um agente secreto do Museu Tcnico
aparecesse aqui para roub-la. Faz um barulho infernal e demora
quatro minutos para imprimir uma nica pgina! Isso acontece porque
um martelinho vai batendo as letras, uma a uma, na fita que as
imprime no papel, quase como uma mquina de escrever. Quando o
meu pai morreu, onze anos atrs, era um aparelho modernssimo!
          Agora eu estou escrevendo no velho computador. Agora,
neste instante. A ltima coisa que escrevi foi: Agora eu estou
escrevendo no velho computador. Agora, neste instante.

          Mame tem um disco intitulado Unforgettable.  uma
gravao interessante, pois nela Natalie Cole canta em dueto com o pai,
o famoso Nat "King" Cole. Pode parecer que isso no tenha nada de
extraordinrio, mas acontece que Natalie canta em dueto com o pai
quase trinta anos depois da morte dele. Em termos puramente tcnicos,
no houve nenhum problema. Ela s precisou cantar por cima da
antiga gravao de Nat "King" Cole. Praticamente, pode-se dizer que
transferiu a voz do pai para outra faixa.
          Do ponto de vista tcnico, no foi nenhuma faanha cantar
em dueto com um homem falecido h quase trinta anos. Mas h de ter
sido um desgaste emocional e tanto. E o dueto  mesmo fantstico. 
"unforgettable".

          No quero "esticar" muito esta histria. Mas ainda faltam
duas coisas. Uma  a resposta que tenho de dar  pergunta dificlima do
meu pai. E depois h algo mais. Vou comear por esse algo mais, pois
decidi terminar o livro com a importante pergunta.
          Depois que nos ocupamos dos velhos quadros e do
computador de museu, mame foi para a cozinha assar bons-bocados.
Sabia que  uma das coisas de que eu mais gosto, por isso os preparou
naquele dia especial. Mas Miriam tambm  louca por bom-bocado.
          Quando o cheiro do doce recm-assado se espalhou na casa,
eu fui para a cozinha. Queria ver se conseguia arranjar um bom-boca-
do. E tambm queria perguntar uma coisa. Na histria da garota das
laranjas h um fio solto. Mame ainda no tinha lido.
          Ela estava justamente pincelando caramelo em dois
bons-bocados. Na mesa da cozinha havia um saquinho de coco
ralado para salpicar no caramelo.
          Eu perguntei:
          -- Quem era o moo do Toyota branco?
          Perguntei s por perguntar. S para mexer com ela. Sabia
que se tratava apenas de um "ex" qualquer. Pelo menos era o que meu
pai dizia na carta.
          Mas minha me ficou estranhamente perplexa. Primeiro se
virou para mim e empalideceu. Ento se sentou  mesa. E suspirou.
          -- Quer dizer que ele escreveu sobre isso tambm!
          -- Acho que estava com um pouco de cime. Como ela ficou
calada, tornei a perguntar.
          -- Voc no pode me contar quem estava no tal Toyota
branco? Ela me encarou, pensativa. A seguir, pareceu decidida a derru-
bar logo a muralha de ao. Falou com voz baixssima:
          -- Era Jorgen.
         Eu cheguei a sentir tontura.
         -- Jorgen? -- perguntei.
         Mame fez que sim. Eu fiquei mais zonzo ainda. Peguei o
saquinho e comecei a espalhar o coco ralado no cho. Virei-o de
ponta-cabea e deixei cair tudo.
         -- Est nevando -- disse.
         Ela continuou sentada  mesa. Mesmo porque era tarde
para me deter. Limitou-se a perguntar:
         -- Por que voc fez isso?
         -- Porque voc tem uma cabea de coco -- gritei. -- Ficar
com dois homens ao mesmo tempo!
         Isso a deixou indignada:
         -- No  verdade! Depois que eu conheci Jan Olav s existia
ele.
         Eu disse:
         -- E quando Jan Olav morreu, s existia Jorgen?
         -- No. No foi assim. S voltei a ver Jorgen anos depois.
Nesses anos s existamos voc e eu, voc sabe disso. Mas quando eu
reencontrei Jorgen, voltei a gostar dele. Demorou muito para que ns
tomssemos a deciso de ficar juntos, muito mesmo.
         Agora eu estava quase com pena do velho filhote de
passarinho. Ela continuava to plida. Mesmo assim, eu disse:
         -- Ento talvez eu possa perguntar de qual dos dois
cavalheiros a garota das laranjas gostava mais?
         Ela no se zangou. Mas se manteve firme. Depois comeou a
chorar.
         Achei melhor no tocar mais no assunto, pois isso o meu pai
havia me ensinado: eu no tinha o direito de me intrometer em algo que
no me pertencia. Precisava evitar me aproximar demais de um conto
de fadas que no queria compartilhar suas regras comigo.
         Mas tambm tinha direito aos meus prprios pensamentos.
         O que eu acabava de ouvir no me agradava nada. Porque,
afinal de contas, quem saiu ganhando foi o sujeito do Toyota branco. A
culpa no era dele. Talvez no fosse de ningum. Mas ainda bem que
o meu pai no ficou sabendo de nada.
           Talvez, no fundo, o erro tenha sido dele. Por no ter
conseguido observar as regras. Por no ter agentado passar seis meses
 espera da garota das laranjas. Por isso, poucas horas depois, viu a
pomba morta na sarjeta, uma pomba branca ainda por cima.
           Sempre vou pensar no meu pai como uma pomba branca.
Mas no tenho tanta certeza de que acredite no destino. Acho que meu
pai tambm no acreditava. Do contrrio, no teria se interessado tanto
pelo telescpio Hubble.
           No fim daquela tarde, ns comemos bons-bocados com gotas
de chocolate na companhia de Jorgen e Miriam. Havia dois com
caramelo e coco ralado. Ficaram para Jorgen e Miriam. Achei que eles
tinham direito.

          Alguns dias depois do festim de bons-bocados, continuo
sentado diante do computador. Preciso decidir como responder  difcil
pergunta que meu pai me fez. Tenho um prazo fixo, que  amanh.
Ainda no deixei ningum ler a carta. Mas amanh os meus avs vm
tomar o lanche de domingo aqui em casa. E, com isso, o prazo chega ao
fim.
          Nos ltimos dias, eu praticamente s pensei na pergunta difi-
clima sobre a qual tenho de me manifestar agora. Li quatro vezes a
longa carta e pensei: coitado do meu pai, coitado. Lamento muitssimo
ele j no estar aqui. Mas as coisas que escreveu no valem s para ele.
Valem para todos os seres humanos em todo o mundo, para os que
estiveram aqui antes de ns, para os que agora vivem e para todos os que
viro depois.
          "A gente vem uma nica vez a este mundo", escreveu o meu
pai. Ele escreveu muitas vezes que ns no passamos seno um breve
momento aqui. No sei ao certo se vivendo isso exatamente como ele.
Estou h quinze anos aqui, e esses anos no me parecem "um breve
momento".
          Mas acho que sei o que o meu pai quis dizer. Que a vida 
curta para todos os que conseguem entender que, um dia, o mundo che-
gar definitivamente ao fim. Mas nem todos entendem o que significa,
de fato, um dia partir para sempre, para toda a eternidade. Existe
tanta coisa que dificulta essa percepo, hora a hora, minuto a minuto.
          "Imagine que, h muitos bilhes de anos, no
momento em que tudo foi criado, voc estivesse no umbral
desse conto de fadas", escreveu o meu pai. "E tivesse a opo
de nascer neste planeta se quisesse. No saberia quando ia
viver nem quanto tempo passaria aqui, mas, fosse como
fosse, seria apenas questo de alguns anos. S saberia que,
se decidisse um dia nascer neste mundo, quando chegasse a
hora ou, como se diz, quando `o ciclo se completasse', teria
de deix-lo e a tudo quanto nele existe."
          Ainda no consegui decidir. Mas, com o decorrer do tempo,
concordo cada vez mais com o meu pai.  bem possvel que eu tambm
recusasse educadamente essa oferta. O brevssimo momento que me 
dado viver neste mundo  minsculo em comparao com a eternidade
em termos de tempo anterior e posterior.
          Mesmo sabendo que uma coisa era uma delcia maravilhosa,
eu me recusaria delicadamente a degust-la se o pouquinho que me
deixassem provar no pesasse mais do que um miligrama.

          Herdei do meu pai uma tristeza profunda, a tristeza de
saber que um dia vou ter de deixar este mundo. Aprendi a pensar
em "noites como esta, em que j no me ser dado viver". Mas
tambm herdei a viso do quanto a vida  maravilhosa. No vero, vou
estudar seriamente os abelhes. (Tenho um cronmetro. Talvez seja
possvel medir precisamente a velocidade a que eles voam. E vou ter de
pesar o abelho.) Tambm no tenho nada contra um safri nas sava-
nas da frica. Alm disso, aprendi a olhar para o cu e a me
assombrar com tudo que se encontra no espao, a muitos milhares de
anos-luz de distncia. Isso eu aprendi antes mesmo de completar quatro
anos de idade.
           Mas no  l fora que hei de comear. Preciso comear por um
outro lado. Talvez tenha de tomar essa deciso  minha prpria ma-
neira.
           Se a histria da garota das laranjas fosse um filme e eu
estivesse no cinema, sabendo que no teria nascido para uma existncia
neste mundo se Jan Olav e a garota das laranjas no houvessem se
encontrado, neste caso eu os instigaria e faria o possvel para que no
passassem um pelo outro sem se ver. O meu corao bateria feito um
martelo. Eu teria medo de que um dos dois fosse to fanaticamente ateu
que se recusasse a ir ao culto de Natal. Talvez chorasse amargamente
se a garota das laranjas aparecesse de repente na Plaza de la Alianza
junto com um dinamarqus. E, quando Veronika e Jan Olav
finalmente ficassem juntos, teria medo da mais remota possibilidade de
um pequeno desentendimento entre eles. Pois, no que me diz respeito,
uma briga sria poderia assumir dimenses csmicas.

         O mundo! Neste caso eu nunca o alcanaria. Jamais viveria
o grande segredo.
         O espao! Nunca ergueria a vista para contemplar o
esplendor de um cu estrelado!
         O Sol! Nunca poria os ps na ilhota quente de Tonsberg.
Nunca saltaria na gua de cabea!

          Agora entendo tudo isso. De sbito, compreendo todo o
alcance. S agora percebo de corpo e alma o que significa no ser. Sinto
um aperto no estmago. Passo mal. Mas tambm fico revoltado.
          Fico furioso quando penso em desaparecer um dia -- e
ento vou partir no por uma ou duas semanas, no por quatro nem
por quatrocentos anos, mas por todo o sempre.
          Tenho a sensao de que me pregaram uma pea, pois
primeiro algum chega e diz: tome, o mundo  todo seu, pode brincar
aqui  vontade. Este  o seu chocalho, o seu trenzinho, esta  a escola
que voc vai comear a freqentar no outono. Para depois gritarem: pri-
meiro de abril, primeiro de abril, voc caiu feito um patinho! E ento
voltarem a me arrancar o mundo das mos.
          Sinto que todos me abandonaram, deixaram-me a ver
navios. No tenho onde me segurar. Nada pode me salvar.
          E no  s o mundo que eu perco, no  s tudo e todos que
amo. Eu me perco a mim mesmo.
          Zs -- e eis que eu sumi.

           Estou furioso. To furioso que sou capaz de vomitar de uma
hora para a outra. Porque eu vi o diabo, olhos nos olhos. Mas no
quero deixar que esse diabo tenha a ltima palavra. Evito o mal antes
que ele me domine. Opto pela vida. Opto pela pontinha de bem que me
foi concedida, e talvez exista algo que a gente pode chamar de o Bom
ou a Boa. Quem sabe no h um Deus reinando acima de tudo?
           Sei que o mal existe, pois ouvi o terceiro movimento da
Sonata ao luar de Beethoven. Mas tambm sei que existe o bem. Sei
que entre dois abismos desabrocha uma bonita flor e que, em breve, um
alegre abelho sair voando dessa flor.
           Ah! Agora eu vi. Felizmente, nessa equao tambm h
um lpido alegreto. Entre as duas tragdias vem o divertido teatro de
fantoches, e esse espetculo, eu no quero perder. Estou disposto a apos-
tar tudo no segundo movimento! Existe uma coisa chamada "fome de
viver", e, apesar dos pesares, eu no preciso viver esses dois abismos.
Eles no existem, para mim no existem. A nica coisa que existe 
um audacioso alegreto.
           Acho que agora estou pensando coisas muito inteligentes, te-
nho de admitir. Franz Liszt descreveu o segundo movimento da So-
nata ao luar como "uma flor entre dois abismos". Neste momento
me ocorre que a resposta ao grande dilema desabrochou em mim co-
mo uma flor.
         E ento procuro uma vez mais recuar alguns bilhes de anos
no tempo. Porque agora tenho de decidir se quero viver algumas centenas
de milhes de anos na Terra ou se prefiro abrir mo disso por no
concordar com as regras. No entanto, agora eu sei onde estaro os meus
pais. Agora sei como essa histria comeou. Sei como vai ser quando eu
amar.
         Pois vamos  resposta. Vamos  deciso solene. Eu escrevo:

         Querido papai! Obrigado pela sua carta. Foi um
choque para mim, e me deu muita alegria e tambm muita
tristeza. Mas agora, finalmente, tomei a minha difcil
deciso: tenho certeza absoluta de que optaria pela vida na
Terra, ainda que fosse por "um breve momento". Por isso,
pode se livrar de vez dessa preocupao. Pode "descansar
em paz", como se diz. Obrigado por ter sado  caa da
garota das laranjas.
         Mame est na cozinha, preparando o jantar.
Anunciou um prato francs. Jorgen no demora a chegar
do que ele chama de seu "jogging de sbado", e Miriam est
dormindo. Hoje  17 de novembro, ainda faltam cinco
semanas para o Natal.

        Voc me fez algumas perguntas interessantes sobre
o Hubble, e a verdade : faz pouco tempo que escrevi um
trabalho sobre esse telescpio para o colgio!!!
        E agora vou lhe contar um grande segredo: acho
que sei o que vou ganhar de Natal! Jorgen deu uma dica,
pelo menos, mostrou-me umas fotografias fantsticas no
jornal e, resumindo, eu desconfio que vou ganhar um
telescpio. Pode parecer incrvel, mas Jorgen tambm leu o
meu trabalho, duas vezes alis, muito embora no seja o
meu pai verdadeiro. Disse que ficou orgulhoso. Acho que,
para ele, eu sou to importante quanto Miriam, ou, pelo
menos, quase to importante quanto ela, e para ser franco
penso que no posso pedir mais. Gosto desse cara quase
como se ele fosse o meu verdadeiro pai.
         Se eu ganhar o telescpio no Natal, vou lev-lo a
Fjellstolen, porque aqui na plancie o que mais sobra 
aquilo que os astrnomos chamam de "obstrues pticas".
Tambm j decidi que nome dar ao telescpio. Vai ser
"telescpio JAN OLAV". Talvez Jorgen tora o nariz, mas, se
ele quiser que ns continuemos sendo bons amigos, vai ter
de engolir isso. Existe muita coisa esquisita neste mundo!
         Quando no h luar, o cu de Fjellstolen fica to
cheio de estrelas que a gente chega a perguntar por que o
telescpio espacial tem tanta importncia assim. Tudo bem,
tudo bem, papai, eu no sou to bobo quanto voc talvez
pense. Sei que no espao as estrelas no brilham. Mas, de
vez em quando, pode ser interessante ficar alguns segundos
deitado no fundo de uma piscina, olhando para a borda l
em cima. Alguma coisa a gente sempre v, e  claro que
pode tentar adivinhar o que  que est se movendo acima
da superfcie da gua. Em todo caso, devia ser possvel criar
uma impresso til das crateras da Lua, das luas de Jpiter e
dos anis de Saturno. E quem sabe um dia, no futuro, eu
no chegue a dar umas voltas numa espaonave de verdade.
         Um grande abrao de Georg, que continua
morando no Humlevei e sabe que esta era a casa de um
sujeito maravilhoso.

        P. S. Depois de ter lido a sua longa carta, acho que
vou criar coragem para falar com a garota do violino.
Talvez j na segunda-feira. Mesmo porque agora o que no
me falta  assunto. E pode ser que ela me mostre o violino.

          Chamo a mame. Ela vem vindo. Enquanto escrevo esta
frase, entrego-lhe a carta do meu pai. Ela fica com aquela expresso.
          -- Agora voc pode ler a carta do meu pai -- digo.
          Pode ser que, numa outra ocasio, eu a deixe ler o livro que
escrevi com ele. Mas no antes do Natal, isso no. E s se eu ganhar
mesmo o telescpio, j que embuti o JAN OLAV neste relato.
          Tenho um pouco de medo de que leiam o que escrevi sobre a
garota do violino. Mas s um pouco. Estremeo um pouco quando
imagino mame e Jorgen no quarto, lendo sobre a minha paquera. Mas
s um pouco.

                                 ***

          Mame se sentou no sof de couro amarelo da sala com a carta
do meu pai. Disse que quer folhe-la a ss antes que Jorgen chegue do
jogging de sbado. Eu prometi ficar por perto, e estou observando pela
porta. s vezes tambm a ouo, e acho que a ouo soluar. Para mim,
isso mostra que ela no esqueceu Jan Olav por completo.
          Mas continuo escrevendo.  que tenho uma espcie de P. S.
para todos os que leram este livro. Trata-se de um bom conselho, s isso:
          Perguntem aos seus pais como eles se conheceram. Pode ser
que eles contem uma histria interessantssima. Se no tiverem certeza
de que eles vo contar exatamente a mesma histria, perguntem a cada
um separadamente.
          E no se surpreendam se eles ficarem sem jeito no comeo. 
assim mesmo. Esses contos de fada sobre os quais ns acabamos de
conversar nunca so perfeitamente iguais, mas agora eu percebo, pouco
a pouco, que todo conto de fadas tem regras mais ou menos rgidas, que
tornam difcil falar neles. Talvez vocs devam tentar contorn-las. Nem
sempre  fcil tom-las ao p da letra, e existe uma coisa que a gente
chama de "tato".
           Quanto mais minuciosa for a histria, tanto mais d nos
nervos ouvi-la, pois bastava alterar um pequeno detalhe para que o
final fosse totalmente diferente, para que vocs no tivessem nascido.
Aposto que h milhares e milhares de nfimos pormenores que teriam
modificado absolutamente tudo, e vocs no teriam tido a menor chance.
           Ou, para citar o meu inteligentssimo pai: a vida  uma
loteria gigantesca, na qual s os nmeros vencedores so visveis.
           Voc que est lendo este livro  um nmero vencedor. Sorte
sua!


                                FIM
